Artista: Azevedo Silva País: Portugal Site: Outro que só tem myspace. www.myspace.com/azevedosilva. Não sei porquê, mas algo me diz que o site www.lastima.net também lhe deve pertencer... Album: Autista (2008) Destaque: A Morte (MP3)
Azevedo Silva é o vocalista dos Madcab, mas também possui uma carreira a solo. Ou melhor, Azevedo Silva, o artista a solo, é também vocalista dos Madcab. Isto porque os Madcab têm um album e Azevedo Silva já vai num EP, dois discos em estúdio e o mais recente Ao Vivo na Sociedade, que, como o nome indica, é ao vivo. Algures na sociedade.
Autista é o segundo disco a solo de Azevedo Silva e o que dizer sobre o mesmo? É acústico e simples, porém intrincado e complicado. As letras são acessíveis e no entanto desconfortáveis. O calor febril é quebrado por arrepios gelados. Austista é uma redoma. É o rapaz-bolha. Quer-se ajudar, quer-se lá entrar, mas a porta não tem chave e o rapaz-bolha continua no seu mundo, a fazer o que gosta, tic-tac-tic-tac estás aí mas eu não te vejo. Autista é autista. Entra na alma e faz doi-doi no âmago. É bom. E é grátis!
Quem quiser descobrir o que Azevedo Silva tem para nos dizer, basta dirigir-se ao site www.lastima.net e clicar em edições. Está por lá todo o seu catálogo, incluindo o disco dos Madcab, para download gratuito.
Escondido no site encontra-se também o EP Clarabóia (estava escondido estava, mas agora está aqui). É pena este EP não ter o destaque devido, até porque no Clarabóia encontramos uma versão bastante interessante da Devil Town do Daniel Johnston. E quem gosta do Daniel Johnston é meu amigo!
(Gostava de vos poder ter encontrado uma capa com uma resolução decente, mas foi o que se pôde arranjar)
Os Havalina Rail Co., também conhecidos como Havalina (em horna à faixa final de Bossanova, dos Pixies), foram uma banda Norte-Americana que se considerava Punk na atitude, porque sonoramente estava mais próxima do Jazz, do Folk e do Rock. Extinguiram-se em 2005, mas deixaram para descarga livre aquele que consideram o seu melhor momento de forma, o disco Russian Lullabies, um album temático sobre o país dos Czares, da Perestroika e da namorada do Henrique Iglésias. Fazem-me lembrar ao mesmo tempo, os DeVotchKa, os Arcade Fire e o Tom Waits. Étnico, estilo East-Meets-West, entre o Folk mais clássico e os momentos mais experimentais e caóticos, Russian Lullabies é um disco cheio e poderoso.
No topo do site onde Russian Lullabies se encontra, pode-se ler "Free downloads because we record music that should be listened to." Não podia estar mais de acordo. Para descarregá-lo, basta clicar aqui. Ou aqui, se quiserem ter mais trabalho a descarregar o disco. O caminho mais directo é o primeiro link. Não digam que não vos avisei. Quem vos avisa, autor de blog é.
Artista: b (fachada) País: Portugal Site: Não tem. É forreta, tem myspace. Para que conste, www.myspace.com/bfachada Album: Mini CD Produzido por Walter Benjamin (2008) Destaque: Mimi (MP3)
Este gajo deve pensar que é o Prince português. Editou o primeiro EP como B, depois passou para os registos seguintes como b (fachada), e agora que editou o seu primeiro longa duração comercialmente (Um Fim-de-Semana no Pónei Dourado, um disco brilhante, editado pela FlorCaveira, a quem tiraria o meu chapéu se o usasse), assina como B FACHADA. Mas no myspace está b fachada, tudo com letra pequena. Em que ficamos afinal?
O que é certo é que um nome não interessa, mas sim o conteúdo. b (fachada) é um letrista inventivo e imaginativo, misturando neste trabalho partes líricas em Português e Inglês (interessante como conseguiu inserir versos dos clássico Let's Do It, Let's Fall in Love em A Primavera), e mesmo em Francês (vide Violência Doméstica). Toca Folk mais alegre que melancólica, e possui uns arranjos musicais muito interessantes (exemplo: Bicho). Em suma, este Mini CD é o aperitivo perfeito para o álbum que, volto a referir, está aí nas lojas e é mesmo, mesmo mesmo bom!
O disco encontra-se para escuta e download directo aqui. Foi editado pela Merzbau, uma netlabel responsável pela edição de projectos bem interessantes, mas que infelizmente já fechou as portas. Portanto, se querem este disco, assim como os EPs Até Tobosso e b (fachada) Sings The Lusitanian Blues, bem como dezenas de outros discos de artistas independentes, façam-no já, enquanto o site se mantém online. Porque, perdendo-se o site da Merzbau, perde-se também um episódio de grande valor na música Portuguesa. O que seria miserável.
Artista: Double Dan País: Suécia Site: Não têm mas a netlabel deles possui uma biografia decente e mais algumas informações úteis sobre a banda. www.23seconds.org/doubledan.htm Album: Emotions in Motion EP (2005) Destaque: Time is On My Side (MP3)
Os Suecos são linhas de montagem de Pop. Ninguém a faz como eles. Deve ser da pureza do ar ou do salmão fumado. Mas a raça Sueca tem qualquer coisa de especial em termos musicais, sem dúvida. Os Double Dan (chamam-se assim por terem dois "Danes" na banda) são gente experiente nestas andanças, ligados que estão aos Acid House Kings, aos Sambassadeur e aos Club 8. Para a maior parte das pessoas estes nomes não dizem nada, mas para os fãs do género, estas são 3 das maiores bandas de Twee Pop da Suécia!
O EP dos Double Dan chama-se Emotions in Motion e peca por ser tão curtinho. contém apenas 3 luminosos temas, e deixa uma vontade frustrante de querer ouvir mais e não poder. Felizmente, e caso gostem deste EP, não se esqueçam de procurar ouvir também as bandas acima referidas, especialmente Acid House Kings. São bandas maravilhosas para nos elevar o espírito!
Emotions in Motion pode ser descarregado aqui (é só clicar onde diz Download music and art). Não se esqueçam também de visitar o restante site da netlabel 23 Seconds (aqui), e descobrir mais do seu catálogo. Cada disco que descarregarem traz um ficheiro com informação sobre outros lançamentos da netlabel, portanto há de tudo para todos, para o menino e para a menina!
Artista: Instiga País: Brasil Site:www.instiga.com Album: Tenho uma Banda (2008) Destaque: Carta de Demissão (MP3)
Tenho Uma Banda é já o terceiro disco dos Brasileiros Instiga, sendo também o terceiro oferecido gratuitamente na internet. O que os leva a granjear um culto já considerável no seu país de origem. O novo album do colectivo, editado sem apoio de editoras ou distribuidoras, é para mim o mais forte da banda. Difere bastante do Máquina Milenar e do aclamado Menino Canta Menina. Porque esta banda já vem com muito quilómetro no pé, porque se nota que possuem prazer em tocar juntos, e porque todas as 17 faixas deste trabalho têm um valor especial, diferindo sonoramente e convergindo num objectivo final: o prazer auditivo. Esse mesmo deleite vai aumentando à medida que o disco avança, mas gosto especialmente da sequência Carta de Demissão, seguida pela A Freira e Enquanto Isso na Bélgica. Resumindo, querem conhecer uma boa banda de Rock Brasileiro? Oiçam Instiga.
A discografia da banda está no site www.instiga.com. Pode-se sacar tanto este como os outros dois discos da banda (e recomendo a faixa Sabiá do anterior Menino Canta Menina). Basta entrar no separador que diz "Discografia" E depois é clicar na capa do disco. E depois é carregar em "baixar", que é Brasileiro para "sacar". E depois é esperar que saque. E depois é ouvir.
Clément Marion é um Francês radicado na Bélgica, que edita a sua música com o nome de joiejoiejoie. Green EP é o seu segundo trabalho, gratuito. Um disco curtinho, dedicado à cor verde, bucólico como o campo, bom para se deitar na relva a observar as nuvens a passar com uma palhinha na boca. Mesmo calmo e bucólico, joiejoiejoie não deixa de ser experimental e as faixas mais fortes do EP, Escalope de Dinde e Hyper Green, deixam um travo aos Animal Collective do tempo dos Sung Tongs. O que é bom sinal, claro.
Green pode ser descarregado aqui. Podem sacá-lo comodamente num ficheiro compactado ou incomodamente musica a musica.
joiejoiejoie edita os seus trabalhos pela Poni Republic, uma netlabel dedicada a música experimental, representando artistas maioritariamente francófonos e da América do Sul. No antigo site da editora poderão encontrar o primeiro EP deste artista, caso estejam interessados. É radicalmente diferente, mais ambiental e experimental, mas igualmente bom. No antigo site poderão também encontrar uma bonita compilação chamada Ride Your Poni, que contém faixas da maior parte das bandas representadas pela netlabel. Aconselho. Para que conste:
Artista: Feromona País: Portugal Site:www.feromona.net Album: Uma Vida a Direito (2008) Destaque: Conversa de Cama (MP3)
Diz-me o meu amigo last.fm que os Feromona são um Power-trio de rock português de Lisboa, e que existem já desde 2003. O album Uma Vida a Direito já anda por aí desde 2008 mas como tenho andado distraído só dei por eles graças ao teledisco da Psicologia que tem passado na Sic Radical.
O estilo da banda remete-me para os Ornatos Violeta (mais o "Cão" do que o "Monstro"), uma comparação que os dignifica. Possuem garra e um estilo lírico muito rico e irónico, e iria jurar que o vocalista era do Porto, não tivesse lido antes a biografia da banda. Quem viu o teledisco acima referido, desengane-se. A banda é muito melhor do que aparenta pela amostra visual, e o disco é uma surpresa a todos os níveis. Bisturi, Paquiderme Magrinho e principalmente a faixa inicial, Conversa de Cama, merecem todo o destaque possível.
O disco pode ser descarregado gratuitamente através do site da banda, após o preenchimento de um pequeno formulário. Quem quiser saltar o formulário pode descarregá-lo directamente aqui. Saca, Baby!
Artista: Tsui País: EUA Site:tsuimusic.com Album: Half Man Army (2007) Destaque: Shorthand (MP3)
Eu mantenho este blog há tanto tempo que já não me lembro se referi os Tsui ou não. Acho que os descobri durante o meu ano sabático, se bem me lembro. Os Tsui são na verdade o projecto a solo de Mark Kraus, songwriter de Brooklin, que já nos idos de 2007 resolveu editar o seu Half Man Army gratuitamente pelo seu site. E, passados dois anos, eu pergunto-me, como é que mais pessoas não conhecem este trabalho? Half Man Army é o trabalho de um homem-banda, simples, bem composto sonoramente, frágil nas vocalizações mas apaixonado na entrega. Um disco destes que agradará sobremaneira a fãs de Elliott Smith, não merece a obscuridade à qual foi votado e este rapaz devia pelo menos dar montes de concertos na sua localidade, mas pelo que vejo pelo no seu site, até no seu local de origem Mark Kraus mantém o low-profile. Half Man Army é um disco belíssimo, simples, puro e grátis. O segundo trabalho deverá sair este ano.
Pode ser descarregado gratuitamente em tsuimusic.com, ou, se clicarem com o botão direito do rato e escolherem a opção "guardar como", aqui.
Kath Bloom é uma cantora folk do Connecticut. Loren Mazzacane Connors é um guitarrista talentoso e sub-valorizado, tendo atingido a maior visibilidade da sua carreira através de colaborações com Thurston Moore e Jim O'Rourke dos Sonic Youth. Em 1976, Bloom e Connors juntaram-se numa parceria que durou oito anos e deu origem a sete albuns e alguns singles. Em 2008, dois dos discos mais importantes desta parceria, Sing The Children Over e Sand On My Shoe foram reeditados em conjunto.
Sing The Children Over e Sand On My Shoe, editados em 1982 e 1983 respectivamente, são belíssimas obras folk, de uma simplicidade desarmante. Apenas com 2 guitarras entrelaçadas, a voz de Kath Bloom e os murmúrios de Loren Mazzacane Connors apelam ao nó na garganta, aquela tossezinha na alma que só a música nos consegue fazer sentir. A guitarra de Mazzacane canta a mesma dor que Bloom, que toca no seu instrumento os mesmos gemidos que Mazzacane. Uma parecia dinâmica e honesta no limiar da perfeição. Bloom e Mazzacane são a sua música.
Ambos os discos são assombrosamente belos, mas Sand On My Shoe destaca-se por ter sido inteiramente escrito por Kath Bloom, enquanto que Sing The Children Over contém alguns temas tradicionais norte-americanos. A voz sofrida de Bloom e a técnica superior de guitarra da Connors conferem a estes trabalhos um poder crú a fazer lembrar os Blues à beira-rio do passado. Dois discos que caíram no esquecimento mas que podem ser redescobertos agora, numa edição dupla remasterizada em cd e com algumas faixas bónus.
Elizabeth Cotten nasceu em 1895. Desde tenra idade, começou a brincar com os instrumentos musicais de seu lar e aos 8 anos já sabia tocar banjo à sua maneira muito peculiar. De pouco lhe serviu esta habilidade, pois o inicio do século XX não era fácil para uma pobre negra de North Carolina. Cedo começou a trabalhar como doméstica, até ser descoberta pela família a quem limpava a casa, 25 anos depois da última vez que tocara numa guitarra e num banjo.
Cotten começou a actuar e a gravar as suas canções já bem depois dos 60 anos. Sendo canhota, Cotten aprendeu a tocar banjo com as cordas "ao contrário", ou seja, com o encordoamento para destro, utilizando o polegar para fazer as vezes dos outros dedos. Mais tarde, quando passou as suas composições para guitarra, inadvertidamente acabou por criar um novo estilo de tocar o instrumento. Inicialmente tentando tocar guitarra como se de um banjo se tratasse, Cotten desenvolveu um dedilhado muito próprio. De referir também que Elizabeth nunca afinava a guitarra, nem nunca aprendeu uma pauta, tocando de ouvido. Elizabeth não sabia sequer o nome das notas! E os seus acordes são quase surreais, pela ginástica de dedos envolvida.
Freight Train and Other North Carolina Folk Songs and Tunes, o seu disco de estreia, é uma das poucas obras de Elizabeth Cotten existentes em cd, contendo alguns dos temas mais emblemáticos da sua carreira, como Freight Train (escrita aos 12 anos e tocada regularmente durante oito décadas!) e Going Down The Road Feeling Bad. É um disco de Blues crú, sem qualquer produção, só Cotten sentada na sua cama, dedilhando a sua guitarra, cantando pontualmente, uma avózinha a tocar só para nós. Uma óptima escuta para os fãs de guitarra acústica.
Elizabeth Cotten actuou até aos oitenta e muitos anos. Faleceu em 1987, com a bonita idade de 92 anos.
Emma Lee-Moss. Menina artista. Gosta de brincar à apanhada, ao pião e às palavras. Escritora de canções. Cantora de segredos. Auto-intitulada a maior. Emmy The Great, diz ela. E nós acreditamos. Como se tivessemos hipótese de discordar.
Emmy The Great palmilhou muito terreno até chegar a este First Love, editado já em 2009. Emigrou de Hong Kong para Londres. Lançou singles atrás de singles desde 2005 até agora, abriu concertos para gente como Martha Wainright e Tilly and the Wall, solidificou a escrita, montou uma banda, tocou, tocou, tocou, tocou.
Em termos musicais, First Love é um disco de Pop acústico competente. As músicas, inicialmente intimistas, têm uma apetência para se transformarem quase inocentemente em composições épicas, e a voz de Emmy é segura e confiante. O que se destaca em First Love é mesmo a soberba qualidade da escrita da menina. Com um vocabulário rico, sentido de humor refinado e habilidade para conseguir tirar rimas impossíveis da cartola, Emmy prova que é a maior sem necessitar de recorrer à regra dos três simples. Dylan faz lembrar bom Belle & Sebastian e conta-nos de como as mulheres nunca conseguirão apreciar a música de Bob Dylan como os homens o fazem. Bad Thing Coming, We Are Safe encara a decapitação com um sorriso nos lábios. 24 é de uma honestidade desarmante ("I would marry you for money but i don't suppose you'll ever have enough"). E a dúvida que nos atormenta a todos, depois de um acidente automóvel, em MIA, "I remember how you were the one who told me that her name was either MIA or M.I.A.". Absolutamente deliciosa é a faixa-título, uma reinterpretação de Hallelujah, "the original Leonard Cohen version" segundo a letra. "You were stroking me like a pet but you didn't own me yet", canta Emmy. Uma Emmy forte, segura de si mesma, assustadora apenas para quem não gosta de mulheres inteligentes. Emmy the Great, verdadeiramente. Descubram-na, vale toda a pena.
Mirah, respeitada e reverada artista judia de Philadelphia, dona de uma interessante carreira já com mais de 10 anos, edita em 2009 o seu mais recente registo.
(a)spera é apresentado como o quarto album de Mirah, apesar de na verdade ser o oitavo registo de originais, contando com as colaborações com a Black Cat Orchestra. E talvez por essa mesma razão, por ter passado os anos mais recentes em colaborações com outros artistas e com remisturas electrónicas dos seus temas mais antigos, transparece neste album um sentimento de alegria muito forte, do regresso ao seu habitat natural.
O que mais chama a atenção em (a)spera é a maturidade demonstrada nos arranjos das faixas, modestos mas seguros. Longe está já o gravador de 4 pistas dos primeiros registos, como se pode constatar na épica The Forest, uma das faixas mais fortes do disco, e na jazzística Gone Are The Days. Todos os discos de Mirah possuem um momento único, uma música que me leva invariavelmente a proferir a frase "Foda-se, esta gaja é demais". O momento FEGED de a(spera) é Country of the Future, uma misturada de sonoridades étnicas que passam pelo Country, Bossa-nova e musica dos Balcãs e que não tem nada a ver com o resto do disco, destacando-se por essa mesma razão. Aliás, (a)spera é mesmo isso, um monstruário da destreza musical de Mirah, o casamento feliz de sonoridades e melodias aparentemente adversas.
Afirmo categoricamente, com conhecimento de causa e sem qualquer tipo de reservas que (a)spera é o melhor disco alguma vez editado por Mirah Yom Tov Zeitlyn e recomendo-o vivamente. Um disco tão variado sonoramente terá com certeza algo a dizer a praticamente todo o amante de música. Pode ser encontrado nas lojas da especialidade, na categoria "Discaços do caraças".
Site oficial: A Mirah não tem site oficial mas está intimamente ligada à K Records.
Foi-me dado a conhecer recentemente o disco dos Nova-Iorquinos The Pains of Being Pure at Heart e devo dizer que fiquei agradavelmente surpreendido. A estreia homónima, de 2009, é certamente um bonito disco Indie-Pop, que presta homenagem ao que foi feito anteriormente e limpa o caminho para o que há-de vir. A sonoridade balança entre os géneros irmãos Twee e Shoegaze, um misto de inocência e complexa bagagem emocional, como se The Pains Of Being Pure At Heart tivesse nascido da relação incestuosa dos Belle & Sebastian com os My Bloody Valentine, influências orgulhosamente assumidas pela banda.
Com uma colecção de pedais Fuzz, teclados cintilantes, e vozes que se complementam, a música de TPOBPAH leva-nos a sonhar acordados, a reviver memórias de outros tempos, quando as tardes eram sempre solarengas e a única preocupação que tínhamos no mundo era certificarmo-nos de que as pilhas para o walkman nunca faltassem e os pneus da bicicleta nunca ficassem sem ar. Se as palavras "anorak", "bolas de sabão" e "Sarah Records" vos dizem alguma coisa, vão adorar esta banda!
Os Of Montreal são uma prolifera banda não de Montreal, mas sim de Athens, Georgia. Editando em média um disco por ano, é fácil perder-se por entre um emaranhado de discos com nomes compridos e faixas com nomes estranhos (em The Early 4-Track Recordings, por exemplo, todas os títulos das músicas contam uma história sobre a banheira de Dustin Hoffman). Todos eles são competentes à sua maneira esquizofrénica, mas de entre todos os discos da carreira do Of Montreal, um deles brilha com uma força especial. A esse album, o terceiro, de 1999, foi atribuído o nome The Gay Parade.
Reza a história que Kevin Barnes, o porta-voz dos Of Montreal, estava muito triste à janela a observar o trânsito quando a sua fada Coquelicot apareceu e sugeriu que Kevin fugisse à melancolia através da imaginação. Kevin imaginou então que os automóveis na rua subitamente abrandavam e se transformavam em carros alegóricos. Depois, imaginou uma história para cada carro. Todos os carros eram tão bonitos e as histórias tão ricas que Kevin Barnes não cabia em si de contente. No final da parada, um cavalheiro de seu nome Lecithin Emulsifier ofereceu a Kevin uma dádiva maravilhosa: a capacidade de reviver aquele dia sempre que quisesse. Kevin fê-lo tantas vezes que passou a viver na Gay Parade para sempre. Mudou o seu nome para Claude Robert e, juntamente com a sua fada Coquelicot, fez da sua missão no mundo a propagação da gayziçe e da alegria contra o cinzentismo e monotonia da vida.
As letras são o pico da imaginação e ricas em personagens e pormenores. My Favourite Boxer versa sobre a fixação de Claude Robert sobre Hector Ormano, um famoso lutador de boxe que lhe atira pedras. Neat Little Domestic Life é uma descrição ternurenta sobre a vida de casal. Já na trauteável Advice From Divorced Gentleman To His Bachelor Friend Considering Marriage, pode-se ouvir "You should stay away from roses and be careful to avoid chocolate hearts. Keep distant from romantic notions because that's where love most often starts". A minha faixa preferida de todo o disco chama-se Nickee Coco and the Invisible Tree, uma divertida e comovente história meio cantada, meio falada, sobre uma menina que se perde numa árvore invisível e o esforço que toda a aldeia faz para reencontrá-la. Destaque para a preciosa ajuda da coruja e do tradutor de corujas.
Musicalmente, a vertente mais experimental dos Of Montreal dá lugar às convenções clássicas da Pop, com vozes melodiosas e refrões cantaroláveis. The Gay Parade tem sido por vezes comparado ao Sgt. Pepper dos Beatles, e, por muito herege que essa comparação seja, só atesta a qualidade deste disco em particular. É verdadeiramente grandioso. Estranho, pretensioso e difícil, mas deliciosamente pervertido e infantil. É uma utopia de cor e exaltação, psicadelismo e efervescência, algodão doce e cabedal. Deixem os preconceitos à porta e sigam a Gay Parade!
Hello, my name is Claude Robert and I'd like to thank you for spending time with the Gay Parade. We hope you found it enjoyable and that we will see you again very soon, because we've grown quite fond of you and all agree that you make very pleasant company.
If you ever feel that in your life the moments of gaiety are too few, you can always come and visit us, now that you know the way. And perhaps someday you'll be able to stay with us forever inside the Gay Parade.
Disco fresquinho, editado recentemente. O mais recente da Canadiana Julie Doiron, brilhante escritora de canções que timidamente vai vendo o seu talento sendo reconhecido.
I Can Wonder What You Did With Your Day é já o oitavo album de Doiron, exceptuando Eps e colaborações com outras bandas e distingue-se dos seus anteriores trabalhos predominantemente acústicos por abraçar uma sonoridade Rock mais lo-fi, uma tendência já demonstrada no anterior Woke Myself Up, de 2007. A voz suave e característica de Julie consegue sobrepor-se às distorções da guitarra e baixo, criando uma combinação sonora muito curiosa, suja e no entanto apelativa. A comprovar em Borrowed Minivans, a título de exemplo.
O novo disco de Doiron acaba por servir também um pouco de resumo da sua carreira. No meio da distorção temos alguns temas acústicos de primeira apanha (The Life of Dreams é fantástica) e ainda uma faixa em Francês, trazendo à memória Désormais, o seu disco inteiramente cantado no idioma de Eric Cantona. O único senão que tenho a apontar a este disco é o mesmo que se aplica a toda a discografia de Julie Doiron, a sua curta duração, ultrapassando por muito pouco a marca dos 30 minutos. As músicas sabem sempre a pouco e fica a sensação de estarem incompletas. Mais uma válida razão para ouvir ICWWYDWYD as vezes que forem necessárias para total satisfação.
Os Port O'Brien nasceram do amor e dedicação do casal Van e Cambria. Van, um pescador de salmão, escrevia as suas canções nos rigores do Alaska. Cambria fazia o mesmo no meio dos fornos de uma pastelaria em São Francisco. Quando Van chegava a terra firme, juntavam e moldavam as composições em novas músicas. Deste processo criativo surgiu All We Could Do Was Sing.
All We Could Do Was Sing está liricamente ligado ao imaginário marítimo. Fisherman's Son trata da história pessoal de Van, pescando juntamente com o seu pai. Don't Take My Advice ilustra a constante luta entre a vontade de assentar e o desejo de correr o mundo. O imaginário dos Port O'Brien, apesar de ligado à água salgada, é rico em histórias e fábulas, fazendo lembrar, com as devidas distâncias, a escrita de Colin Meloy, dos Decemberists.
All We Could Do Was Sing é meio folk, meio country (aqua-country?), melancólico a espaços e efervescente nos seus momentos mais conseguidos. Há aqui gente a tocar tachos e panelas, o que é sempre sinal de um bom disco! Ideal para tempos de crise, onde a única coisa que se pode mesmo fazer é cantar ou, à falta de cordas vocais afinadas, gritar. Um achado. Destaque natural para o momento Kelly Family do album, I Woke Up Today, a overdose de alegria dos Port O'Brien.
Há discos que marcam uma época, e aos quais é doloroso regressar. No final de 2005 estava arrasado emocionalmente devido ao meu último desgosto amoroso (último mesmo, que desde então não tive mais nenhum). Nessa altura, ouvi Emoh, o primeiro disco a solo de Lou Barlow, até à exaustão. Depois enterrei-o juntamente com os meus sentimentos e nunca mais me lembrei dele.
Flashforward para o último dia de 2008. Troquei de emprego, a vida amorosa continua caótica como sempre, e mudei-me para a localidade onde nasci, a minha "casa". E, enquanto me preparo para ir trabalhar na véspera de passagem de ano e tento não me chatear muito com isso, resolvi desenterrar o Emoh. E, pelo nó na garganta que insiste em apertar-se, o disco de Lou Barlow não foi a única coisa que desenterrei.
O senhor Lou Barlow é uma figura importante do Rock Independente e do Lo-Fi que me é muito querida, pela sua carreira nos regressados Dinossaur Jr. e pelos seus esforços paralelos em Sebadoh, Sentridoh e The Folk Implosion. É também um escritor de canções compulsivo, fazendo-as natural e prolíficamente e lançando-as sem se preocupar se as suas composições chegam ao público alvo. Em Emoh, Barlow pega em algumas canções de Sentridoh e embrulha-as na estética sonora de The Folk Implosion, resultando num disco acústico na sua quase totalidade e muitíssimo bem produzido se tivermos em conta a habitual sub-produção dos seus trabalhos.
O album beneficia da voz harmoniosa de Barlow e da doçura da sua guitarra acústica para criar um uma manta molhada. Deveria transmitir calor e bem-estar, mas ao invés traz uma sensação de desconforto. Emoh é nostalgia e sentimento de perda. É a incessante procura de porto de abrigo. É dor, raiva e arrepios na espinha. É emoção fora de moda. E termina com uma balada sobre gatinhos para que tudo volte a fazer sentido e a valer a pena. Uma casa não é um lar, mas anda lá perto.
Site Oficial: www.loobiecore.com (com uma galeria dedicada inteiramente aos gatos dos seus fãs)
Recebi a notícia neste momento, e ainda estou a recompor-me do choque. Jeff Mangum está vivo, de saúde, não envelheceu um dia desde a sua última aparição e voltou aos concertos! Que grande presente de Natal antecipado!
Jeff Mangum é o mentor e principal impulsionador da banda Neutral Milk Hotel, banda formada como veículo de suporte para as canções do senhor. Formados em 1993, os NMH editaram dois discos na sua curta carreira, o experimental On Avery Island em 1996 e In The Aeroplane Over The Sea, em 1998, que teve sucesso limitado aquando a sua edição. E depois, sem avisar, sem se despedir dos seus colegas de banda, Mangum desapareceu. E as suas aparições passaram a ter uma conotação fantasmagórica, tantos eram os que teorizavam sobre a sua morte.
Até que, este ano, o colectivo Elephant 6 (do qual fazem parte Olivia Tremor Control e Of Montreal) criou uma mini-digressão. E, na primeira noite, no meio do caos e de um palco pejado de músicos, lá estava ele. Jeff Mangum, meio dissimulado, berrando ao microfone. Vivo.
O video abaixo chama-se Engine, a primeira música dos Neutral Milk Hotel interpretada por Mangum desde a sua última aparição pública, em 2001. A qualidade de imagem é muito escura, só ficando iluminada de vez em quando com os flashes das máquinas fotográficas, mas o som está perfeito. Engine é o lado B do single Holland, 1945.
Nos anos em que Jeff Mangum esteve desaparecido, In The Aeroplane Over The Sea cresceu. E cresceu. E continuou a crescer. E, 10 anos passados sobre a sua edição, ainda cresce e chega a novos ouvintes, tão fresco como em 1998.
In The Aeroplane Over The Sea é completamente lo-fi. A distorção de guitarras soa a uma fritadeira antiga. As músicas alternam entre baladas acústicas, músicas proto-punk carregadas de instrumentos e marchas fúnebres. Ouvem-se trompetes e serrotes musicais. E Jeff Mangum desafina. Bastante até. A sua voz chega mesmo a ser irritante à primeira audição. Mas, em termos de feeling, é difícil encontrar um disco mais puro que este. Triste e negro, mas que me inunda de felicidade e sentimento de satisfação desde os primeiros acordes de The King of Carrot Flowers, pt 1 até ao som que se ouve no final de Two-Headed Boy, pt 2, quando Jeff pousa a guitarra e parte.
Melódica e liricamente, este disco roça a perfeição. As músicas são cheias e ficam no ouvido, e Mangum estava verdadeiramente inspirado quando criou as composições que se colam umas às outras quase sem se notar. Todo o conceito de Aeroplane anda à volta da vida e morte de Anne Frank, a famosa menina judia que permaneceu escondida na Holanda durante dois anos até ser capturada pelos Nazis e mandada para o campo de concentração de Bergen-Belsen, onde viria a falecer duas semanas antes da chegada dos aliados. O seu diário constitui um dos livros mais lidos de sempre, e um dos melhores testemunhos dos horrores nazis.
Já comprei In The Aeroplane Over The Sea duas vezes, mas acabei por oferecer as minhas cópias a alguém que precisasse mais de descobrir esta banda. Ainda assim, tem lugar cativo no meu leitor de MP3, e escuto-o do principio ao fim muito regularmente. Poderei afirmar que é um dos discos da minha vida. Por ser perfeito e completo e genial e tocante. Descubram-no ou redescubram-no.
Mais uma empresa familiar, os Bodies of Water, formados pelo casal David e Meredith Metcalf, editaram este ano o seu segundo longa duração, A Certain Feeling.
Uma verdadeira comunidade no sentido em que toda a gente canta e novos membros vão sendo recrutados na estrada (literalmente, recrutados na borda da estrada), os Bodies of Water produzem um Indie Rock de características épicas, a trazer à memória Jesus Cristo Superstar ou os duetos erótico-nojentos do Meatloaf (mas em melhorzinho, entenda-se). Há por aqui também alguns ecos Zappianos...
O segundo esforço desta banda é assim uma salganhada de sons e estilos diversos. Exemplo, a faixa número dois, Under The Pines, inicia-se com um orgão, passando para uma guitarrinha das Arábias, arrancando numa cavalgada frenética ao pôr-do-sol, para depois descansar a ressacar de um ácido marado antes de partir a cavalo mais uma vez. Há ambição neste disco, mas na minha opinião espalha-se um bocado por querer dar um salto maior que as pernas.
A Certain Feeling deixa no ar um certo sentimento a Arcade Fire dos pobres. É bom, mas já ouvimos isto noutro lado. Escute-se a primeira faixa, Gold, Peach, Tan, and Grey para entenderem onde quero chegar. Poderei no entanto estar a ser um pouco injusto com a banda, uma vez que o primeiro album também não me entrou logo à primeira e agora já o aprecio bastante. E por falar em primeiro album...
Ears Will Pop & Eyes Will Blink, de 2007, é certamente menos trabalhado que A Certain Feeling, mas ganha em honestidade e sentimento. A muralha de vozes requer alguma habituação, é certo, mas uma vez acomodados, não há como não se deixar levar por malhas como Our Friends Appear Like Dawn ou a minha preferida I Guess I'll Forget The Sound, I Guess, I Guess. É um bonito disco, um bocado religioso ou espiritual a mais para o meu gosto, mas ainda assim suficientemente inspirado e diferente para merecer uma audição atenta. Esperemos que A Certain Feeling cresca dentro de mim como Ears Will Pop cresceu.
Os Belle & Sebastian estão de momento parados, mas isso não implica que não saiam cá para fora discos novos da banda de Glasgow. Fresquinho, The BBC Sessions é uma compilação que reúne 3 sessões para a rádio Britânica, em 1996 (para Mark Radcliffe), 1997 (para Steve Lamacq) e 2001 (para John Peel). As canções não diferem muito das suas versões em estúdio, apenas o suficiente para o fã mais atento. Wrong Love, que mais tarde viria a ser editada como The Wrong Girl, é o caso mais adulterado. De resto, temos um disco de grandes músicas às quais já estamos habituados. Sleep The Clock Around está especialmente bem conseguida, assim como Seymour Stein e The Magic of a Kind Word.
Existe ainda um segundo disco de Bónus, contendo o concerto de Natal de 2001 em Belfast. Este segundo disco tem a particularidade de conter versões de The Beatles (Here Comes the Sun), Thin Lizzy (The Boys Are Back in Town) e The Velvet Underground (I'm Waiting For The Man).
Não recomendo este disco a alguém que nunca tenha ouvido Belle & Sebastian, até porque se podem escutar as músicas destas sessões mais limpinhas e arranjadinhas nos discos. Porém, para quem conhece e é fã, The BBC Sessions merece uma espreitadela, quanto mais não seja por conter as últimas gravações de Isobel Campbell enquanto membro dos Belle & Sebastian.