27.12.05

Tascas: Bora Bora

Local de peregrinação, taberna infecta, o café Bora Bora é o tema escolhido para a secção "Outros Cultos" deste mês.



Situado em Peniche, meio escondido nas típicas ruas do bairro de pescadores conhecido vulgarmente por "Peniche de Cima", o Bora Bora era um pequeno café igual a tantos outros, com cadeiras de plástico, matrecos, mesas de snooker e ping-pong, frequentada por senhores no ocaso da vida. Até que, já na segunda metade da década de 90, numa triste altura em que algumas das típicas tabernas fecharam na localidade, alguém (não se sabe bem quem) descobriu que nesta casa se fazia Droguinha, e bem barata por sinal! Subitamente, orfãos do Charlot, do Angola e do Manél das Escadinhas encontraram um novo lar em Peniche de Cima. E assim nasceu o culto à volta deste café.



Quem tenha visitado este estabelecimento no seu início e só agora tiver oportunidade de lá voltar, notará porventura uma diferença abismal. Os velhos continuam a frequentá-lo, claro, mas já não poderá encontrar o tecto de platex com restos de droguinha seca, as mesas de snooker e ping-pong, as inundações urinárias (mijar no caixote do lixo virou moda durante uns tempos) e as cadeiras de plástico... Agora a velha taberna é um café todo fino, com cadeirinhas bonitinhas, luzes com sensor de presença e televisão de ecrã gigante (com Tv Cabo e tudo)! Mas há algo que nunca se alterará: As bebedeiras de caixão à cova! Apesar da inflação nos preços, este continua a ser o local mais barato e aprazível para se sair em Peniche num Sábado à noite. Aprecio especialmente aquelas noites em que já são quase 4 da manhã e ainda lá está um grande grupo, munidos de violas de caixa e completamente perdidos no álcool, cantando e gritando a plenos pulmões enquanto o proprietário os tenta expulsar da tasca.



Recomendo então a bebida local, a supra-citada droguinha (não vou dizer em que consiste, mas posso adiantar que é vendida num jarro a dizer liter) e o traçado (vinho rosé com gasosa). Caso não alinhe muito com vinho, poderá sempre pedir um whiskey, cerveja de litro ou mesmo vodkas e shots! Há de tudo! Bom e barato! O Bora Bora não vem nas brochuras turísticas, portanto, na eventualidade de visitarem Peniche, perguntem a alguém entre os 18 e os 35!

20.12.05

Filmes: The Crippled Masters

Exploitation foi um género cinematográfico muito em voga nos anos 70. Consistia (e consiste) em pegar numa minoria (étnica, religiosa, social) e explorá-la num cenário improvável. Exemplos: Blacula, Jesus Christ Vampire Hunter e The Crippled Masters, que é hoje aqui analisado.



O filme começa assim: Um lacaio do senhor do mal do momento ordena a amputação dos braços a um indivíduo, sem nenhuma razão plausível. O "amputado" vagueia pela China, até chegar a uma quinta, onde lhe prestam auxílio. Nesta quinta, o pobre homem aprende a utilizar as pernas como substituto dos braços, desempenhando as tarefas do dia a dia como se nada de mais lhe tivesse acontecido. Entretanto, o senhor do mal resolve queimar com ácido as pernas do lacaio que havia ordenado a remoção dos membros anteriores ao outro homem. Eventualmente, os dois encontram-se e resolvem treinar Kung-Fu com o objectivo de se vingarem do mau da fita, completando-se: os braços do perneta passam a ser os braços do maneta, as pernas do maneta passam a ser as pernas do perneta. Este é um enredo muito estúpido, como se pode verificar, mas há um pormenor a ter em conta... O maneta não tem mesmo braços e o perneta tem mesmo as pernas atrofiadas! Ou seja, ambos os mestres de artes marciais são aleijados!



Por mais grotesca que possa parecer a ideia de usar verdadeiros aleijados para fazer um filme de Kung-Fu, The Crippled Masters acaba por ser um grande filme de artes marciais! É impressionante as acrobacias que estes dois conseguem fazer, especialmente o maneta, que consegue fazer girar uma vara mais rapidamente e com mais precisão só com dois cotos do que eu com dois braços.



É claro que isto é tudo muito ridículo. O mestre do mal possui uma corcunda que emite um sonoro "BOING" cada vez que alguém lhe atinge, o maneta joga à cabra-cega com crianças, usando os pés para os apanhar, o perneta arrasta-se pelo chão durante o filme todo, e no entanto consegue dar valentes sovas a pessoas com o dobro do seu tamanho, um dos lacaios do mal tem a cara pintada de branco só porque sim... Enfim, este filme é bastante mau, como não poderia deixar de ser... Mas a quantidade de truques que um homem sem braços consegue fazer... Obrigatório para quem goste de filmes de artes marciais old-school!

Encontrar The Crippled Masters à venda no nosso país é uma tarefa Herculeana. Já foi visto à venda, mas mesmo assim, requer muita dedicação e muita procura. Ele anda por aí, mas não se sabe bem onde. Confesso, a cópia que tenho foi tirada da internet por um amigo meu, através dos BitTorrents. Quem tiver a oportunidade, aconselho a fazer o mesmo. Podem encontrar mais informação e um pequeno clip de video aqui, para verem que não estou a brincar... Este filme existe mesmo!

Trailer:

12.12.05

Discos: Antony and the Johnsons - I Am A Bird Now

Este mês trago-vos o ambiente trágico-poético de Antony And The Johnsons...



Antony Hegarty começou a sua carreira no showbizz em Nova Iorque no início dos anos 90. Nessa cidade, ganhou fama com os seus espectáculos de transformismo, onde cantava encarnando uma mulher de cabeça rapada. No final da década, junta-se a alguns amigos e nascem os Antony And The Johnsons.

Após o lançamento do primeiro album homónimo, a banda foi descoberta por Lou Reed, que os apadrinhou. A partir desse momento, Antony And The Johnsons começaram a fazer as primeiras partes dos seus concertos. Em 2005, foi lançado I Am A Bird Now, o disco que recomendo desta feita.



I Am A Bird Now, que valeu a Antony And The Johnsons o Mercury Prize de 2005, é um album sobre o sofrimento. Aqui ouve-se nua e honesta a soberba voz de Antony, enquanto nos canta directo ao coração sobre os seus traumas, sobre a sua homossexualidade, amores desavindos e dores no coração. Comovente, e de uma violência lírica que contrasta com a candura do piano e o sussurro da bateria. Ideal para desapaixonados, igualmente bom para apreciadores de boa música, I Am A Bird Now conta com participações de luxo que engrandeçem ainda mais as canções de Antony And The Johnsons. Para além de Lou Reed, ainda se pode ouvir por aqui a voz de Boy George e Devendra Banhart, entre outros.

Destaques para For Today I Am A Boy, a lindíssima Bird Gehrl, e What Can I Do?, a minha faixa preferida deste disco (apesar de ser cantada não por Antony mas sim por Rufus Wainwright). Descubram-no nos locais habituais.

7.12.05

Banda Desenhada: The Fabulous Furry Freak Brothers

Há muito muito tempo, nos loucos anos 60, havia um senhor chamado Gilbert Shelton que vivia em São Francisco. Esse senhor possuía cabelo comprido, roupas coloridas e uma imaginação fértil. Mas nessa altura, a formosa cidade de São Francisco vivia em agitação e sobressalto, devido ao Flower Power e ao Boom das drogas. Todas as drogas. Ou seja, Gilbert Shelton passou grande parte dessa década num outro mundo, povoado com elefantes cor-de-rosa e elfos verdes com dez braços. Para ele, a sua vida só começou em 1968, quando foi editada a primeira história dos Fabulous Furry Freak Brothers!



The Fabulous Furry Freak Brothers conta o dia-a-dia de três amigos, no seu dilema entre a procura de drogas e o vontade de ficar no sofá a vegetar... Marijuana, alucinogénios e estimulantes são comuns em quase todas as estórias, e, curiosamente, a heroína nunca entra no universo destes meninos.

Os “irmãos” são:

Freewheelin' Franklin, o espertalhão (aka parvalhão) do grupo



Fat Freddy, o “menos inteligente”, o desgraçado que vai sempre comprar droga para os outros e é sempre roubado na dose.



Phineas Freakears, o cientista e idealista do grupo.



Além de um hino à preguiça e ao ócio, esta obra é também uma crítica mordaz à hipocrisia da sociedade norte-americana, e mesmo com o cérebro toldado pelo abuso de estupefacientes, Shelton consegue manter as suas estórias coesas e bem humoradas, com um fio condutor preciso.

Encontrar os Freak Brothers em Portugal? Pois... Boa sorte! Mesmo pelos campos da pirataria informática, os livros são verdadeiramente difíceis de descobrir. Assim, só me resta aconselhar o site da Rip Off Press, a editora dos The Fabulous Furry Freak Brothers...

1.12.05

Livros: A Espuma dos Dias

Boris Vian foi um senhor Francês nascido em 1920 e falecido em 1959. Entre outras coisas, foi escritor, cantor, trompetista de Jazz e um espírito rebelde.



Apaixonado pelo Jazz e pela cultura Norte-Americana (apesar de nunca ter colocado um pé no continente), Boris Vian escrevia muitas vezes romances policiais sob o pseudónimo Vernon Sullivan, romances esses que lhe granjearam admiração e ódio um pouco por toda a parte. Enquanto isso, as suas obras mais pessoais, assinadas com o seu próprio nome, eram relegadas para segundo plano, por serem demasiado estranhas para a época, aliás como o próprio Vian o foi. A titulo de exemplo, consta que um dia, Boris dirigiu-se ao escritório da empresa de águas Evian, sugerindo que adoptassem o seguinte slogan: "Evian, L'eau de Vian!" A empresa não gostou da ideia e Vian foi expulso do edifício prontamente.

Após a sua morte, Vian foi adoptado como escritor fetiche pelos estudantes Franceses dos anos 60, e o surrealismo das suas obras recebeu finalmente a devida valorização. Gostaria de sugerir O Outono em Pequim ou As Formigas, mas o mais fácil de encontrar por aí será certamente a sua obra mais afamada, A Espuma dos Dias.



A Espuma dos Dias é um exercício sobre o amor e o absurdo. É a típica história de um homem que se apaixona por uma mulher que entretanto contrai uma doença e começa a definhar perante os seus olhos. Porém, todas as personagens mantém conversas apáticas e desprovidas de emoção, e os diferentes estados de espírito são transmitidos pela paisagem envolvente. Tudo muito estranho, impossível e surreal, mas ao mesmo tempo bonito e poético.

É preciso imaginação fértil para conseguir ler uma obra deste tipo. A primeira parte é luminosa e traz-nos sentimentos de liberdade. Relembro a cena em que Colin se apaixona por Chloe. Ambos estão a ver montras com restos de vacas, mantendo uma conversa monocórdica, e ao mesmo tempo uma nuvem desce do céu e levanta-os pelo ar, simbolizando a chegada do amor... A segunda parte do livro é escura e húmida, levando-nos para um buraco com as personagens. Chloe adoece (aparece-lhe um lírio num pulmão) e à medida que a sua doença piora, as divisões da sua casa vão-se tornando mais pequenas e sombrias... Brilhantemente escrito, A Espuma dos Dias é a maior dor de cabeça que um tradutor poderá ter, e ao mesmo tempo uma leitura obrigatória para todos os que gostam de deixar a sua mente a divagar e a passear bem alto enquanto o corpo fica preso ao chão. Fácil de encontrar em qualquer livraria.

28.11.05

Sortido: Alquimia

Para as pessoas que compram regularmente o Blitz, conhecem certamente a banda desenhada Superfuzz. Nesta página semanal, existe um senhor chamado Paiva, proprietário de uma loja de discos pequena e acolhedora. O Paiva, um saudosista do vinil, é uma personagem simpática que impinge os seus discos preferidos aos seus clientes e afugenta os putos da moda com poderosas descargas de Dark Metal ou algo do género. Pois bem, tudo isto para dizer que conheço o Paiva pessoalmente. Só que o “Paiva” chama-se Carlos Matos e a “Superfuzz” na realidade possui o nome de Alquimia.



A Alquimia é uma pequena loja de discos e acessórios localizada no piso mais baixo do Centro Comercial D. Diniz, em Leiria. Especializada em sons Dark dos mais variados tamanhos e feitios, aqui encontra-se também um pouco de tudo o que é considerado alternativo, ou, se preferirem, “fora do Mainstream”, para além de roupas, pins, DVD, merchandising variado e fanzines de distribuição gratuita.

Quando residia em Leiria, visitava este espaço regularmente, não só para receber o meu exemplar grátis da Mondo Bizarre, mas também para trocar dois dedos de conversa com o proprietário sobre temas musicais do nosso agrado/desagrado. Era sempre um prazer ficar uma horinha a ouvir música nova na companhia de Carlos Matos, e foi neste espaço que me foi dado a conhecer alguns dos albuns que apresento aqui neste espaço, nomeadamente Estradasphere e a música de culto deste mês, Lovage. De referir também que este foi o único estabelecimento onde vi à venda From a Basement on a Hill, o album-póstumo de Elliott Smith.

Assim sendo, recomendo vivamente aos habitantes de Leiria e arredores a visita à Alquimia, bem como o programa de rádio de Carlos Matos (Unidade 304, na Central FM) e o Festival FADE IN, organizado pela “família Alquimia”... Um grande abraço a toda a gente que partilha comigo aquele espaço!

22.11.05

Filmes: Faster Pussycat... Kill! Kill!

Era uma vez um senhor chamado Russ Meyer. Este homem havia tido o melhor emprego do mundo, fotografando para a revista Playboy, até que se fartou das fotografias e resolveu enveredar por uma carreira no maravilhoso mundo do cinema. Filmou imensos filmes ao longo da sua vida, todos eles marcados pela rebaldaria e humor “kitsch”, mas foi muito perseguido pelas activistas dos direitos das mulheres, que o acusavam de machista, apesar de hoje em dia ser-lhe reconhecido o valor na criação das chamadas Riot Grrls. Ame-se ou odeie-se, há que dizer em sua defesa que Meyer era um homem generoso, preocupando-se sempre com todas as senhoras, especialmente com aquelas possuindo glândulas mamárias altamente desenvolvidas. A sua preocupação era tal que nos seus filmes só entravam meninas com enormes seios, acabando por ser essa a principal razão pela qual o seu nome entrou para a história do cinema. Essa e outra, que dá pelo nome de Faster, Pussycat... Kill! Kill!



Faster, Pussycat... Kill! Kill! (1966), é uma ode à violência e à emancipação da mulher, através da sua sexualidade. As pussycats, três strippers devidamente estereotipadas (temos a mázona vestida de cabedal, a loira tontinha com sentimentos e a emigrante ilegal secretamente apaixonada pela mázona), passeiam pelo deserto nos seus carros desportivos, rindo às gargalhadas sem se perceber muito bem qual é a piada... Entretanto, as meninas param o carro, tomam banho todas vestidas, discutem, andam à pancada umas com as outras, vão ficando semi-nuas... Até que chega um carro com um casal de namorados muito bonitos e arranjadinhos. Depois de dois dedos de conversa e de uma corrida pelo meio do deserto, a mázona do grupo resolve partir a coluna vertebral ao rapaz, drogar a rapariga e raptá-la, continuando o seu passeio pelo deserto rindo sem sentido...



Por esta pequena amostra do argumento, já se sabe que daqui não vem nenhum bom filme. Mas na realidade, Faster, Pussycat... Kill! Kill! é imensamente divertido e inconsequente. Os diálogos são de morrer a rir de tão maus, as cenas sensuais são forçadíssimas, temos violência a rodos, cenas dramáticas e tensas, senhoras atraentes q.b. e actores que não merecem essa designação... Tudo boas razões para irem à Fnac e comprarem este filme na secção de importação sem pensarem duas vezes. Atenção especial à banda sonora e à Pussycat loira, que, apesar de não saber representar, proporciona agradáveis momentos erotico-humorísticos ao longo desta película.



Trailer:

15.11.05

Discos: Lovage - Music To Make Love to Your Old Lady By

Cenário típico de um jovem entre os 25 e os 35 anos: Sai-se de casa à noite, conhece-se uma jovem atraente do sexo oposto, palavra puxa palavra, toma-se um copo ou dois, e depois diz-se a frase chave: Queres ir tomar um copo lá no meu cantinho? Se a resposta for favorável, o jovem está bem lançado para obter uma vitória no eterno jogo da conquista... Agora só falta criar o ambiente ideal... Uma garrafa de bom vinho tinto, velas acesas, e um cd de música de cama a tocar na aparelhagem... Normalmente Kenny G, Céline Dion ou Michael Bolton!

Porém, música de cama não é sinónimo de mau gosto! Todos conhecemos concerteza exemplos de albuns que libertam paixões arrebatadoras e proporcionam momentos agradáveis, sendo ao mesmo tempo óptimos albuns para ouvir no dia-a-dia. Apresento-vos Nathaniel Merriweather...



Nathaniel Merriweather é, apenas e só, Dan The Automator, (esse mesmo, dos Gorillaz)... Ou melhor, Nathaniel Merriweather é o mentor de um projecto editado em 2001, intitulado Lovage: Music to Make Love To Your Old Lady By... O melhor album de música de cama que já tive a oportunidade de ouvir!

Merriweather produz e sampla um ambiente extremamente sensual, de enorme bom gosto, apesar dos títulos infelizes de algumas músicas (Herbs, Good Hygiene & Socks, por exemplo) adornado pelas vozes de Jennifer Charles (dos Elysian Fields) e Mike Patton (será mesmo necessário explicar quem é?). As vozes de ambos os vocalistas dançam e provocam-se mutuamente, o erotismo cresce a cada batida, a cada gemido, a cada provocação lançada pelo casal... Ouvindo o album quase que parece que tanto Mike como Jennifer estão prestes a largar os microfones no chão e a atirar-se para cima um do outro...

Para além de Patton e Charles, também Damon Albarn (parceiro de Dan The Automator nos Gorillaz) e Africa Bambaataa dão um ar de sua graça, mas os verdadeiros protagonistas são mesmo os vocalistas principais!

Destaque para a música Sex (I’m a), versão de um tema os Berlin... O jogo de sedução levado ao extremo!



Sim, a capa de Lovage é ridícula, propositadamente Camp, mas o que interessa é mesmo o seu conteúdo. Uma curiosidade, esta capa é uma homenagem a este grande cantor de música de cama...



E Lovage resulta, perguntam vocês? A resposta é sim, resulta... E como resulta!!!!!

I Love The Lovage, baby!

9.11.05

Banda Desenhada: O Homem Que Caminha

Antes de colocar aqui o porquê da recomendação desta obra, gostaria de assumir publicamente o meu preconceito e aversão à Manga. Para o comum Ocidental, a ideia que passa é que a Manga consiste num grupo de cyborgs a lutarem uns com os outros, de uns seres de outro planeta que quando se irritam mudam a cor do seu cabelo de negro para louro platinado, ou mesmo de donzelas voluptuosas sendo perseguidas por monstros fálicos. Porém, sou uma pessoa tolerante, e agora sei ver que Manga não é só isso. Apresento-vos O Homem Que Caminha.

Desde há uns meses para cá que o Correio da Manhã tem vindo a publicar aos Sábados uma colecção de banda desenhada intitulada Série Ouro – Os Cássicos da Banda Desenhada. Se bem que uma boa parte dos livros publicados possuirão uma qualidade discutível, volta e meia aparecem umas excelentes surpresas pelo meio. No passado dia 31 do mês passado, saiu um livro de um autor que desconhecia totalmente, intitulado A Arte de Jiro Taniguchi. Segundo a pequena biografia incluída neste livro, Taniguchi é a mais importante figura do movimento denominado Nouvelle Mangá, movimento esse que procura ligar a Bd Europeia à Japonesa. Conhecendo um sucesso estrondoso na França, O Homem Que Caminha será a sua obra mais aclamada. A arte atinge um detalhe impressionante, variando os materiais e técnicas conforme o efeito desejado, e a candura dos gestos, bem acompanhada pela quase total ausência de diálogos aumenta a expressividade deste livro. Segundo o autor, “O objectivo era ir transmitindo os sentimentos e pensamentos do protagonista através das paisagens que se vêem, com a natureza a reflectir os diferentes estados de espírito do herói.”

Aqui, fala-se de um homem de meia idade que passeia pela infernal Tóquio, enquanto perde o seu tempo observando os pormenores mais simples e banais, tornando-os contemplativos, lindos e poéticos. Atente-se ao exemplo de uma das primeiras histórias, em que o homem encontra uns meninos que perderam o seu avião de papel no topo de uma árvore. O homem sobe a árvore, encontra o avião, devolve-o às crianças... E fica sentado na árvore até anoitecer, observando a paisagem...



À medida que se vai lendo este livro, a sensação de paz envolve-nos e deixa-nos num estado de relaxamento total. O Homem Que Caminha é, contra todas as minhas expectativas, a melhor obra saída desta colecção, e um dos livros mais bonitos que tive o prazer de ler. Para adquirir esta obra, contactem o Correio da Manhã ou procurem-no nas bancas dos jornais. Muitos números antigos desta Série de Ouro podem ainda ser encontrados um pouco por todo o lado, e este concerteza não será excepção.