15.2.06

Discos: The Presidentes of the United States of America - Love Everybody

Ah, e que bem que sabe reencontrar uma das minha bandas preferidas da minha adolescência, quando os julgava mortos e enterrados... Os Presidents of The United States of America estão de volta!



Nascidos na fria e cinzenta Seattle mais ou menos a meio da década de 90, os PUSA conquistaram um público fiel à volta do planeta, derivado ao seu punk-pop-rock extremamente bem humorado. Músicas como Lump e Peaches continuam no ouvido de muito boa gente, apesar destas cantigas contarem já com 10 anos em cima... Os PUSA estavam em todas, tocaram em tudo o que era sítio, lançaram um segundo disco, continuaram em todas, continuaram a tocar em tudo o que era sítio, e depois... Acabaram. 1997 viu chegar às prateleiras das lojas Pure Frosting, uma compilação de raridades e músicas ao vivo, onde se encontrava a afamada versão de Video Killed The Radio Star, sendo este o seu canto do cisne...

Até agora! Andava eu a passear por uma pequena loja de discos em Faro quando dou de caras com Love Everybody, o mais recente disco dos Presidents of The United States of America! Editado em 2004, Love Everybody trás de volta a guitarra de 3 cordas, o baixo de 2 cordas e a bateria de brincar que os caracterizava. Ao todo são 14 faixas curtinhas, surpreendentemente refrescantes e divertidíssimas. Destaque para o instrumental Surf's Down, para a estupidez de Jennifer's Jacket e para a ultra-viciante Some Postman, uma cantiga das melhores que ouvi nos últimos tempos. Sorriso estampado na cara garantido! Perante o panorama sisudo das bandas Indie dos últimos tempos, talvez esteja na hora de voltar a descobrir The Presidents of The United States of America!

8.2.06

Banda Desenhada: Lenore The Cute Little Dead Girl

Como havia sido prometido há muitos meses atrás, hoje a secção BD de Culto debruça-se sobre as aventuras de Lenore, The Cute Little Dead Girl.



Lenore é uma personagem do grande Roman Dirge, inspirada no poema com o mesmo nome de Edgar Allan Poe. A estória principal centra-se numa menina que aparenta não ter mais de 8 anos, loura, pequenina e simpática. O seu único problema reside na condição clínica de que padece (está morta). Fascinada por gatos, Lenore passa a vida (morte) a matar e mutilar todos os que se atravessam no seu caminho, ainda que inocentemente, pois uma menina morta não consegue distinguir muito bem a fronteira entre o bem e o mal...

Num estilo muito próprio, Roman Dirge destrói o imaginário infantil de forma imaginativa e persistente. O coelho da Páscoa, os gnomos da floresta, as lengalengas infantis, tudo é deliciosamente pervertido em Lenore, the Cute Little Dead Girl. Humor negro do melhor que se pode encontrar em BD, ilustrado a preto e branco como não poderia deixar de ser.

De momento existem duas compilações de histórias de Lenore (Trade-Paper Backs, em "Americano"). O primeiro TPB intitula-se Noogies e compila os números 1 até ao 4. O segundo chama-se Wedgies e vai do número 5 até ao 8. Entretanto está para sair um 3º TPB. Para obter algum destes livros, recomendo como já vai sendo habitual a Shop Suey Comics (e eles não me pagam nada por isso...). Se ainda assim a minha prosa não vos deixou convencidos, deixo-vos com este site, onde poderão assistir a episódios animados em Flash, directamente inspirados nas primeiras aventuras de Lenore.

1.2.06

Livros: Casei com a Minha Irmã

Eurico A. Cebolo é um homem que dedicou toda a sua vida à música. Segundo a sua biografia oficial, iniciou-se musicalmente em Moçambique aos 16 anos tendo ganho variados prémios durante o período em que residia por África (Ganhou o prémio de melhor canção portuguesa no Festival Hispano-Português de Aranda del Duero de 1962, vejam lá). Porém, em 1975, Cebolo teve um azar. O carro em que seguia embateu de frente contra um camião, morrendo-lhe o primo e reduzindo a capacidade da sua mão direita em 50%. Perdeu-se um músico-concertista, ganhou-se um chato do caraças!



Após o acidente, Cebolo virou-se para o ensino musical, para mal dos nossos pecados. São de sua autoria livros como o Solfejo Mágico, Música Mágica, Piano Mágico, Arpejo Mágico, etc, etc, etc, etc... E toda a santa criancinha nos anos 80 sofria a aprender música com os livrinhos do Cebolo... E é engraçado como hoje em dia ninguém sabe o que fez aos malditos livros, autênticas peças kitsch! Ora vejam bem as capas de dois exemplares bem afamados...





Não contente com o facto de nos torturar com a porcaria do Solfejo Mágico e afins, Eurico A. Cebolo virou-se para uma carreira como romancista, carreira essa em que teve muito menos sucesso... Romances com nomes como O Falo Perdido ou O Violador das Mortas deviam fazer parte das estantes de toda a gente... O livro analisado hoje intitula-se Casei Com a Minha Irmã!



Bem, sinceramente, por muito que poderia escrever aqui, nunca seria capaz de fazer justiça à magnitude desta obra de Cebolo. Assim sendo, nada como o próprio Cebolo para descrever esta obra. Aqui vai o texto incluído no prefácio:

"CASEI COM A MINHA IRMÃ" é um romance onde o espírito criador, a capacidade de imaginação e a grande versatilidade cativam o leitor que, entrando nesta teia tão bem urdida, estará sempre ansioso pela página seguinte. Num estilo muito próprio, sóbrio e sem quaisquer rebuscamentos, deliciamo-nos com a pureza de linguagem de um Eça, a fecundidade de ideias de um Camilo e o encanto e simplicidade de um Torga. Em "CASEI COM A MINHA IRMÃ" é burilada uma estória que poderia ser verídica e ter acontecido em qualquer tempo e lugar. Maria Alice perdeu a mãe, tragicamente, e apaixona-se pelo filho da patroa, que a expulsa. Mais tarde é dada como morta no desastre ferroviário de Alcafache e o rapaz que a desonrou casa com a própria irmã."

Não estão ainda convencidos da qualidade de Casei Com a Minha Irmã? Convido-vos então a ler este pequeno excerto:

"[Maria Alice] embrenhada nestes tristes pensamentos, e sem saber que rumo dar à vida, nem se apercebeu que um indivíduo com todo o aspecto de marginal se sentara no mesmo banco que ela ocupava e a mirava, descaradamente. Receosa, olhou de soslaio tentando descortinar as intenções do homem; este, como se lesse o seu pensamento, logo lhe tirou qualquer dúvida com as palavras que lhe dirigiu:

- Olá, pombinha! Esperavas alguém que te fizesse companhia? Tens sorte, já que eu ando à procura duma chavala que queira curtir comigo. Manjei logo que és boazona e se quiseres alinhar numas curvas não te arrependerás porque eu sou capaz de dar a volta ao capacete à mais pintada - falando assim o tunante foi-se aproximando até se encostar a ela.

A rapariga, cheia de medo por aquilo que escutara e pelo mau aspecto do rapaz, fez menção de levantar-se suplicando:

- Por favor, deixe-me em paz. Engana-se no que pensa de mim. Sou uma moça séria a quem a desgraça bateu à porta.

- Ora, minha linda, sem tangas; dizeis sempre isso, mas andais sempre todas ao mesmo; eu já topo o vosso paleio - e o vadiola pôs-lhe um braço pelos ombros.

Revoltada, ela pregou-lhe um safanão e aproveitando o seu desequilíbrio correu para fora do jardim. Olhou para trás, e vendo que ele não desistia de a perseguir, na ânsia de lhe escapar, imprudentemente, tentou atravessar a rua. Em tão má hora que foi colhida por um automóvel que circulava a grande velocidade. Ouviu-se uma travagem brusca acompanhada de estridente chiadeira de pneus. Tudo em vão e num ápice, já que o condutor não conseguiu evitar o acidente. O choque deu-se com muita violência. O corpo da desditosa criatura, projectado alguns metros pelo ar, estatelou-se no outro lado da larga via..."


Qual Eça, qual Torga, qual Camilo! Eurico A. Cebolo ao Panteão Nacional!


Encontra-se à venda aqui

27.1.06

Séries: Mistery Science Theater 3000

Mistery Science Theater 3000 foi um original programa de televisão que passou nos Estados Unidos entre 1988 e 1999, atingindo um culto gigantesco no seu país de origem, apesar de infelizmente não ter conseguido atingir sucesso nos poucos países por onde passou.

O programa consistia num homem preso numa nave espacial, tendo como única companhia uma trupe de robôs que ele próprio construíra. O motivo pelo qual este homem havia sido encarcerado era simples: Um par de cientistas obrigavam-no a visionar filmes de série B particularmente maus, com o intuito de encontrar o pior filme do mundo, capaz de levar uma pessoa à loucura, e com esse mesmo filme lançar um ataque no planeta Terra e escravizar a raça humana. O jovem prisioneiro servia, assim, de cobaia.

Assim sendo, neste programa essencialmente o telespectador tem a oportunidade de ver verdadeiros filmes de série B num ambiente próximo de uma sala de cinema. No canto inferior direito, o prisioneiro e dois dos seus robôs acompanham e comentam o filme à medida que a acção se desenrola, transformando aquilo que seria uma verdadeira tortura em momentos puramente hilariantes. Basicamente, o mesmo que acontece quando um grupo de amigos se junta para o visionamento de um destes filmes...



Três pessoas no escuro a ver filmes horríveis, por incrível que pareça, durou 11 anos, deu origem a um total de 198 episódios e um filme, e ainda hoje é tido como referência por todos os amantes de filmes de série B, funcionando como um autêntico "guia do filme mau". Tudo isto atesta a qualidade de MST3K. É uma pena que nenhum dos canais da nossa televisão por cabo ainda não se tenha lembrado de passar esta série em Portugal. Enquanto isso não acontece, podem ir encomendando os DVD a partir da Amazon, mas não sem antes sacarem alguns episódios da internet. Sugiro particularmente os episódios Space Mutiny e Manos, The Hands of Fate (sendo este último um filme intragável e das coisas mais chatas que já tive oportunidade de ver, mas que se torna incrivelmente divertido após o "tratamento" MST3K).

23.1.06

Filmes: A Morte Chega de Madrugada

Bem antes do mega-blockbuster Spiderman, Sam Raimi realizou em 1981 um pequeno filme do mais puro terror intitulado Evil Dead, filme esse que marcaria a sua estreia na cadeira de realizador. Em 1987, Raimi resolve voltar a pegar no seu "primeiro filho", e surge a sequela/remake (riscar o que não interessa) Evil Dead 2: Dead By Dawn (Em Português, A Morte Chega de Madrugada).



No primeiro Evil Dead acompanhamos a aventura de um grupo de estudantes universitários presos numa casa assombrada, sendo atacados por todo o tipo de monstros e aberrações, após terem descoberto por acaso o Necronomicon Ex Mortis, o livro dos mortos. No final da primeira aventura, só Ash (Bruce Campbell, Deus entre os actores de série B) sobrevive.

Evil Dead 2 começa com Ash a regressar à mesma casa onde havia perdido todos os seus amigos, acompanhado pela sua namorada Linda (que havia sido brutalmente decapitada no filme anterior, mas isso é um pormenor pouco relevante, pelos vistos...), com o intuito de passar um fim de semana romântico, apenas para inadvertidamente voltar a despertar o mal contido no Necronomicon... Esquecimento? Erro de continuidade? Pura estupidez? Não se percebe muito bem ao certo. Eventualmente, juntam-se na mesma casa a proprietária da mesma, o namorado dela e um par de saloios encontrados no meio da estrada, tudo carne para canhão para o exército das trevas que sairá do portal criado pelo livro dos mortos.

Enquanto no primeiro Evil Dead temos um grande filme de terror filmado com baixíssimo orçamento, Em Evil Dead 2 temos um bom filme de terror misturado com uma excelente comédia física, fruto do desempenho de Bruce Campbell, o maior herói de acção de todos os tempos, ponto final! É hilariante e perturbador ao mesmo tempo quando observamos a luta entre Ash e a sua própria mão possuída pelo demónio ao longo de toda a película, os requintes de malvadez enquanto o actor principal ri diabolicamente ao amputar a sua própria mão com uma motosserra apenas para a mesma regressar para o atacar quando menos espera e assassinar os seus companheiros de jornada.



No final do filme, só Ash sobrevive, sendo sugado com a sua motosserra e caçadeira de canos cerrados para uma Inglaterra Medieval, abrindo caminho para a terceira parte da série Evil Dead, da qual falarei numa próxima oportunidade...

A Morte Chega de Madrugada pode ser encontrada na Fnac, por enquanto. Porém, este estabelecimento rapidamente coloca produtos mais underground como este fora de circulação sem aviso prévio, portanto, se sabem do que eu estou a falar, comprem-no já antes que o percam de vista. Caso contrário, se nunca ouviram falar deste filme e gostam de sustos e de rir com a desgraça alheia, saquem-no da net.



Trailer:

17.1.06

Discos: Queen Adreena - The Butcher and the Butterfly

O medo transformado em música. Eis os Queen Adreena!



Em meados dos anos 90, existiu uma banda londrina de Rock Alternativo intitulada Daisy Chainsaw, onde militavam Katie Jane Garside e Crispin Gray. A sua música escura e suja alternava com as flores no cabelo e o ar de menina perdida de Garside, e as actuações levavam a que muito boa gente questionasse a sanidade mental da vocalista, quando a mesma rasgava totalmente as suas roupas em palco ou surgia de cabeça envolta em ligaduras ensanguentadas. Durante alguns anos, esta banda escolheu manter-se à margem do sucesso comercial, apesar das constantes tentativas de contrato por parte de editoras como a Maverick. Até que, em 1993, Katie Jane acabou por sair da banda, exilando-se no País de Gales para se tratar mentalmente. Os Daisy Chainsaw acabaram por sucumbir alguns anos depois.

Em 1999, Crispin Gray e Katie Jane Garside voltam a encontrar-se casualmente. Começam a criar música juntos, e daí surgiram os Queen Adreena, uma continuação natural dos extintos Daisy Chainsaw, levada ao extremo. Com edições discográficas regulares desde a sua criação, esta banda é praticamente desconhecida pelo mundo fora, granjeando de um culto significativo no Reino Unido. O seu terceiro trabalho intitula-se The Butcher And The Butterfly.



The Butcher And The Butterfly é um album Rock, Industrial, Gótico, Indie, o que lhe quiserem chamar. Possui momentos de distorção e violência (Medecine Jar), ao mesmo tempo que existem também momentos de doçura envenenada (Childproof). O que se destaca nos Queen Adreena, mais do que o som, é a voz de Katie Jane. Sussurrada, frágil, por vezes falha e desafina como se fosse uma criança perdida já sem forças para chorar. Dá vontade de pegar nela e protegê-la (oiça-se os Lalalalalala infantis em Suck)... Até que se solta! E grita como se lhe estivessem a espetar uma faca no coração! E assusta! E arrepia! E à medida que a intensidade da guitarra, do baixo e da bateria aumenta, quem fica frágil e com vontade de se esconder somos nós. Garside passa de vítima a atacante numa questão de segundos, e as composições dos Queen Adreena absorvem-nos por completo! Um album com uma química muito própria, uma limpeza do espírito, o medo transformado em música, a música transformada em libertação!

The Butcher And The Butterfly, bem como toda a discografia dos Queen Adreena, só se encontra editado no Reino Unido. Porém, encontrei-o por acaso numa estante da Alquimia, na última vez que fui a Leiria...

10.1.06

Banda Desenhada: Batman - Asilo Arkham

Na secção Bd de Culto deste mês, trago-vos um dos maiores anti-heróis da 9ª arte, Batman, numa aventura que se destaca pelo traço do seu desenho e principalmente pelo invulgar argumento para um herói main-stream. Falo-vos de Asilo Arkham.



O Asilo Arkham é o local onde são encarcerados todos os loucos criminosos de Gotham City. Ao serem demasiado perigosos para serem colocados numa prisão normal, abandonam-nos no asilo, onde ficam eternamente a apodrecer. A situação muda quando Joker toma conta de Arkham, e juntamente com um grupo de outros prisioneiros, ameaça assassinar todos os seus reféns caso Batman não se junte a ele. O morcego vê-se assim obrigado a confrontar o seu maior rival num asilo onde todos o odeiam, e é atacado pelos mesmos criminosos que ajudou a colocar lá dentro. Com um ritmo louco e alucinado, a verdadeira estrela desta obra acaba por ser o próprio Asilo, possuindo uma atmosfera muito negra e assustadora que envolve tanto o cavaleiro das trevas como o próprio leitor.



Batman - Asilo Arkham foi escrito há 15 anos por Grant Morrison e estupendamente ilustrado pelo mestre Dave McKean. Recentemente editado pela Devir, poderá ser encontrado na Shop Suey Comics, Rua Barão de Viamonte nº 50, 2400 Leiria. Contacto: shopsueycomics@iol.pt

3.1.06

Livros: Como Me Tornei Estúpido

A estupidez sempre foi um tema que me atraiu bastante. A raça humana sempre se destacou das demais pelo engenho, pela necessidade de criar para sobreviver. Inventou-se a roda, criou-se o vestuário, domou-se o fogo e o lobo, destilou-se o álcool, nasceu o queijo, o alcatrão, as pilhas alcalinas e os chapéus, entre mais uma ou outra coisa sem importância. Tudo pensado da cabeça do Homem. E para quê? Para que o Homem não tivesse mais de se dar ao trabalho de usar a sua própria cabeça para pensar. O ser humano é tão inteligente que se quer tornar estúpido à força, confiando nas suas invenções para sobreviver, ignorando o instinto que tão bem tem servido a todos os outros animais. Carneiros seguindo outros carneiros. Apaixona-me o facto de existirem pessoas que não conseguem sobreviver sem a sua telenovela, farto-me de rir quando reparo que TODA cantarola alegremente pela rua o último Euro-Dance-Lixo do momento, espanto-me com a quantidade de gente que leva as mãos à cabeça de cada vez que aparece uma gaivota morta num jornal, tremendo como varas verdes só de ouvir a frase "gripe das aves". E, ao mesmo tempo, todo este cenário me deprime, e dou por mim a pensar que para isto mais valia termos continuado a ser macaquinhos como no início.

O livro que vos trago este mês chama-se Como Me Tornei Estúpido.



Como Me Tornei Estúpido foi escrito por um promissor jovem Francês de seu nome Martin Page. Aqui conta-se a história de Antoine, um estudante de Aramaico demasiado inteligente para ser compreendido pelos outros e, consequentemente, ser feliz. Na sua infelicidade, decide tornar-se estúpido para conseguir a aceitação do mundo. Assim sendo, decide tornar-se alcoólico, mas entra em coma ao fim do primeiro copo. Tenta o suicídio, mas falha redondamente. Ainda procura submeter-se a uma cirurgia para remover parte do cérebro, mas enfim consegue atingir a tão desejada estupidez através de uma maneira surpreendente que não contarei aqui para não estragar a surpresa a quem possa vir a ler esta obra.

Surreal, bem humorado e inteligente, Como Me Tornei Estúpido é um triste retrato da sociedade moderna que exige a estupidez e massificação como modo de vida, votando ao ostracismo quem dá uso à sua massa encefálica. Em Portugal, foi editado pela ASA.

27.12.05

Tascas: Bora Bora

Local de peregrinação, taberna infecta, o café Bora Bora é o tema escolhido para a secção "Outros Cultos" deste mês.



Situado em Peniche, meio escondido nas típicas ruas do bairro de pescadores conhecido vulgarmente por "Peniche de Cima", o Bora Bora era um pequeno café igual a tantos outros, com cadeiras de plástico, matrecos, mesas de snooker e ping-pong, frequentada por senhores no ocaso da vida. Até que, já na segunda metade da década de 90, numa triste altura em que algumas das típicas tabernas fecharam na localidade, alguém (não se sabe bem quem) descobriu que nesta casa se fazia Droguinha, e bem barata por sinal! Subitamente, orfãos do Charlot, do Angola e do Manél das Escadinhas encontraram um novo lar em Peniche de Cima. E assim nasceu o culto à volta deste café.



Quem tenha visitado este estabelecimento no seu início e só agora tiver oportunidade de lá voltar, notará porventura uma diferença abismal. Os velhos continuam a frequentá-lo, claro, mas já não poderá encontrar o tecto de platex com restos de droguinha seca, as mesas de snooker e ping-pong, as inundações urinárias (mijar no caixote do lixo virou moda durante uns tempos) e as cadeiras de plástico... Agora a velha taberna é um café todo fino, com cadeirinhas bonitinhas, luzes com sensor de presença e televisão de ecrã gigante (com Tv Cabo e tudo)! Mas há algo que nunca se alterará: As bebedeiras de caixão à cova! Apesar da inflação nos preços, este continua a ser o local mais barato e aprazível para se sair em Peniche num Sábado à noite. Aprecio especialmente aquelas noites em que já são quase 4 da manhã e ainda lá está um grande grupo, munidos de violas de caixa e completamente perdidos no álcool, cantando e gritando a plenos pulmões enquanto o proprietário os tenta expulsar da tasca.



Recomendo então a bebida local, a supra-citada droguinha (não vou dizer em que consiste, mas posso adiantar que é vendida num jarro a dizer liter) e o traçado (vinho rosé com gasosa). Caso não alinhe muito com vinho, poderá sempre pedir um whiskey, cerveja de litro ou mesmo vodkas e shots! Há de tudo! Bom e barato! O Bora Bora não vem nas brochuras turísticas, portanto, na eventualidade de visitarem Peniche, perguntem a alguém entre os 18 e os 35!