15.3.06

Discos: Bright Eyes - Lifted

Há tempos, foi aqui falado de uma loja de discos em Leiria chamada Alquimia, cujo proprietário era exímio na arte de impingir discos de qualidade aos seus clientes, acertando nos seus gostos e preferências. Sempre que lá entro dificilmente saio sem um disco nas mãos, que não poucas as vezes desconheço completamente. Foi o que aconteceu no caso de Bright Eyes.



Bright Eyes é o nome de uma banda que se mistura com o nome de Conor Oberst, o mentor e único músico a figurar em todos os albuns do projecto. Conor pratica uma Pop com tendências megalómanas, sempre prestes a sair do obscurantismo, mas falhando perpetuamente uma e outra vez, até ao salto definitivo que tarda em chegar. Um dos seus albuns chegou a número 10 na tabela de discos mais vendidos nos Estados Unidos, e ainda assim poucos ouviram falar de Bright Eyes e ainda menos pessoas desconfiam que existe um multi-instrumentista chamado Conor que edita o seu cancioneiro desde os 13 anos de idade. Com uma carreira bastante intensa (só o ano passado, Bright Eyes editou/editaram dois discos de originais e um ao vivo), este é um nome a ter em conta num futuro próximo, tal a qualidade e espírito meio mainstream, meio underground que carregam as músicas deste projecto.


O Album sugerido este mês tem o título de LIFTED or The Story is in the Soil, Keep Your Ear to the Ground.



Lifted assume-se como um album conceptual, em que as músicas só fazem sentido se ouvidas de seguida, de tal forma que a linha onde acaba uma e começa outra é muito ténue e por vezes imperceptível. O tema base é o rescaldo dos atentados de 11 de Setembro, mas a toada é melosa (e o facto de algo ser meloso não significa propriamente que seja mau) e aquilo que seria uma reacção de uma América ferida torna-se antes um grande disco sobre o amor e outros sentimentos menores. A voz de Conor é estranhíssima, afinada "alternativamente", e a grandiosidade dos arranjos mistura-se com momentos rock "in your face" e cantinhos intimistas.

Mas o grande valor de Lifted é mesmo o seu conteúdo lírico, escrito detalhadamente num booklet muito bem ilustrado e pensado ao pormenor. Além de um grande album, ainda se ganha um grande livro de poesia que facilmente sobreviveria sem a componente musical. Sem o booklet, admito, este album seria demasiado estranho até para mim e creio que o teria descartado. Mas a experiência de acompanhar as letras à medida que as músicas nos entram pelos ouvidos tornaram Lifted numa escolha recorrente sempre que vasculho os meus "Discos Compactos". Para ouvir de olhos bem abertos.

14.3.06

A corrente (partida) da BD!

O El Gordo teve a gentileza de se lembrar de mim ao pedir-me que exponha 5 traços da minha personalidade enquanto leitor de BD. Creio que o meu percurso enquanto leitor de BD ajuda a traçar o meu perfil.

Iniciei-me na Banda Desenhada desde tenra idade, tendo herdado a gigantesca colecção de BD do meu irmão, nomeadamente clássicos da Disney e da Turma da Mônica (que adorava mas que agora abomino), com um ou outro Capitão América pelo meio (nunca gostei deste em particular). Como desde sempre possuí o vício de leitura a partir do momento em que aprendi que letras juntas formam palavras, devorei a mesma colecção vezes sem conta. Os meus pais apoiavam-me, julgando ser uma fase passageira própria da infância e que um dia quando fosse mais velhinho deixasse de ler BD, como havia acontecido anteriormente com o meu irmão.

Quando tinha 10, 11 anos, visitei a casa de uns primos meus de Lisboa, na altura recém-casados. Enquanto passeava pela casa, deparei-me com aquilo me transformaria no leitor assíduo de banda desenhada que sou hoje, para grande desgosto dos meus pais: Uma divisão da casa bastante espaçosa transformada em BDteca! Fiquei maravilhado com os milhares de títulos disponíveis, todos ordenados cronologicamente, por autor e título. Sentei-me no sofá e lá fiquei horas a fio, enquanto descobria pela primeira vez o Asterix, o Tintin, o Garfield, o Gaston Lagaffe e tantos, tantos, tantos outros... Lembro-me que nem sequer jantei nesse dia, e a minha mãe conta-me que deu por mim a dormir no meio de um monte de livros com um sorriso estampado nos lábios... A partir daí esse meu primo (que nunca mais voltei a ver) passou a enviar-me regularmente livros de banda desenhada durante uma série de anos.

Era já adolescente quando comprei o primeiro livro de banda desenhada com o meu próprio dinheiro. Foi este:



Na altura acontecia uma verdadeira revolução de Comics Americanos em Portugal. De um momento para o outro, passaram a surgir regularmente nas bancas títulos dos X-Men, Homem-Aranha, Spawn, Batman, Gen13 e o universo 2099. A semanada esgotava-se perante a variedade e qualidade de títulos disponíveis. As histórias cruzavam-se umas com as outras, as personagens evoluíam nos livros, apaixonavam-se, lutavam entre si, adoeciam e morriam, o que constituía uma novidade absoluta para mim. Um puto cheio de testosterona e com a mania da perseguição identificava-se e sofria com os personagens. O ideal dos X-Men, um grupo de mutantes super-poderosos distintos do humano comum, lutando pelo seu direito de igualdade agarrou-me de tal maneira que ainda hoje vou seguindo com alguma regularidade as suas aventuras.

A minha primeira experiência profissional "a sério" foi há alguns anos no Parque Nacional da Peneda-Gerês. Durante a minha temporada minhota partilhava um chalet com muita gente, boas almas na sua maioria. Foi aqui que me veio parar às mãos o meu primeiro comic independente. Tratava-se de Lenore, The Cute Little Dead Girl. Fiquei apaixonado! Um universo muito próprio, boa arte, bom humor negro, perfeição! Aquele livro era eu! Iniciei então a minha demanda para encontrar os livros de Lenore, o que me levou a procurar lojas especializadas em Bd de importação. A primeira que encontrei não tinha nada de Lenore, mas possuía outro dentro da mesma estética, Johnny The Homicidal Maniac! A partir daí, enquanto procurava pela Lenore, fui construindo a minha colecção de comics Indie quase sem dar por ela. Hoje em dia não tenho ainda uma divisão da casa cheia de BD até ao tecto, mas possuo uma colecção de grandes comics Indie misturados com clássicos Mainstream em constante mutação e crescimento, pelos quais tenho um imenso carinho e orgulho.

Assim, 5 traços:

1- Prefiro o formato Trade Paper Back, pois os livros ficam mais bonitos na estante e duram mais do que o formato single. Além disso, se os perder perco logo tudo de uma vez, não fico com colecções incompletas.

2- Prefiro livros de humor negro e nonsense a histórias pesadas.

3- Odeio crossovers. Deixei de comprar livros que me passam ao lado só porque se ligam directamente com aqueles que compro regularmente. Além disso, a qualidade dos crossovers tende a decair cada vez mais (House of M, o maior barrete da história da Marvel)!

4- A primeira coisa que faço quando entro numa loja de Comics é cumprimentar os donos. A segunda é correr para a secção Indie. A terceira é queixar-me do preço dos Comics. A quarta é ficar indeciso entre 3 ou 4 comics diferentes. A quinta é sair da loja com os esses mesmos 3 ou 4 comics.

5- Compro Comics por autor. Se o livro diz Roman Dirge ou Jhonen Vasquez na capa, nem penso duas vezes.

Agora seria a altura em que passaria esta corrente a outras pessoas que partilhem a minha paixão por BD, mas acontece que nenhum dos meus amigos Bdéfilos é detentor de um blog, e, sinceramente, não estou mesmo a ver a quem possa passar isto. Paciência...

8.3.06

Banda Desenhada: O Macaco Tozé

O Macaco Tozé retrata a vida de um ser residente numa grande cidade do norte de um Portugal entregue aos símios, envolto numa atmosfera cinzenta própria de uma vida banal e sem futuro.



Editado pela MMMNNNRRRG e escrito por Janus, o Macaco Tozé mostra a bela e apaixonante decadência de um bairro típico de grande cidade, tão provinciano como uma qualquer aldeia perdida nas montanhas. Apresentando uma estética bem próxima da curta metragem, as short-stories giram todas à volta de sexo, álcool e violência. O macaco Tozé vai às putas, embebeda-se e briga com os taberneiros, é várias vezes preso e espancado pela polícia, arranja um emprego como carregador de estrume, e é um infeliz acomodado à sua infelicidade. O tom é mal-humorado e desconfortável. A ideia seria, parece-me, levar o leitor à gargalhada, mas na verdade, O Macaco Tozé perturba-me profundamente, e revejo neste livro um Portugal que tarda em sair da sua Portugalidade. Um soco no estômago que nos estampa um sorriso nervoso no rosto.

A arte contribui para o aspecto sujo e infecto, elevando a qualidade desta obra. BD Nacional, ao nível das melhores que lá por fora se fazem, transpirando a essência do nosso país por em todas as páginas. Descubram-no e descubram-se nas lojas da especialidade.



Uma short story do Macaco Tozé disponível aqui

5.3.06

Filmes: Especial Fantasporto

De volta depois de um grande fim-de-semana na Invicta, com a barriguinha bem cheia de filmaços e francesinhas... O meu primeiro Fantas foi curto, mas extremamente intenso! Não consegui ver tudo o que queria (obviamente), por alteração ao programa inicial ou por não me ter sido possível adquirir bilhetes. Ainda assim, em 2 dias papei 6 sessões, e para o próximo ano conto papar muitas mais! Como não quero ser chato e sendo este um post extra-estrutura habitual deste blog, aqui ficam uma críticas curtinhas sobre a minha experiência no 26º Fantasporto...

1ª Sessão: Curtas Portuguesas, Sessão #2:

Sete curtas, três delas relativamente boas, duas verdadeiramente más e outras duas mesmo excelentes.

A pior:

A Serpente



15 minutos de planos de manequins de montra, em silêncio quase absoluto. Um filme que poderia ter sido feito com máquina fotográfica. Intragável. O Fantas fica-me a dever um quarto de hora da minha vida.

Vale a pena voltar a ver? NÃO!

A melhor:

Um Homem



Excelente fotografia, pouca acção, grande argumento! Uma ode aos filmes de blacksploitation dos anos 70, filmado em betacam. A relação entre uma senhora desiludida com o amor e um lavador de pratos fascinado pelas suas pernas. Participação especial de Zé Cabra!

Vale a pena voltar a ver? Sim, sim, mas para isso convém andar atento à programação do segundo canal.

2ª Sessão: The Hamster Cage



O Sars Wars havia sido cancelado, e The Hamster Cage substituiu-o. Uma agradável surpresa. A história de uma família completamente amoral. Inclui incesto, pedofilia, gerentofilia e outras perversões sexuais avulsas. Diálogos brilhantes!

Vale a pena voltar a ver? Um grande e sonoro SIM!

3ª Sessão: Hostel



Inicialmente apenas um típico filme Americano de adolescentes, Hostel torna-se numa experiência arrepiante e ultra-violenta! O Tarantino anda lá metido, mas o filme sobreviveria bem sem o seu "patrocínio"... As gargalhadas e aplausos espontâneos do público do Rivoli em certos momentos de Hostel foram impagáveis, sendo esta a minha melhor memória do festival! Provavelmente, o filme mais assustador dos últimos tempos!

Vale a pena voltar a ver? YOU BET YOUR ASS! Quando é que sai em DVD?

4ª Sessão: Supernova



Um homem suicida-se com um tiro na cabeça. Depois, a caminho de casa, leva com um meteorito e entra em coma. Mais tarde, recupera e vai viver sozinho para o campo, onde é confrontado com fantasmas do passado. Mas... Ele não tinha morrido? Será que afinal continua em coma? Não se percebe muito bem. O maior nó cerebral do Fantasporto 2006.

Vale a pena voltar a ver? Não me parece.

5ª Sessão: Hair High



Um filme de animação mediano do grande Bill Plympton. Tem os seus momentos, mas é torna-se bastante previsível e arrasta-se no final. Uma desilusão.

Vale a pena voltar a ver? Infelizmente, não.

6ª Sessão: Pleasant Days



Um filme Húngaro sobre uma rapariga que vende o seu filho e passa a vida a ter relações sexuais com todos os homens que surgem na sua vida. Um jovem acabado de sair da prisão frustra-se por ser o único a não ter direito à festa e tenta em vão conquistá-la. Com um ritmo próprio de filme Europeu, Pleasant Days pode tornar-se uma tortura para quem não está habituado a este estilo cinematográfico. Eu gostei, mas creio que fui o único.

Vale a pena voltar a ver? Sim, mas só daqui a muito, muito, muuuuuuito tempo!

Sessão Bónus: The Longest Yard



Um filme cortesia dos autocarros da Eva. Um antigo herói do futebol americano caído em desgraça acaba na cadeia e torna-se estrela da equipa prisional, que se prepara para enfrentar os guardas do seu estabelecimento de cárcere. Papinha para o cérebro. Não é bom, mas entretêm.

Vale a pena voltar a ver? Não, mas eventualmente acabarei por revê-lo na programação de Domingo à tarde. E toda a gente sabe que não há como fugir aos filmes de Domingo à tarde!

E pronto. Acabou-se o Fantas, mas o cinema continua em altas no nosso país. Estreia este mês o Festival dos Cinemas do Mediterrâneo. A primeira edição "a sério" arranca no dia 9 e vai até dia 18 de Março, em Faro. Vai ser um fartote de curtas, longas e documentários de países da Europa, Médio-Oriente e Norte de África, portanto se residem no Sul ou se passarem por Faro, aproveitem. Mais informações aqui.

1.3.06

Livros: Wilt

Henry Wilt é um homem de meia-idade, preso a um emprego sem futuro como segundo-assistente do Departamento de Estudos de Formação Geral da Universidade de Letras e Tecnologia de Fenland, onde tenta sem sucesso impingir cultura a estucadores, talhantes e canalizadores. A sua mulher é uma entusiasta do Ioga e dos métodos de meditação orientais, como forma de justificação do vazio que é a sua vida, para além de se queixar sobre tudo e todos. Isto leva a que Wilt decida que, para poder ser verdadeiramente livre, a sua esposa terá de morrer!

Editado em 1976 por Tom Sharpe, Wilt é o seu romance mais aclamado, tendo já sido escritas 4 sequelas. Estamos perante as aventuras e azares de um homem com a missão de assassinar a esposa, o que se conclui depois de ler o livro na sua decisão mais sã. O plano consiste em enterrar a Senhora Wilt num pilar duma ponte em construção, e para isso, o protagonista resolve encenar primeiro o crime com uma boneca insuflável. Porém, ao regressar a casa, Henry constata que a sua esposa partira, sendo posteriormente acusado do seu assassinato.

Com uma vizinhança de tarados sexuais e um polícia muito pouco perspicaz ávido em desmascarar o que julga ser um perigoso assassino, Wilt vê-se envolvido num chorrilho de peripécias absolutamente incríveis e não menos hilariantes. Tom Sharpe criou um livro surpreendente que agarra o leitor pelos cabelos e só o solta na última página. Um dos raros romances capaz de me levar às lágrimas de tanto rir, o que por si só atesta a qualidade do livro. Humor negro com uma forte carga sexual. O único senão é acabar depressa. Por mim, poderia ter mais 150 páginas...



Encontra-se à venda por aí...

20.2.06

Filmes: The Army of Darkness

Um clássico de culto. Uma ode à pancadaria com estilo. Um filme de Sam Raimi. Um ícone da série B em Bruce Campbell. Tudo isto é o Exército das Trevas.



O Exército das Trevas (Army of Darkness, no original) é a terceira e última parte da série Evil Dead, e pega na história precisamente onde tínhamos ficado no filme anterior. Ash, o herói principal, havia sido sugado para a Idade Média através dum portal criado pelo livro dos mortos, Necronomicon Ex Mortis.

Chegado à Idade Média, e apenas munido com a sua caçadeira, braço-motoserra e um carro que se revela pouco mais que inútil, Ash começa por ser escravizado pelos habitantes locais, que o olham primeiro com desconfiança, para depois o elevarem à categoria de salvador, acreditando na profecia de que um herói caído dos céus os salvaria dos mortos-vivos que assolam a região. Porém, depois de todos os seus amigos se terem tornado eles próprios mortos-vivos e da sua mão direita se ter virado contra si nos filmes anteriores, Ash já não é o típico herói pleno de virtudes, tornando-se arrogante, preconceituoso e acima de tudo, bronco que nem uma porta. E é aqui que reside a magia do Exército das Trevas.



No primeiro filme estamos perante o terror puro e duro. No segundo, o terror é intercalado por humor. Aqui, terror nem vê-lo. O Exército das Trevas é apenas um filme de acção carregado com humor físico e algumas das melhores frases-chave alguma vez encontradas numa película cinematográfica. Exemplos:

Quando a sua namorada medieval é possuída pelo demónio e o tenta atacar, depois de Ash se ter enganado nas palavras-chave que destruiriam para sempre o livro dos mortos e em vez disso ter libertado uma horda de mortos vivos:

Yo, She-Bitch! Let's go!

Na altura em que um morto vivo lhe grita "I'll swallow your soul!"

Come get some...

Quando dispara o seu primeiro tiro de caçadeira em frente aos cavaleiros medievais:

This is my BOOM stick!



São estas pequenas frases, envolvidas no contexto do filme, que tornam esta pérola num dos mais divertidos filmes de zombies de sempre, e que tornaram Bruce Campbell no meu herói de acção dos tempos de adolescente, bem à frente de Van Dammes, Seagals e afins. O Exército das Trevas, disponível nos melhores videoclubes e também naqueles videoclubes não tão bons que ainda têm Dvds mais velhinhos. Imagens, sons e um pequeno excerto vídeo podem ser encontrados aqui.

Hail to the king, baby!

Trailer:

15.2.06

Discos: The Presidentes of the United States of America - Love Everybody

Ah, e que bem que sabe reencontrar uma das minha bandas preferidas da minha adolescência, quando os julgava mortos e enterrados... Os Presidents of The United States of America estão de volta!



Nascidos na fria e cinzenta Seattle mais ou menos a meio da década de 90, os PUSA conquistaram um público fiel à volta do planeta, derivado ao seu punk-pop-rock extremamente bem humorado. Músicas como Lump e Peaches continuam no ouvido de muito boa gente, apesar destas cantigas contarem já com 10 anos em cima... Os PUSA estavam em todas, tocaram em tudo o que era sítio, lançaram um segundo disco, continuaram em todas, continuaram a tocar em tudo o que era sítio, e depois... Acabaram. 1997 viu chegar às prateleiras das lojas Pure Frosting, uma compilação de raridades e músicas ao vivo, onde se encontrava a afamada versão de Video Killed The Radio Star, sendo este o seu canto do cisne...

Até agora! Andava eu a passear por uma pequena loja de discos em Faro quando dou de caras com Love Everybody, o mais recente disco dos Presidents of The United States of America! Editado em 2004, Love Everybody trás de volta a guitarra de 3 cordas, o baixo de 2 cordas e a bateria de brincar que os caracterizava. Ao todo são 14 faixas curtinhas, surpreendentemente refrescantes e divertidíssimas. Destaque para o instrumental Surf's Down, para a estupidez de Jennifer's Jacket e para a ultra-viciante Some Postman, uma cantiga das melhores que ouvi nos últimos tempos. Sorriso estampado na cara garantido! Perante o panorama sisudo das bandas Indie dos últimos tempos, talvez esteja na hora de voltar a descobrir The Presidents of The United States of America!

8.2.06

Banda Desenhada: Lenore The Cute Little Dead Girl

Como havia sido prometido há muitos meses atrás, hoje a secção BD de Culto debruça-se sobre as aventuras de Lenore, The Cute Little Dead Girl.



Lenore é uma personagem do grande Roman Dirge, inspirada no poema com o mesmo nome de Edgar Allan Poe. A estória principal centra-se numa menina que aparenta não ter mais de 8 anos, loura, pequenina e simpática. O seu único problema reside na condição clínica de que padece (está morta). Fascinada por gatos, Lenore passa a vida (morte) a matar e mutilar todos os que se atravessam no seu caminho, ainda que inocentemente, pois uma menina morta não consegue distinguir muito bem a fronteira entre o bem e o mal...

Num estilo muito próprio, Roman Dirge destrói o imaginário infantil de forma imaginativa e persistente. O coelho da Páscoa, os gnomos da floresta, as lengalengas infantis, tudo é deliciosamente pervertido em Lenore, the Cute Little Dead Girl. Humor negro do melhor que se pode encontrar em BD, ilustrado a preto e branco como não poderia deixar de ser.

De momento existem duas compilações de histórias de Lenore (Trade-Paper Backs, em "Americano"). O primeiro TPB intitula-se Noogies e compila os números 1 até ao 4. O segundo chama-se Wedgies e vai do número 5 até ao 8. Entretanto está para sair um 3º TPB. Para obter algum destes livros, recomendo como já vai sendo habitual a Shop Suey Comics (e eles não me pagam nada por isso...). Se ainda assim a minha prosa não vos deixou convencidos, deixo-vos com este site, onde poderão assistir a episódios animados em Flash, directamente inspirados nas primeiras aventuras de Lenore.

1.2.06

Livros: Casei com a Minha Irmã

Eurico A. Cebolo é um homem que dedicou toda a sua vida à música. Segundo a sua biografia oficial, iniciou-se musicalmente em Moçambique aos 16 anos tendo ganho variados prémios durante o período em que residia por África (Ganhou o prémio de melhor canção portuguesa no Festival Hispano-Português de Aranda del Duero de 1962, vejam lá). Porém, em 1975, Cebolo teve um azar. O carro em que seguia embateu de frente contra um camião, morrendo-lhe o primo e reduzindo a capacidade da sua mão direita em 50%. Perdeu-se um músico-concertista, ganhou-se um chato do caraças!



Após o acidente, Cebolo virou-se para o ensino musical, para mal dos nossos pecados. São de sua autoria livros como o Solfejo Mágico, Música Mágica, Piano Mágico, Arpejo Mágico, etc, etc, etc, etc... E toda a santa criancinha nos anos 80 sofria a aprender música com os livrinhos do Cebolo... E é engraçado como hoje em dia ninguém sabe o que fez aos malditos livros, autênticas peças kitsch! Ora vejam bem as capas de dois exemplares bem afamados...





Não contente com o facto de nos torturar com a porcaria do Solfejo Mágico e afins, Eurico A. Cebolo virou-se para uma carreira como romancista, carreira essa em que teve muito menos sucesso... Romances com nomes como O Falo Perdido ou O Violador das Mortas deviam fazer parte das estantes de toda a gente... O livro analisado hoje intitula-se Casei Com a Minha Irmã!



Bem, sinceramente, por muito que poderia escrever aqui, nunca seria capaz de fazer justiça à magnitude desta obra de Cebolo. Assim sendo, nada como o próprio Cebolo para descrever esta obra. Aqui vai o texto incluído no prefácio:

"CASEI COM A MINHA IRMÃ" é um romance onde o espírito criador, a capacidade de imaginação e a grande versatilidade cativam o leitor que, entrando nesta teia tão bem urdida, estará sempre ansioso pela página seguinte. Num estilo muito próprio, sóbrio e sem quaisquer rebuscamentos, deliciamo-nos com a pureza de linguagem de um Eça, a fecundidade de ideias de um Camilo e o encanto e simplicidade de um Torga. Em "CASEI COM A MINHA IRMÃ" é burilada uma estória que poderia ser verídica e ter acontecido em qualquer tempo e lugar. Maria Alice perdeu a mãe, tragicamente, e apaixona-se pelo filho da patroa, que a expulsa. Mais tarde é dada como morta no desastre ferroviário de Alcafache e o rapaz que a desonrou casa com a própria irmã."

Não estão ainda convencidos da qualidade de Casei Com a Minha Irmã? Convido-vos então a ler este pequeno excerto:

"[Maria Alice] embrenhada nestes tristes pensamentos, e sem saber que rumo dar à vida, nem se apercebeu que um indivíduo com todo o aspecto de marginal se sentara no mesmo banco que ela ocupava e a mirava, descaradamente. Receosa, olhou de soslaio tentando descortinar as intenções do homem; este, como se lesse o seu pensamento, logo lhe tirou qualquer dúvida com as palavras que lhe dirigiu:

- Olá, pombinha! Esperavas alguém que te fizesse companhia? Tens sorte, já que eu ando à procura duma chavala que queira curtir comigo. Manjei logo que és boazona e se quiseres alinhar numas curvas não te arrependerás porque eu sou capaz de dar a volta ao capacete à mais pintada - falando assim o tunante foi-se aproximando até se encostar a ela.

A rapariga, cheia de medo por aquilo que escutara e pelo mau aspecto do rapaz, fez menção de levantar-se suplicando:

- Por favor, deixe-me em paz. Engana-se no que pensa de mim. Sou uma moça séria a quem a desgraça bateu à porta.

- Ora, minha linda, sem tangas; dizeis sempre isso, mas andais sempre todas ao mesmo; eu já topo o vosso paleio - e o vadiola pôs-lhe um braço pelos ombros.

Revoltada, ela pregou-lhe um safanão e aproveitando o seu desequilíbrio correu para fora do jardim. Olhou para trás, e vendo que ele não desistia de a perseguir, na ânsia de lhe escapar, imprudentemente, tentou atravessar a rua. Em tão má hora que foi colhida por um automóvel que circulava a grande velocidade. Ouviu-se uma travagem brusca acompanhada de estridente chiadeira de pneus. Tudo em vão e num ápice, já que o condutor não conseguiu evitar o acidente. O choque deu-se com muita violência. O corpo da desditosa criatura, projectado alguns metros pelo ar, estatelou-se no outro lado da larga via..."


Qual Eça, qual Torga, qual Camilo! Eurico A. Cebolo ao Panteão Nacional!


Encontra-se à venda aqui