12.2.07

Livros: Producções Fictícias - 13 Anos de Insucessos

Tiros Certeiros:

- Entrevistas Históricas, Boião de Cultura e Herman Zap, para o Parabéns (RTP1, 1992 a 1995);

- Contra Informação (RTP 1, 1996 a esta data);

- Herman Enciclopédia (RTP 1, 1996 e 1997);

- HermanDifusão Portuguesa (Antena 1 e Antena 3, 1998, ainda as tenho em cassete BASF gravadas à pressa antes de ir para a escola);

- Major Alvega (RTP 1, 1998);

- Conversa da Treta (Antena 1, 1998 e SIC, 1999);

- Paraíso Filmes (RTP 1, 2001, queremos a série completa em DVD );

- O Programa da Maria (SIC, 2002);

- Gato Fedorento (Em Blog, livro, 4 edições em DVD e roupa interior masculina perfumada, SIC Radical e RTP 1, 2003 a esta data);

- Inimigo Público (Suplemento do Público, 2003 a esta data).

Todos estes produtos foram gerados na casa que continua a marcar o ritmo do humor no audiovisual Português: As Produções Fictícias.




O livro Produções Fictícias - 13 Anos de Insucessos procura traçar o percurso desta produtora, desde a sua pré-história na sala número 27 da Travessa da Fábrica dos Pentes até aos projectos para 2006 (altura em que o livro foi editado). Num misto de historial com antologia e album de família, neste livro temos acesso livre às almas criadoras que ajudaram a provocar as mais sonoras e memoráveis gargalhadas na última década e meia, os seus amores e desamores (relatos de violência física pelo meio) entre eles próprios, as private jokes e as alarvidades que caíram na boca do povo, os processos de escrita o meio do caos, ilustrando que Roma e Pavia não se fizeram num dia, com quase tantos tiros certeiros como tiros ao lado, sem ignorar os dolorosos e necessários tiros no pé.

Pistas para desvendar o grande mistério sobre o verdadeiro autor d'O Meu Pipi, a inclusão da versão original não-censurada da infame "A Última Ceia" (será que ninguém mete isso no Youtube?), os flyers e notas de imprensa da Paraíso Filmes, a génese do Gato Fedorento e dos Cebola Mol, relatada com um tom quase nostálgico mas longe da lamechice, e uma grande imensidão de humor de primeira apanha, tudo condensado num potente e volumoso canhenho que se lê em duas viagens de autocarro Faro-Lisboa, Lisboa-Faro.

Destaque para o seguinte trecho, sobre um certo senhor que neste momento está a ser (injustamente, a meu ver) crucificado na sua própria casa por muita gente com ideias pré-concebidas sobre um certo programa com muito potencial para crescer (aposto que para o mês que vem anda meio Portugal a papaguear "Beijinho booom"... Lembram-se da tareia que o Herman Enciclopédia levou aquando a sua estreia? Pois, eu também já me tinha esquecido), trecho esse que, embora possa parecer apatetado tirado assim do contexto, revela que este senhor é um ser humano e não um macaquinho que existe para entreter :

"Enquanto Pina, o do humor corrosivo e espontâneo, lançava as mãos à cabeça, perguntando «Mas como é que este gajo [vulgo: Miguel Viterbo, o do humor imperceptível] até sabe de pintura de barcos?!», Markl, o novato assustado, fugia com frequência para perto de um microondas, pondo o prato rotativo a funcionar com um bule de chá dentro por lhe proporcionar uma sensação de calma capaz de superar os berros de Nuno e Viterbo, disputando decibéis em discussões sobre sintaxe e semântica ou sobre férias no campo ou na praia.

Parece que, certa noite, desesperado por um raio de sol, Nuno Artur desabafou: «Quem me dera ir para a praia! Estou farto!» Segundos depois já Viterbo, cuja mundividência se caracteriza por ser diferente da do mais comum dos mortais, se lançara furiosamente no combate desta declaração: «Isso de ir para a praia é uma ideia absolutamente deprimente! Férias na praia! Que deprimente!» E continuaram por aí fora: «Mas deprimente porquê?», perguntava Nuno; «É um conceito estúpido, esse do calor e da praia», ripostava Miguel; «Mas porquê?», insistia Nuno. Markl evadiu-se para o seu improvisado estúdio zen no momento em que o tema em apreço resvalou para «o lazer nas sociedades contemporâneas». Em frente ao microondas, já nem queria saber dos cinco textos que tinham que entregar a Herman José às dez horas dessa mesma manhã..."

11.2.07

Diz-se por aí que me ando a baldar para este blog...

...e é absolutamente verdade! Não tenho tido tempo/paciência/vontade de escrever aqui nos últimos meses, e como resultado o volume de trabalho acumula-se como nunca aconteceu por estas paragens. Envergonha-me o definhamento do meu espaço justamente na altura em que é publicada uma entrevista que dei sobre ele...

Assim sendo, como pessoa desorganizada, pouco metódica, relaxada e perguiçosa que sou, aposto a vida do meu blog em como irei publicar os 10 posts que estão em falta até ao final do mês!

Or else...

30.1.07

Sortido: Almanaque Borda D'Água

"Chamamos-lhe o Velho da Cartola. Era o homem que fazia as previsões. Este jornalito que traz debaixo do braço pensamos que vem do tempo em que se punha a informação à beira dos rios para quando chegavam os nossos navegadores terem notícias. O Velho da Cartola era o meteorologista da época e pendurava esta folhinha na margem do rio, com uns alfinetes ou umas molas. Assim terá nascido o Almanaque Borda d'Água". Narcisa Fernandes, sócia-gerente da Editorial Minerva.




Com praticamente 80 anos de existência, o Almanaque Borda D'Água é uma das mais antigas publicações Portuguesas em actividade. Geração após geração, milhares de Lusitanos ainda cumprem o ritual de adquirir nas bancas o velhinho Almanaque a um preço ainda relativamente simpático, impresso em papel ordinário que se torna amarelecido passadas poucas semanas, abrindo de seguida o canivete para separar as páginas cheias de ciência, mezinhas e sabedoria popular que continuam a vir teimosamente coladas umas às outras.

Hoje em dia, o Almanaque Borda D'Água enquadra-se na categoria a que eu gosto de apelidar "Literatura de Viagem de Curta Distância". É cada vez mais difícil parar num semáforo num dos nossos "grandes" centros populacionais sem sermos abordados por emigrantes de Leste que, mesmo sem saber ler nem falar o Português, nos tentam enfiar um almanaque pela janela das nossas viaturas. Perde-se no pregão, ganha-se em divulgação.

E no que consiste o maravilhoso Almanaque? Bonitas histórias da Disney? Lindas fotonovelas da Gina? Infelizmente não. Basta ler a capa para se saber exactamente com o contamos: "Reportório útil a toda a gente, contendo os dados astronómicos, cívico e religiosos e muitas indicações de interesse real." Ou seja, o Borda D'Água é Portugal em 24 páginas.

A edição de 2007 abre com um editorial relacionado com a situação no Médio Oriente, o perigo dos pesticidas e a necessidade de regressar à agricultura biológica. "Os governos e políticos, apesar de todo o seu alarido, passam, mas os agricultores continuarão trabalhando com suor e amor, abrindo as suas almas aos raios e brisas, unindo conscientemente o céu e a terra, gerando frutos belos e bons, e vendo e sentindo bem a omnipresença Divina na Natureza pródiga." Resumindo, só Deus e a agricultura biológica salvam!

Depois temos: Eclipses, festas e romarias, informações astrológicas, melhores alturas do ano para plantar abóbora e espinafre e batata e couve e todas as leguminosas, tabelas de marés, orações, um útil capítulo intitulado "Da Influência da Lua na Agricultura", e lindos ditados populares ("Não faças tanto caso das coisas pequenas que das grandes te olvides").

Destaque maior para a rubrica Manual de Sobrevivência, um texto que almeja a melhoria da qualidade de vida do leitor. Pérolas da rubrica:

- Sinais de reconhecimento de derrame cerebral: peça para sorrir, para levantar os braços e para dizer uma frase simples. Se houver dificuldades, dirija-se a um serviço de urgência;

- Cuidado com os alimentos rançosos;

- Tenha cuidado com o telemóvel no bolso direito ou junto do coração e carregue as baterias longe de si;

- Quanto mais amor der às plantas e animais, mais qualidade recolherá nos frutos e em si próprio;

- A melhor colheita é de manhã. Mas a do Amor humano e divino, a toda a hora, é para a Eternidade.


Na próxima edição da rubrica "Literatura de Viagem de Curta Distância", a revista Cais.

14.1.07

Filmes: Coffee and Cigarrettes

Roberto Benigni e Steven Wright encontram-se para tomar café e conversar um pouco, mas não se conseguem entender. Às tantas, Steven despede-se, dizendo que tem de ir ao dentista. Roberto, num acto de boa-fé, oferece-se para ir por ele, já que tem algum tempo livre.

Joie Lee e Cinqué Lee encontram-se para tomar café e discutir sobre o quão diferentes são um do outro, apesar de serem gémeos. O empregado, Steve Buscemi, ao reparar no grau de parentesco dos seus clientes, não consegue conter-se e desata a disparatar sobre a teoria de que o irmão gémeo de Elvis não morrera à nascença como se pensa, mas terá substituído o Rei quando este decide acabar a sua carreira. Só assim se justificam as roupas horríveis, a obesidade e o período Las Vegas de Elvis Presley.

Iggy Pop encontra-se com Tom Waits para tomar café, e decidem fumar uns cigarros para celebrarem as suas respectivas longas abstinências de nicotina. Iggy Pop é um fã deslumbrado de Tom Waits, Tom Waits é arrogante e agressivo para com Iggy Pop.

GZA e RZA dos Wu Tang-Clan encontram-se para tomar chá e conversar sobre os malefícios do café e os benefícios das medicinas alternativas. O empregado do bar é Bill Murray, que resolve trabalhar no local para satisfazer os seus vícios de café e cigarros. Como solução para acabar com o seu catarro, os rappers incitam Murray a beber uma solução de água da torneira com água destilada.



Estes são apenas alguns dos momentos mais bem conseguidos de Coffe and Cigarettes, uma colecção de 11 curtas-metragens em torno do acto social de beber café e fumar cigarros. Este projecto que Jim Jarmush desenvolveu entre 1989 e 2003 está cheio de excelentes momentos de humor, estranheza, melancolia e conversa despretensiosa, num misto de diálogos ensaiados e improvisados, e de silêncios desconfortantes. Alguns segmentos são bem melhores que outros, mas com toda a certeza este filme representa um retrato coeso de um acto que para nós é considerado banal e corriqueiro. Os vícios do ser humano acompanhados pela necessidade de socializar e trocar experiências. Se estão a tentar deixar a nicotina e/ou a cafeína, afastem-se de Coffee and Cigarettes. Caso contrário, abracem-no.



Trailer:

27.12.06

Discos: The Decemberists - The Crane Wife

The Decemberists são uma banda Norte-Americana que me chamou à atenção por terem feito uma belíssima cover da Clementine de Elliott Smith, incluída na compilação To: Elliott From: Portland, o que por si só é justificação de bom gosto.



O nome desta banda deriva da revolta militar falhada de 1825, que procurava depor o Csar Nicolau I do poder na Rússia. Inspirado nesta revolta e também no frio e intimismo geralmente associados ao mês de Dezembro, o som da banda alterna entre o épico e heróico (Rock Progressivo) e o calmo e reservado (Indie Pop). Os Decemberists possuem a honra de serem a primeira banda a distribuir oficialmente um dos seus videos (16 Military Wives) através dos BitTorrents.

O album em destaque dá pelo nome de The Crane Wife e foi editado em 2006.



The Crane Wife é baseado num antigo conto japonês. Nesse conto, um homem pobre encontra um grou magoado e cuida dele. Após soltá-lo, uma belíssima mulher surge na sua vida. Depois de casarem, a mulher propõe tecer roupa de seda para vender no mercado, ajudando assim o seu marido a fugir à pobreza, com a condição do seu esposo nunca a ver na sua tecelagem. À medida que as condições de vida vão melhorando e as roupas se vão vendendo, o marido obriga a esposa a tecer mais e mais seda, ignorando o estado de saúde cada vez mais deteriorado da senhora. Um dia, a curiosidade leva a melhor sobre o homem, que decide espreitar a sua esposa no seu ofício, apenas para descobrir um grou arrancando penas do seu próprio corpo para tecer as roupas. O grou abandona assim o homem, remetendo-o à pobreza pela sua ganância.

O som de The Crane Wife é rico e polido. Há muito orgão e acordeão, levando o ouvinte a sonhar em pegar numa lança e cavalgar pelas planícies alentejanas à procura de moinhos de vento para combater. Existem neste album verdadeiras óperas épicas, com duração superior a 10 minutos (The Island e The Crane Wife 1 & 2). Para os mais habituados a músicas mais curtas e regulares, neste disco também se encontram pérolas como Yankee Bayonet (dueto com Laura Veirs), O Valencia! e a luminosa Sons & Daughters.

Destaque maior para Shankill Butchers, o arrepiante conto de terror disfarçado de canção de embalar, baseado no gang de assassinos protestantes com o mesmo nome, que perseguiam, torturavam e matavam católicos na Irlanda nos anos 70 e 80 com recurso principalmente a cutelos e facas de talho.

A beleza principal de The Crane Wife assenta nas histórias que contém, com um fio condutor que insere um sentimento no peito, mesmo sem se prestar atenção às letras das canções. Cada música contém uma ou mais histórias, muito bem escritas e acompanhadas com música apropriada. Um disco forte e coeso, dos melhores que ouvi ultimamente.

Banda Desenhada: Watchmen

É difícil escrever sobre Alan Moore. Difícil porque é praticamente impossível saber-se por onde se começar, tal a imensidão da sua obra. A sublime revitalização de Swamp Thing e Miracleman, e a criação de Hellblazer, From Hell, V For Vendetta e League of Extraordinary Gentlemen, só para citar as obras que foram adaptadas (sem autorização) ao cinema falam por si. Difícil porque um indivíduo que consegue ser ao mesmo tempo vegetariano, anarquista, mago e adorador do Deus-Serpente Glycon é demasiado fascinante para ser traduzido em metáforas e simbolismos. Difícil por ser genial. Adopte-se a saída mais fácil e deixe-se que a obra fale pelo mestre.



Watchmen, de 1986, é o mais importante trabalho mainstream de Alan Moore. Nos anos 80, a DC havia adquirido os direitos de uma editora obscura de banda desenhada de seu nome Charlton. A editora contacta Moore e Dave Gibbons para dar vida aos heróis dessa defunta companhia, trazendo-os para o universo DC. Moore opta por fazer algo visto na altura como revolucionário: com base nas personagens da Charlton, cria um novo rol de heróis e um universo à parte e, inteligentemente, elabora um livro de banda desenhada com princípio, meio e fim, destruindo qualquer hipótese de sequela ou posterior aproveitamento das personagens e mitologia por parte da DC.



Watchmen é encarado como uma tese sobre o possível impacto da existência de super-heróis no mundo real. No entanto, salvo uma excepção, nenhum destes super-heróis possui poderes especiais, limitando-se a serem pessoas mascaradas. A condição humana destes heróis é amplamente explorada. São os medos, aspirações, desejos, fobias e crenças pessoais que dão profundidade às personagens, não a sua capacidade de combate ao crime. Cada capítulo é relatado por uma personagem diferente, alterando-se a percepção de eventos dependendo do ponto de vista, de forma não linear, plena de simbolismo. Watchmen significa ao mesmo tempo "Relojoeiros" e "Observadores". Tudo neste livro é tão vasto e ao mesmo tempo preciso. Nada acontece por acaso.

Watchmen é um exercício de escrita. Exemplo maior no capítulo 5, em que a primeira página reflecte a última, a segunda reflecte a antepenúltima, e por aí em diante. Por ter criado uma banda desenhada de super-heróis adulta e densa, Alan Moore acumulou variadíssimos prémios, sendo Watchmen a única banda desenhada a ter sido distinguida com o Hugo Award, prémio reservado às melhores obras de ficção científica.

Sendo esta uma BD altamente cinematográfica, e no entanto impossível de ser filmada, a adaptação de Watchmen ao cinema está na calha, devendo estrear em 2007. Moore está mais uma vez contra esta adaptação. Desta vez, os fãs também. Há obras que deveriam ser intocáveis. Enquanto que o universo de Watchmen não fica perpetuamente arruinado por Hollywood, releiam ou descubram a obra, em formato TPB (versão inglesa), nas lojas da especialidade.

Opto por não relevar nada da trama de Watchmen. Não é humanamente possível fazê-lo.

21.12.06

Livros: A Year in the Merde

Os Franceses são chauvinistas. Os Franceses comem baguetes. Os Franceses possuem um sotaque efeminado. Os Franceses dizem "Oh-La-La". Tudo verdade. No entanto, depois de ler A Year in the Merde, passei a considerar os Franceses criaturas adoráveis.



A Year in the Merde narra a história de Paul West, cidadão britânico solteiro e bem-apessoado, que se desloca à capital francesa contratado para planear a abertura de uma cadeia de salões de chá no país da Torre Eiffel. Ao longo de um ano, Paul West descobre uma nação onde a liberdade sexual impera, onde as greves se acumulam de semana para semana, onde toda a gente diz bom dia e boa tarde e se cumprimenta com dois beijinhos (ai que medo, os germes), onde existem feriados e pontes e o país pára nos meses de Verão, onde as prostitutas de rua declamam poesia popular e onde nem toda a gente fala inglês (que horror!). Tudo é escrito num tom bem-humorado, com recurso ao estereótipo e a uma sucessão de azares e mal-entendidos.

A Year in the Merde é uma leitura leve e bem-conseguida. O grande problema (ou ponto de interesse) deste livro é a sua tendenciosidade. Paul West (ou melhor, Stephen Clarke, o autor de A Year in the Merde) é um inglês com ares e manias de cavalheiro superior, ridicularizando para isso os Franceses por terem uma cultura diferente da sua. O simples facto das tomadas de electricidade serem diferentes é motivo de chacota. Os Franceses que tentarem falar Inglês sem dominarem a língua são rebaixados, quando a própria personagem não consegue articular duas palavras seguidas de Francês. Dei por mim a fazer o impensável: Defender os Franceses e torcer para que este indivíduo sufoque com um croissant mal mastigado.

A Year in the Merde mostra ao leitor que os Ingleses não só não entendem os Franceses (e os países latinos de um modo geral), como também estão demasiado maravilhados com o seu próprio umbigo para repararem no adubo que os cãezinhos largam nos passeios dos nossos países e assim partirem as suas perninhas e bracinhos. Das centenas de pessoas que são hospitalizadas todos os anos na França por escorregarem em bosta de cão, mais de 80% são turistas, e uma larga parte desses mesmos turistas são provenientes de países Anglo-Saxónicos. Depois deste livro, não tenho pena nenhuma deles.

28.11.06

Do you feel like swimming?




I know a way to swim all the way down town...

Morphine - Like Swimming

24.11.06

Playontape e o movimento verdadeiramente Indie dos 90's

O triângulo Lisboa-Caldas da Rainha-Castelo Branco efervescia. Os Pinhead Society eram tidos como os líderes do movimento Indie nacional. A revista Raia oferecia compilações de novos valores da Beira Interior. A Bee Keeper distribuía cassetes coloridas e o mundo era simples e feliz. Era assim Portugal nos anos 90.

O final da minha adolescência foi afortunado. Vivia em Peniche (menos de meia hora das Caldas da Rainha, e relativamente próximo de Lisboa) e possuía amigos em Castelo Branco. Assim, encontrava-me por dentro de uma revolução contracultural a acontecer bem à minha porta. Jovens como eu (15/16 anos) criavam música cheia de boas intenções. Vivia-se no espírito "do-it-yourself". Ouvia-se Teenage Fanclub, Built to Spill e Pavement, na praia ou à beira da piscina. Trocavam-se e perdiam-se cassetes. Faziam-se excursões só para se poderem ver as bandas da nossa preferência. Viajava-se de autocarro e defendiam-se as consolas da altura (Sega Megadrive nas Caldas da Rainha, Super Nintendo em Castelo Branco) como se só isso importasse na vida. Sorria-se muito e acreditava-se que estávamos a fazer parte de um movimento muito importante em Portugal.

Depois o tempo (o maldito tempo) avançou, e a vida meteu-se pelo meio. Deixaram de se ouvir cassetes. Foi-se estudar e/ou trabalhar. As amizades antigas foram sendo substituídas por novas. Os Pinhead Society acabaram sem se dar muito por isso, e o movimento morre com o falecimento da Elsa, responsável pela Bee Keeper. Poucos foram os que conseguiram singrar no mundo da música. Das Caldas da Rainha, o Manel dos Plasticine juntou-se ao Paulo dos Orange e agora formam a parte criativa do projecto Gomo. De Castelo Branco, os Bubbles deram lugar aos Oscilating Fan, que por sua vez deram lugar aos Norton.

Serve este post para louvar o esforço do blog PlayOnTape. Neste local, encontra-se um retrato de muitas das maquetes (entretanto convertidas para MP3) que marcaram uma época que já não voltará. Bandas que já deixaram de existir à muito, desde o Indie-Pop ao Punk e Metal. Uma fantástica cápsula do tempo, que me fez recordar com saudade outros tempos. Para recordar ou descobrir. Visitem o PlayOnTape hoje mesmo!

Recomendações toldadas por razões sentimentais (ou por outras palavras, bandas que me diziam muito na altura, e curiosidades):

Little - I Like It If You Feel Lucky

A primeira demotape editada pela Bee Keeper! Indie-Pop lo-fi DIY, pela própria Elsa.





Sabiam que o Carlos Matos teve uma banda Industrial nos anos 80? Eu não. E também não sabia que este senhor continua a fazer música hoje em dia! Verdadeiro homem do renascimento! Como é que ele arranja tempo?





Indie Made in Caldas. Pergunta inocente de 1998: Como é que se conseguem fazer cassetes em plasticina?





Indie Made in CB. Esta cassete andou durante muito tempo dentro do meu Walkman, até a perder. Nunca os consegui ver ao vivo, e penitencio-me até hoje por isso.