17.3.07

Discos: Arcade Fire - Neon Bible

É mesmo necessário explicar quem são os Arcade Fire?



Biografia resumidíssima: Arcade Fire é uma banda canadiana (do Quebec), de 7 elementos. Formados em 2003, a banda desde sempre apostou em criar a sua própria sonoridade, incluindo nas suas composições, além da costumeira guitarra/baixo/bateria, dois violinistas, acordeões, xilofones, percussões variadas e tudo o mais. Esta mistura granjeou-lhes o afecto do público e a rendição da indústria discográfica e dos seus pares. David Byrne e David Bowie são fãs assumidos da banda. Funeral, de 2004, foi considerado quase unanimamente como o melhor album daquele ano. Houve quem arriscasse considerá-lo o melhor album da década! O Hype entretanto começou a desaparecer, e heis que somos brindados este ano com o segundo disco de Arcade Fire, intitulado Neon Bible.




Neon Bible, impressões e sensações:


Faixa #1: Black Mirror - Ressaca de uma festa que dura para lá da sua vitalidade. Cansaço, demasiadas horas a beber e poucas a dormir. O corpo arrasta-se, mas ainda tem força para só mais uma música. Explosões de energia sacodem o corpo do transe. Bom início.


Faixa #2: Keep The Car Running - Uma das faixas mais poderosas de Neon Bible. O carro já está em andamento, não abranda, e somos obrigados a arriscar a vida para poder apanhar a boleia. É bom estar vivo!


Faixa #3: Neon Bible - Uma paragem calma para recuperar o fôlego. Curta, e no entanto significativa. Continuamos a viagem ou ficamos aqui à porta do adro?


Faixa #4: Intervention - Órgãos de igreja envolvem-nos, e a música aumenta, num crescendo demoníaco. Vontade de gritar, chorar e rir, tudo ao mesmo tempo. Montanha russa de sentimentos. Experiência religiosa. É isto Arcade Fire! Quem não se deixar levar pela força de Intervention não tem coração.


Faixa #5: Black Wave/Bad Vibrations - A música 2-em-1. Primeira parte, alegria podre. Jean-Michel Jarre actualizado, com mais memória RAM e um disco de 500 gigabytes. Depois, plim plam pum, segunda parte, um baixo anuncia trovoada, e uma nuvem negra invade o leitor de cds. Escura como a peste, arrasta-nos para a faixa seguinte...


Faixa #6: Ocean of Noise - A canção de Neon Bible. O amor no meio do mar. O fim é o início e o início é o fim. Lei da vida. Dançar agarradinho. Mentiras e violência embaladas ao sabor das ondas. A melhor razão pela qual se deve ouvir as músicas de Arcade Fire até ao fim. This time we'll work it out. Bonita.


Faixa #7: The Well And The Lighthouse - Maratona vertical. Sair do fundo do poço só com a força dos punhos. Claustrofobia, necessidade de oxigénio. A luz na boca do poço oscila. Está quase... Ar! Cá fora, os vaga-lumes dançam a valsa dos amores na noite mais escura de sempre. É bom estar vivo, parte 2.


Faixa #8: Antichrist Television Blues - Martelar contra a parede. Ritmo intenso. Troca de braço, que este já dorido. Recomeça. Mais forte, que o prédio tem de ficar pronto amanhã. Aumenta o ritmo. Prende os braços atrás das costas e bate com a cabeça. Grita de dor. Continua. Tem de ser. Don't wanna work in a building downtown. Mas não há outra hipótese. Nervos à flor da pele. Excelente.


Faixa #9: Windowsill - Olhar para fora é sempre mais fácil do que olhar para dentro.


Faixa #10: No Cars Go - Bem reciclada do EP de estreia. Mais forte, mais rápida, mais cuidada e trabalhada. Agora, com a ajuda de coros militares! A cortina de ferro já caíu, mas de ferrugem nem sinal.


Faixa #11: My Body is a Cage - Intensidade. Mais órgãos de igreja, desta feita apontando alto para a transcendência. Set my spirit free...


Veredicto: Neon Bible não é melhor do que o seu antecessor. Mas também não é pior. É simplesmente diferente, e poderá não agradar a todos os que veneraram Arcade Fire anteriormente. Mas agradará a muitos outros que nunca lhes prestaram grande atenção. Neon Bible não desilude quem não se deixa iludir com mais do mesmo, elevando à estratosfera as expectativas para o terceiro album. Estará no final do ano entre os melhores de 2007. Desde 5 de Março que poderia estar nos vossos lares. Deixem-se de downloads ilegais (a tentação é grande, e eu também não fui capaz de resistir) e dirijam-se ao vosso botequim discográfico favorito. Eu assim o farei quando puder...

16.3.07

Banda Desenhada: Lost Girls

Um regresso a Alan Moore, desta feita com um bonito relato sobre amor real e pornografia ilustrada.

Em 1991, Alan Moore iniciou mais um projecto rodeado de controvérsia. Inicialmente aliciado pela revista Taboo, o escritor aliou-se à pintora Melinda Gebbie, com o intuito de criar uma banda desenhada pornográfica. Moore, com era seu hábito, escreveu prontamente o argumento completo. Gebbie não se adaptou a desenhar sobre uma história já completamente definida, preferindo criar à medida que as personagens se desenvolviam, e não pintar sobre o trabalho dos outros. O génio criador de Moore encontrara finalmente quem lhe fizesse frente. Subjugado, não teve outro remédio senão jogar pelas regras de Gebbie. O projecto arrasta-se então por longos e penosos anos de pesquisa sobre histórias infantis e posições sexuais, com aulas práticas à mistura.

15 anos depois, Alan Moore e Melinda Gebbie estavam casados.

16 anos depois, é finalmente editado Lost Girls.



No início da primeira guerra mundial, três mulheres encontram-se por acaso num hotel Austríaco. Dorothy Gale, uma jovem adulta, a trintona Wendy Darling e a idosa Alice Fairchild. Face a monotonia do lugar, as três senhoras iniciam uma troca de relatos aventurosos sobre as suas experiências sexuais prévias. Dorothy conta da sua desvirginação às mãos de três fazendeiros, aquando da passagem de um furacão pelo seu Kansas natal. Wendy relembra as suas aventuras com um pequeno sem-abrigo de seu nome Peter Pan, líder de um gang de inadaptados chamados Lost Boys. Alice, a mais experiente do grupo, seduz as suas companheiras com as suas façanhas bisexuais aos 14 anos, num longínquo país de maravilhas.

Bem para além da perversão (cuidada e completa com referências às obras originais) submetida a estas personagens do imaginário popular, está o trabalho artístico de Lost Girls. Cada relato é ilustrado com um conjunto de paletes de cores e estilo de vinheta diferentes. Os paineis de Alice, bem coloridos, são em forma de espelho oval. Os de Wendy são escuros, altos, reprimidos e vitorianos. Os de Dorothy são amplos e em tons de pastel. A atenção ao detalhe peca apenas por ser algumas vezes demasiado gráfica.

Censurado em diversos países pelo seu conteúdo chocante e provocador, Lost Girls foi no entanto justamente louvado pela crítica especializada. Este esforço conjunto do casal Moore/Gebbie poderá ser mais facilmente encontrado em Portugal do que no próprio Reino Unido, onde a obra foi vetada pelas autoridades responsáveis pela moral e bons costumes. Recorram às encomendas em lojas de banda desenhada de importação, sem problemas de consciência.

13.3.07

Livros: Rambo, a Fúria do Herói II

Rambo. John Rambo. O homem. O soldado. A máquina de guerra. O herói de 3 blockbusters (com mais um a caminho). Rambo, o ícone! Rambo, o duro! Rambo, o... livro?



"Quando Rambo deixou as sombras do hangar, com o corpo musculoso em silhueta, devido à luz do Sol, abrindo a extremidade do tubo e preparando-se para praticar, Murdock virou-se para Trautman e abanou a cabeça, duvidoso.

- Coronel, tem a certeza de que ele não está ainda perturbado pela guerra? Aquela piada que ele fez acerca do pára-quedas. E ele está realmente... Eu nem Acredito. Quero dizer, tenho mesmo as minhas dúvidas... Mais interessado num arco e flechas do que num lança-granadas ultra-sofisticado. Não podemos dar-nos ao luxo de envolver alguém que possa desvairar, sob pressão, em território hostil.

- Pressão? - Trautman pareceu ter ficado estupefacto. - Pensei que tinha estudado a ficha dele, que sabia tudo sobre ele. Ele é o melhor soldado de combate que eu já vi. Mesmo em Bragg, durante o treino, era óbvio que ele seria um sucesso. Um génio. Tem um instinto para a luta e, neste momento, um único desejo: ganhar uma guerra que outros o forçaram a perder.

- Coronel, vá lá, o senhor desaponta-me. Espero que não vá voltar àquela velha piada de o Governo segurar os braços dos militares para não poderem ganhar.

- Houve mentiras. E morreram bons homens por causa disso. E outros bons homens estão ainda prisioneiros, por causa disso. E Rambo... Bem, se ganhar agora significar que tem de morrer também, ele morrerá. Sem medo. Sem ressentimentos. Isso, mais do que qualquer outra coisa, torna-o especial. Desvairar, sob pressão? Nem pensar. Porque, Murdock, aquilo a que você escolheu chamar território hostil...

- Sim? Que tem?

- Ele chama-lhe lar."

Ao que parece, David Morrell escreveu há muitos anos atrás um livro, de seu nome First Blood. O livro retratava o regresso de um antigo soldado Norte-Americano da guerra Vietnamita ao seu país de origem, e a sua impossibilidade de se readaptar. O livro, aclamado no ano da sua edição, terminava com a única solução possível para um homem treinado apenas para a guerra e sem qualquer hipótese de fuga numa sociedade em paz: a sua própria morte.

First Blood foi adaptado ao cinema. Sylvester Stallone encarnou a personagem do soldado falhado, John Rambo. James Cameron realizou. O filme foi um sucesso. A personagem principal não morreu no final como devia ter acontecido. Tinha de haver uma sequela. David Morrell, incapaz de parar a máquina de Hollywood, procurou encontrar uma solução alternativa para manter os direitos sobre a sua personagem, entretanto morta-viva tal como um zombie. A sequela do livro (e do filme) dava pelo título Rambo, A Fúria do Herói II.

O problema principal reside essencialmente aí. Rambo havia morrido no livro. Se David Morrell tivesse tido juizo, não tinha vendido os direitos de First Blood para Hollywood. A sequela funciona como um remendo com pouca cola e convicção.

"Depois da sua guerra privada contra o xerife de uma pequena cidade, Rambo está na prisão; quando o coronel trautman, seu ex-comandante, lhe propõe uma missão que para a maioria dos homens seria suicídio, Rambo aceita.

Terá de penetrar na selva do Vietname e encontrar camaradas que ainda lá estão a ser torturados. Não deve trazê-los de volta, mas apenas fotografá-los. Não se pode vingar.

Para Rambo, a primeira missão é difícil. A segunda, impossível..."


Rambo, o livro, é tão esquecível quanto o segundo filme. E então, qual é o intuito de trazer este tema à baila? Simples!

O SACANA DO LIVRO FICA MUITO BEM NA ESTANTE, CARAÇAS!

Verdade. Primeiro, quantos livros do Rambo existem? E quantas pessoas se deram ao trabalho de adquirir um livro do Rambo em Portugal? Segundo, os níveis de comicidade que uma passagem aleatória deste livro atingem quando lidos na casa de banho. Terceiro, qual não é a moçoila que não fica impressionada pela virilidade de um gajo que tem um livro do Rambo na prateleira?

Rambo, A Fúria do Herói II não será um bom livro... Na verdade, nem sei se uma coisa destas possa ser considerada livro. Mas lá que dá um ar másculo à estante e impressiona as babes, lá isso é indiscutível! Veja-se o seguinte diálogo, totalmente verídico (coff, coff) entre a minha pessoa e uma amiga de circunstância:

- "Ai, ai, ai, tantos livros! O menino bem comportadinho gosta tanto de ler, não é?"

- "Sim, mas repara... Tenho o livro do Rambo..."

- "Possui-me já aqui neste chão imundo, minha besta carnuda!"

Ah pois é...

26.2.07

Sortido: LIDL

(agradecimento ao compincha W. pela sugestão)

Hoje, no Contraculturalmente...

Tudo o que sempre quis saber sobre o LIDL e nunca se atreveu a perguntar!

A cadeia de supermercados Lidl como a conhecemos hoje teve a sua origem na Alemanha, nos idos anos 70. Ditam os livros de história que o primeiro supermercado Lidl foi formado por um antigo professor de seu nome Ludwig Lidl. Na altura, Lidl (o professor) dedicava-se à venda de fruta. Um comerciante chamado Josef Schwarz, proprietário da Schwarz Lebensmittel-Sortimentsgrosshandlung, vendo ali oportunidade de negócio, uniu o seu império de carnes fumadas e peixe seco ao novo reino emergente de verduras e hortaliças. Nasce então a Lidl&Schwarz (abreviatura do menos orelhudo Lidl&Schwarz Lebensmittel-Sortimentsgrosshandlung), que em 1977 contava já com 30 supermercados de preços baixos e qualidade duvidosa. Actualmente, qual praga, existem mais de 5000 "líderes" espalhados por 17 países, especialmente na Europa.

(Interior de um Lidl na Alemanha. Descubra as diferenças)



O que distingue o Lidl dos demais supermercados? O preço? Todos apregoam terem os preços mais baixos, e os do Lidl são realmente baixos, mas nada de relevante. O aspecto? O facto de todos os Lideles serem iguais aqui ou na Eslováquia não abona muito a favor da cadeia... O Logótipo? Facilmente reconhecível a 10 milhas de distância, assim como o logótipo do Modelo ou do Pingo Doce... O jornal Dica da Semana? Salta da minha caixa do correio para o caixote do lixo. A disposição anárquica dos itens? Um ponto muito forte a favor da cadeia, mas que itens?

O valor do Lidl encontra-se nos seus produtos. E não falo dos pacotes de leite e garrafões de água de marcas já bem estabelecidas entre o público. Falo mesmo dos seus produtos. Dos produtos marca Lidl, e de produtos com nomes tão difíceis de pronunciar que se torna óbvio qual o seu local de proveniência, com natural destaque para os produtos alimentares.

Pérolas:

O gelado do Lidl:



As fatias de pizza do Lidl:


As bolachinhas vendidas ao quilo do Lidl:


O (entretanto desaparecido) Kebab do Lidl:


O novo arroz de pato do Lidl, o meu novo preferido:


A única e inimitável lasanha do Lidl (tão única e inimitável que não encontrei uma única imagem da mesma)

E a FIIIIINK BRÄUUUUUU!:


E o melhor é que tanto a lasanha como a pizza e o arroz de pato só necessitam de ir ao microondas, são pratos deliciosos (a lasanha é melhor que certas que comi em restaurantes "ditos" Italianos), baratos, e fazem um brilharete em dias de visitas-surpresa. Uma cadeia de fast-food só à base da lasanha é uma ideia a ter em conta... Lidl, o supermercado amigo do jovem inapto na cozinha!

Filmes: Kids

Quando somos adolescentes nada nos pode parar. Não há doença que nos deite abaixo e as guerras só acontecem na televisão. Não temos preocupações nem contas para pagar, e no entanto somos ingratos para quem nos proporciona essa vida longe de angústias e encargos. Temos direito a tudo e queremos tudo a que temos direito. Afinal, somos invencíveis, certo?



Kids, de 1995, é um pseudo-documentário sobre a juventude urbana dos anos 90 (não me parece que os adolescentes de hoje sejam muito diferentes). Filmado com handycams nervosas, acompanhamos um dia de um grupo de miúdos entre os 10 (!) e os 17 anos. As suas experiências relacionadas com sexo e drogas, violência gratuita (com uma das cenas de pancadaria mais brutais da história do cinema), engates, festas e mais sexo e drogas, num niilismo desprovido de valores que poderá parecer chocante de tão verdadeiro. O primeiro filme de Larry Clark é um trabalho realista e duríssimo, não aconselhado a todas as mentes, sendo esta uma constante nas demais criações deste fotógrafo/realizador.

O enredo de Kids é simples e eficaz. Telly, um skater adolescente, tem apenas uma objectivo no mundo. Desvirginar o maior número de raparigas que conseguir, tendo como desculpa que com virgens não se apanha SIDA. O que Telly não sabe é que ele próprio é portador de HIV, contribuindo grandemente para espalhar a doença. Jennie, uma das suas "conquistas", atravessa a cidade numa tentativa desesperada para o avisar desse facto.

Kids, que chegou a ser descrito como "um pesadelo de depravação" pelo antigo senador Norte-Americano Bob Dole, encontra-se com relativa facilidade em clubes de video. Há não muito tempo, saiu em DVD inserido na Série Y do Público, série essa que entretanto já se vende um pouco por todo o lado, desde tabacarias até mesmo à Fnac. Fácil de encontrar, portanto.



Trailer:

25.2.07

Discos: Cold War Kids - Robbers & Cowards

Um repositor de supermercado poderia tentar encaixar esta banda nos separadores Pop, Rock, Blues, até mesmo Gospel. Porém, não existe no panorama musical da actualidade nada que se assemelhe aos Cold War Kids, musical e artisticamente. Abençoado separador Indie!



Os Norte-Americanos Cold War Kids praticam, com o seu baixo pesado, piano desafinado, guitarra fora de tempo, muita bateria e percussão e uma voz que faz a espaços recordar Jeff Buckley, um tipo de música estranhamente viciante e orelhuda, quente e desconfortável ao mesmo tempo. A sua sonoridade é uma montanha russa musical e emocional, que nos eleva calmamente para depois nos descarregar sem travões pela encosta abaixo, atirando-nos enérgica e violentamente para a lama para nos lavar com um jacto de pressão logo de seguida.

Disco de estreia, Robbers & Cowards, de 2006.



Robbers and Cowards é um disco e ambiente denso e negro, sendo ao mesmo tempo de uma simplicidade crua que se vai complicando após repetidas audições. Como o título indica, o roubo e a cobardia são temas recorrentes nas letras de cada tema. A primeira faixa, We Used to Vacation, narra a história de um homem perdido na bebida, colocando a sua família em segundo plano. Passing the Hat fala de alguém que rouba esmolas à porta da Igreja. Saint John (a minha preferida) é sobre um assassino no corredor da morte, à espera de um perdão, apesar de ter feito justiça ao interromper a vida do violador da sua irmã. E a frase em Robbers, "robbing from the blind is not easy", diz tudo sobre a mesma.

Estranhamente (ou talvez não) o sentimento que passa de Robbers and Cowards, é o de uma banda de jovens honestos e criativos gerando música ao mesmo tempo que se divertem a tocar uns para os outros. É quase como ter o privilégio de poder entrar na sala de ensaios dos Cold War Kids e ouvi-los a brincar com sons e palavras como o fazem na sua estreia. Para ouvidos bem abertos.

Noutros assuntos, um EP ao vivo de seu nome Acoustic at the District poderá ser encontrado aqui. Não é tão bom quanto o album, e na verdade só comecei a gostar realmente dele depois de dissecar Robbers and Cowards. Um pitéu para quem já conhece Cold War Kids, dispensável para todos os outros.

24.2.07

Banda Desenhada: Big Guy and Rusty the Boy Robot

Estamos em Tokyo, cidade onde tudo acontece. Cientistas criam acidentalmente um Dinossauro falante de dimensões colossais que rapidamente espalha o caos na cidade, rebentando com tudo e todos, e criando com a sua saliva um exército de répteis apreciadores de carne humana. Cabe a Rusty e Big Guy, a maior dupla robótica de todos os tempos, parar esta ameaça para que a "suposta" capital Japonesa sobreviva para futuros ataques.



Big Guy and Rusty, the Boy Robot, um livro de Geof Darrow e Frank Miller é uma visão ocidental do mundo super-heróico Japonês, com todos os clichés. À invasão de Tokyo por um ser em tudo semelhante a Godzilla, respondem prontamente os governos Japonês e Americano com um pequeno andróide inspirado no clássico Astroboy e um típico robot gigantesco capaz de carregar duas bombas de neutrões debaixo dos braços.

A arte detalhada ao mais ínfimo pormenor de Darrow encontra na escrita violenta de Miller o casamento perfeito. A história, essa, assente simplesmente em destruição, destruição, destruição. E violência. E algum gore. E muito divertimento sem malícia. O ritmo da acção perde-se um pouco no estilo da arte, demasiado complicada para uma estória que se quer rápida e brutal. No entanto, longe de ser uma falha, este pormenor permite-nos sorver mais praseirosamente cada membro dilacerado, cada digestão reptiliana, cada explosão. Um pouco como fast-food e "slow food". Tudo bem que a fast-food alimenta e até poderá saber bem, mas não sabe sempre melhor uma boa refeição completa com sopa/prato/sobremesa/café?




Big Guy and Rusty the Boy Robot, editado pela Dark Horse, em dois volumes ou TPB. Para encomendar e recomendar.

23.2.07

Livros: A Morte Melancólica do Rapaz-Ostra & Outras Estórias

Nas dunas, pediu-lhe casamento,
à beira-mar se casaram.
Na ilha de Capri celebraram
esse tão grande momento.

À ceia jantaram um prato sobejo;
uma bela caldeirada de peixe e marisco.
E, enquanto ele saboreava o petisco,
no seu coração ela pediu um desejo.

O seu desejo tornou-se realidade: teve um bebé.
Mas seria um ser humano?
Pois é,
na verdade,
tinha dez dedos nos pés e nas mãos,
tinha visão e circulação.
Podia ouvir, podia sentir,
mas seria normal?
Isso não.

Este nascimento aberrante, este cancro, esta praga
foi o princípio e o fim de toda uma saga.

Ela zangou-se com o doutor:
"Esta criança, não é minha.
Cheira a maresia, a salmoura e a tainha."

"Olhe que tem sorte, ainda a semana passada
tratei de uma miúda com crista e rabo de pescada.
Se o seu filho é meio ostra
não me venha acusar...
...já pensou por acaso
numa casinha à beira-mar?"

Sem saber que lhe chamar,
chamaram-lhe Alves,
ou, às vezes,
"aquela coisa da espécie dos bivalves."

Toda a gente se perguntava, mas ninugém sabia
quando é que da concha o Rapaz Ostra saía.

Quando os quatro gémeos Lopes um dia o foram ver,
chamaram-lhe amêijoa e desataram a correr.

Num dia azarado,
Alves ficou encharcado
à esquina da rua Miramar.
Cabisbaixo,
viu a chuva rodopiar
pela sarjeta abaixo.
Na auto-estrada, a sua mãe,

à beira de um esgotamento,
esmurrava o painel dos instrumentos -
não conseguia conter
a dor crescente,
a frustração
que a fazia sofrer.

"Olha, querido", disse ela,
"isto não é para ter piada,
mas eu já não pesco nada
e acho que é do nosso filho.
Não gosto de o dizer, pois sou a mulher que te ama,
mas tu culpas o nosso filho pelos teus problemas na cama."

Ele bem se aplicou, com muito denodo;
tentou salvas e unguentos
que lhe faziam comichões,
tintura de iodo,
mezinhas e poções.
Coçou-se e sangrou e esmifrou-se todo.

Até que o médico diagnosticou:
"Eu não sei de ciência,
mas a cura do seu problema pode ser o que o causou.
Dizem que comer ostras aumenta a potência:
talvez se comer a criança
fique cheio de pujança."

Ele foi pela calada,
estava escuro como breu.
Tinha a testa suada
e nos lábios - uma mentira ensaiada:
"Filho, és feliz? Não me quero intrometer,
mas nunca sonhas com o Céu?
Nunca quiseste morrer?"

Alves pestanejou duas vezes
mas não ripostou.
O pai tacteou o punhal
e a sua gravata aliviou.

Pegando no filho ao colo,
Alves pingou-lhe a lapela.
Levando a concha aos lábios,
despejou-o pela goela.

Depressa o enterraram na areia junto ao mar
- uma prece rezaram, uma lágrima derramaram -
e para casa voltaram à hora do jantar.

A camp do Rapaz Ostra foi marcada com uma cruz.
Palavras escritas na areia
prometiam a salvação de Jesus.

Mas a sua memória perdeu-se numa onda de maré-cheia,

De volta à paz do lar,
ele beijou-a a arfar:
"Que tal uma rapidinha?"

"Mas desta vez", sussurrou ela, "quero uma rapariguinha."




A Morte Melancólica do Rapaz Ostra & Outras Estórias, escrito e ilustrado por Tim Burton, esse Edgar Allan Poe dos tempos modernos, pela primeira vez numa edição portuguesa de fácil acesso. Uma recolha de contos tradicionais saídos da mente de Burton, em brilhante tradução. Inclui, além da história do rapaz ostra, as lindas fábulas do rapaz nódoa, do rapaz torresmo, de Crispim, o hediondo rapaz pinguim, do rapaz com pregos nos olhos e da rapariga com olhos fora de série, entre muitas outras, num total de 23. É de guardar junto à mesinha de cabeceira para soninhos descansados, antes que seja tarde. Encontra-se (por enquanto) em qualquer livraria.

22.2.07

Séries: Invader Zim

Invader ZIM é um pequeno soldado alienígena do planeta Irk, banido após ter praticamente destruído o seu mundo natal na sua primeira missão. Após muita insistência, é-lhe oferecida uma segunda oportunidade a ZIM como forma de redenção: contribuir para a expansão do império Irkeano, tendo para isso a missão de conquistar um planeta longínquo nos confins do universo, com o estranho nome “Terra”. Chegando a esse tal planeta “Terra”, ZIM procura aniquilar a raça humana, tendo como única força de oposição um menino obcecado pelo oculto e paranormal de seu nome Dib Membrane.



Mais uma criação do genial Jhonen Vasquez, que aqui se estreia na animação, Invader ZIM é um desenho animado infantil direccionado para gente grande, razão pela qual a série acabou por ser cancelada pela Nickelodeon a meio da segunda temporada. Sem grande surpresa, o enredo de Invader ZIM gira em torno do alienígena e de GIR, o robô com estupidez artificial possuidor de uma estranha fixação por porcos e derivados, e da sua demanda em transformar a terra na próxima estância de férias dos Irkeanos, um pouco à semelhança do que os Ingleses fizeram do Algarve.

Os episódios são completamente imbecis, sendo a estupidez de ZIM e GIR especialmente insultuosa. Num dos episódios, uma borbulha nasce na testa de ZIM, que descobre que a sua pequena erupção cutânea tem o poder de hipnotizar os humanos. Para disfarçar, desenha-lhe uma cara e baptiza-a de Pustulio.

As edições em DVD de Invader ZIM são também um mimo. Os episódios comentados pelo realizador Ted Raimi e pelos argumentistas Jhonen Vasquez e Roman Dirge (Lenore, the Cute Little Dead Girl) poderão, por exemplo, ser substituídos por comentários suínos, e nas opções de legendagem, podemos ver a série legendada em Irkeano (embora o Português não esteja disponível, sendo este um DVD que se encontra em lojas de importação ou por encomenda na internet).



Para quem conhece o trabalho de Vasquez em BD (Johnny The Homicidal Maniac, Squee!) Invader ZIM é essencial. Para quem gosta de desenhos animados, imbecilidade, bons diálogos, piadas escatológicas e, acima de tudo, suínos, Invader ZIM é uma excelente proposta.