10.5.07

Sortido: Borscht

Há uns longos e saudosos meses atrás, mais propriamente em Dezembro de 2006, o shôr psiquiatra aconselhou-me vivamente a tirar umas férias para descontrair longe de tudo e de todos. Como animal social que sou, convenci um velho amigo a vir passear comigo por aí, na sua Volkswagen modelo "Mil Novecentos e Oitenta e Poucos". Esse meu amigo convidou por sua vez uma amiga dele, que por força das circunstâncias acabou por se tornar minha amiga também. A amizade é uma doença contagiosa que se apanha uns dos outros.

As férias foram passadas no litoral Alentejano. Desses dias, recordo o frio que passámos, as conversas longas e interessantes, a vodka pura com duas pedras de gelo e uma rodela de limão, as cervejas com torresmos e aquela que ficou apelidada de Sopa de Bife com Natas, conhecida além fronteiras como Borscht.

O Borscht é um prato nascido na Ucrânia, e tradicionalmente associado aos países do Leste da Europa. Baseado fortemente na beterraba (que garante à sopa a sua característica cor-de-rosinha e um forte sabor a terra), um bom Borscht é o equivalente Kosovar à nacional sopa da pedra, pois à beterraba podem ser adicionados praticamente todos os ingredientes existentes. A receita altera-se de país para país, consoante a abundância de leguminosas e gosto gastronómico de cada nação. A título de exemplo, em Hong-Kong a beterraba é substituída por tomate, e na Polónia existe ainda uma variante de Borscht à base de farinha de centeio. Nos Estados Unidos (como não poderia deixar de ser), pode-se encontrar nos supermercados Borscht para Microondas.

Oficialmente, a variante Portuguesa desta sopa não existe. Atento a este grave problema, contactei a minha amiga de road-trip (Olá Sara!) para me escrever a receita daquela sopa que nos acarinhou o estômago e a alma. As restantes linhas são da sua responsabilidade:

Borscht à Portuguesa

- Para 3 pessoas (Sara, Jay e Carca) no meio do nada numa caravana com as condições mínimas de sobrevivência

Ingredientes:

- 1 frango pequeno
- 2 batatas
- 1 cenoura grande (ou 2 pequenas)
- 1 beterraba grande
- sal
- 1 pacote de natas
- 1 cebola pequena
- Azeite

Falar com o frango já depenado e dizer-lhe que ele vai servir para canja. Cozê-lo com sal em água suficiente para dar para 3 pratos de sopa para cada um dos esfomeados.

Descascar as batatas e cenoura aos quadraditos (nota: podem ser outros legumes….mas estes foram os que se arranjaram… com cogumelos também é fixe)

Assim que o frango estiver cozido, retirá-lo da panela e nessa água cozem-se os legumes.

O Jay desfia o frango e vai deixando uns perdigotos enquanto sopra para que seja tudo mais rápido porque estamos cheios de fome. A Sara vai descascando a beterraba e o Carca está no meio dos sacos-cama à procura de um ralador…

BABRUSNY….encontrado…

Faz-se um refogado e coloca-se a fritar a beterraba já raladinha… mexe-se até ficar naquele ponto que só nós é que sabemos..ai a fome!!!!

Juntam-se as natas à beterraba ainda ao lume e começamos a ver um espesso creme cor-de-rosa muito bem mexido porque a isto tudo se juntou muito amor e carinho.

Já com os legumes cozidos, à beterraba feita em creme junta-se tudo na panela e deixa-se estar a apurar, enquanto vamos provando de sal…

E já está!

Bom apetite!


Nota: E depois de se comer a sopa de Bife com Natas, os matchis ficam a beber cerveja enquanto a cozinheira lava a loiça e limpa a carrinha!

4.5.07

Filmes: Manos, The Hands of Fate

Quando um filme realmente muito mau aparece no cinema ou no circuito de DVD, muitos são os que lhe atribuem rapidamente a honra dúbia de pior filme na história da humanidade. Um claro exagero, pois, ignorando toda a subjectividade da questão, um filme nunca consegue ser tão mau que não haja outro pior para comparar. No entanto, esta questão tira-me o sono e arrasta-me numa espiral descendente de mau gosto e sofrimento, sempre tentando visionar aquele que será o pior filme, não de todo o sempre, mas de toda a minha vida. E perco realmente muitas horas a ver lixo, a procurar beleza em toda a série-B propositadamente má e em todo o embuste Hollywoodesco armado em bom. E peno nesta demanda pelo meu santo Graal. Mas sinto que estou prestes a encontrá-lo. Isto porque nunca vi nada tão horrivelmente e insultuosamente mau como Manos, the Hands of Fate, e não sei se depois desta experiência traumatizante, terei coragem para procurar alguma película que ultrapasse esta bosta inglória.



Devo confessar que já sabia naquilo que me estava a meter. Já adivinhava que este seria daqueles filmes que me iriam custar a ver até ao fim. Mas a curiosidade levou a melhor, claro. Caramba, se o próprio Quentin Tarantino possui uma cópia de Manos, the Hands of Fate em celulóide, o filme não pode ser tão mau quanto isso, certo?

Errado. Completamente errado! Este filme tem tantas falhas que nem sei por onde começar. Talvez pela figura de Hal Warren. O Texano Warren foi um vendedor de fertilizantes agrícolas durante toda a sua vida. Porém, Warren sonhava que a sua vida podia ser mais do que estrume e pesticidas. Warren queria ser uma estrela, um herói, alguém que as pessoas não ligadas à agricultura admirassem, desejassem, acarinhassem! Warren queria ser realizador de cinema! E apostou com um amigo que assim aconteceria, girava a terra no ano de 1966.

Prontamente, Warren concebeu o enredo. Uma família, pai, mãe, filha e cão, viajam sem destino pela América profunda (leia-se Texas). Depois de longas horas de viagem, acabam perdidos no deserto, vendo-se obrigados a pernoitar numa estalagem guardada pelo deformado Torgo, que passará a totalidade do filme a tremer, gemer maleficamente e repetir até à exaustão "The master would not aprove".

Torgo = Brad Pitt

O Mestre de Torgo viria a revelar-se ser uma criatura demoníaca, vestida de robe com umas grandes mãos vermelhas pintadas e um malvado bigode à Mariachi. O Mestre dormiria longas sonecas, guardado pelo seu harém de esposas defuntas. Com a chegada da família aos seus domínios as esposas discutem sobre o seu destino. Uma das esposas, supostamente a favorita do Mestre, manifesta-se claramente contra o assassínio da criança mais nova. Entretanto, Torgo tenta seduzir a matriarca da família. O Mestre acorda do seu sono de beleza e encontra o seu séquito envolvido numa terrível luta (na verdade, as esposas limitam-se a rebolar umas por cima das outras), e toma uma decisão: O pai e o cão têm os dias contados, a mãe e a filha serão suas mulheres. Não importa que a filha não tenha mais de 8 anos, o Mestre ama todas as mulheres (é o próprio que assim o afirma). O Mestre encarrega-se também de castigar a sua esposa preferida e o próprio Torgo pela sua desobediência, numa das cenas mais intensas do filme, em que o patrão e o subordinado se enfrentam violentamente (com toda a violência que o acto de fitar intensamente alguém sem piscar os olhos acarreta, claro).


Lairai, lararai lalarairai... Y viva España!


Pelo meio do filme haveriam também vários planos de um casal de adolescentes dentro de um carro na marmelada, sem nada de válido para acrescentar ao enredo. Só porque sim.


Rapaz: Cá estamos...
Rapariga: É a vida...
Rapaz: O que estamos aqui a fazer neste filme?
Rapariga: Ninguém sabe, é um mistério! Agora beija-me e ignora a claquete que ficou esquecida na margem direita deste plano.



Escrito o argumento, faltam os actores. Num golpe de génio, Warren contrata-se a si próprio para o papel de pai de família. Os restantes actores seriam encontrados em companhias de teatro locais e agências de modelos. O seu salário seria pago com as receitas do filme. Warren tornaria milionários todos aqueles jovens actores, tal era a sua confiança em Manos.

O processo de rodagem correria na perfeição. Warren havia adquirido uma câmara de 16mm, sem tripé, e que permitia apenas filmar 30 segundos de cada vez. É impressionante como se conseguem filmar 10 minutos de deserto na cena inicial do filme SEM SE PASSAR RIGOROSAMENTE NADA DE RELEVANTE! Isto porque Warren se esquecera de adicionar aos cactos e areia os créditos iniciais. Apenas um pormenor.

A iluminação de filme seria completamente natural. O que significa alterações de cores de um plano para o outro. E que significa também que as cenas filmadas de noite seriam iluminadas por faróis de automóveis. Faróis esses que atraem traças. Traças essas que passam todas as cenas nocturnas a embater contra os actores e a câmara. Apenas outro pormenor.

Uma câmara de filmar tão espectacular como uma 16mm sem tripé que filme apenas 30 segundos de cada vez teria de vir com um senão: a câmara não captava som. Warren teve de contratar todo um grupo de pessoas (3 ao todo) para dobrar o filme. Em mais um rasgo de genialidade, o próprio realizador resolve dobrar as vozes da maior parte das personagens masculinas do filme, utilizando sempre o mesmo tom de voz monocórdico, o que acabaria por transformar os diálogos em monólogos. Torna-se difícil de perceber quem está a dizer o quê quando estão dois homens em cena. Daí que os diálogos tivessem de ser reduzidos ao mínimo, apostando na repetição de falas para reforçar a ideia. Não resisto a fazer um resumo (alargado) dos diálogos do filme:

Pai: Estamos perdidos no Deserto.

Mãe: Vamos parar ali naquela casa sinistra.

Torgo: Não podem ficar aqui nesta casa sinistra. The Master would not aprove. Bem, afinal podem ficar.

Mãe: Aquele quadro é sinistro.


Van Gogh would not aprove.


Torgo: Não toquem no quadro. The Master would not aprove.

Cão: Béu béu.

Filha: Vou correr atrás do cão e perder-me no deserto a meio da noite.

Torgo: Espera. The Master would not aprove.

Pai: Vou atrás da filha. Olha uma cobra sinistra. Pum pum, pronto, matei a cobra a tiro.

Polícia #1: Vamos investigar a origem daqueles tiros.

Polícia #2: É melhor não nos afastarmos muito do carro. Está escuro como bréu e o carro não tem bateria suficiente para ficar muito tempo com os faróis acesos. Além disso, as traças estão-me a comer a roupa toda.

Torgo: Mulher, eu sei que The Master would not aprove, mas quero que largues o teu marido e fiques comigo para sempre!

Mãe: Larga-me, Torgo. És sinistro!

Esposa Favorita do Mestre: Salvemos a rapariga pequena e matemos os restantes.

Esposa do Mestre #4: Não, matemos toda a família!

Esposa Favorita do Mestre: Não, salvemos a pequena.

Esposa do Mestre #3: Não! Matamos todos e pronto!

Esposa do Mestre #2: Acho que para isto ficar resolvido teremos de rebolar por cima umas das outras.

Mestre: Silêncio, esposas! Eu fico com as duas recém-chegadas. Eu amo todas as mulheres, até as de 8 anos! Tu, esposa favorita, para te castigar pela tua desobediência, irei prender-te a um poste não fazer nada de especial contigo. A ti, Torgo, o teu castigo será ficar a olhar para ti sem pestanejar durante 2 minutos. Para veres como sou mau. Ah, e mais lá para a frente queimo-te uma mão!

Mulher: Ah, sinto-me sinistra!

Marido: Ah, sinto-me sinistro!

Filha: Ah, sinto-me sinistra e também ligeiramente explorada neste filme moralmente ambíguo!

Mestre: LOL (mas um LOL maléfico)!

Pai: Fiquei com o emprego do Torgo, enquanto a minha mulher e filha menor de idade satisfazem os desejos do Mestre. Entrem, forasteiros, mas fiquem sabendo que The Master would not aprove!

FIM


Com o filme concluído e as cenas editadas (vozes dobradas, créditos finais e já está), Manos, the Hands of Fate estreou com pompa e circunstância em El Paso, Texas. O realizador e actores chegaram à estreia de limosine e fato de gala. Com o orçamento cada vez mais apertado, os fatos tiveram de ser alugados e a limosine daria várias voltas ao quarteirão, apanhando o elenco e equipa técnica ao ritmo de 4 pessoas por viagem, para que ninguém envolvido nesta mega-produção chegasse a pé à estreia. O filme começa a rodar, a antecipação cresce. Momentos de silêncio. Seguidos de momentos de indignação. Seguidos por momentos de perplexidade. Seguido por um longo momento de gargalhada geral até ao final da película. A meio da projecção, realizador e actores já haviam saído pela porta dos fundos, cobertos de vergonha e humilhação.

Para aumentar ainda mais o mito em torno de Manos, The Hands of Fate, uma curiosa sucessão de eventos trágicos envolveram grande parte da equipa associada a este épico. O realizador caiu em desgraça e cometeu suicídio (consta que andou permanentemente pedrado durante a rodagem de Manos, o que desculpabiliza em parte a falta de coerência entre cenas, planos e diálogos). Alegadamente, 3 das "actrizes" faleceram também pouco depois da estreia de Mãos, as mãos do destino, prova final e irrefutável de que afinal o arrependimento mata mesmo.

Resumindo: Manos é longo, chato, com diálogos monossilábicos intercalados com grandes planos de caras inexpressivas, mal filmado, mal dobrado, mal editado. Tudo de mau. Inacreditavelmente mau. Não sei se este é o pior filme de todos os tempos, mas nenhum outro alguma vez me conseguiu arrancar tantos "como é possível?" da minha boca e seguramente depois desta experiência prefiro arrancar a planta do pé esquerdo com uma tesoura a ter de voltar a ver isto. Estou satisfeito e finalmente conseguirei dormir descansado! Obrigado, Hal Warren!


Trailer (remake):

26.4.07

Discos: Regina Spektor - Soviet Kitch

De origem Russa, emigrada para os Estados Unidos em pequena, judia praticante, pianista com educação clássica, punk na atitude, eis Regina Spektor.







Regina Spektor nasceu em Moscovo, em 1980, onde viveu até 1989, altura em que se deu a Perestroika. A partir desse momento, o clã Spektor deixou a pátria-mãe e viajou pela Austria e Itália até assentar no típico bairro Nova-Iorquino do Bronx. Aqui, Regina começou a desenvolver a sua técnica de piano, ao mesmo tempo que criava músicas e letras que raramente eram transpostas para papel e pauta.



A sua estreia discográfica dá-se em 2001 com 11:11, um disco autoproduzido distribuído praticamente apenas nos seus espectáculos. Seguiu-se Songs, em 2002, que conheceu o mesmo destino. Em 2004, o album Soviet Kitsch foi promovido numa tour conjunta com The Strokes, o que garantiu o aumento da base de seguidores desta menina, até que em 2006 o seu album Begin to Hope invadiu finalmente o mainstream, valendo-lhe o reconhecimento como artista e song-writter que tardava em chegar. Hoje em dia, Regina Spektor é um nome a ter em conta na chamada corrente musical anti-folk, com todo o mérito.



Destaco da sua discografia o album Soviet Kitsch, de 2004, unicamente por ser o meu preferido e aquele que me agarrou primeiro (não tirando com isto valor aos outros discos de Regina).







Soviet Kitsch, o terceiro registo discográfico de Regina Spektor, é um album honesto e simples. Tirando um ocasional arranjo de cordas numa ou noutra música, uma guitarra e bateria completamente fora de tempo na canção Your Honor e uma baqueta batendo violentamente numa cadeira em Poor Little Rich Boy, o que aqui encontramos é uma menina reguila com a sua voz, o seu piano e as suas histórias para contar.



As músicas deste album encerram pequenos contos, com muito non-sense, brincadeiras com sinónimos e referências literárias e bíblicas. Um exemplo dessa capacidade teatral encontra-se na faixa The Ghost of Corporate Future, que conta a história de um homem desprovido de valores que de repente ganha uma alma e se descalça em plena rua a cada oportunidade. Já em Chemo Limo, ouvimos o relato de alguém com um cancro terminal que gasta o dinheiro dos seus tratamentos num último passeio de limosina. As influências judia e Russa encontram-se meio camufladas nas suas composições, assumindo-se no entanto na soberba The Flowers, que evolui de uma peça de música quase considerada erudita para a festa de uma "Hava Naguila".



Soviet Kitsch é um album que, pese a sua simplicidade, poderá soar estranho e pouco apelativo ao ouvinte ocasional. A amplitude vocal de Regina, que pode ir do som mais agudo ao mais grave em milésimas de segundo, bem como os grunhidos, zumbidos e murmúrios tornam cada música deste disco única e imprevisível. Mas, uma vez que a sua música ganha um lugar dentro de nós, torna-se muito difícil abandoná-la. Fica, cresce, evolui e eleva-nos. Agora que finalmente foi editado na Europa, Soviet Kitsch é um album a descobrir com urgência.




24.4.07

Banda Desenhada: Completely Pip & Norton

Dave Cooper é um reputado artista, conhecido pelos seus quadros anti-eróticos de mulheres obesas com grandes dentes. Gavin McInnes é um indivíduo que deveria estar preso e considerado inimigo nº1 da moral e bons costumes. Em vez disso, fundou a Vice Magazine, uma revista gratuita dedicada às artes independentes, tendo publicado interessantes guias para a vida moderna como Bukkake On My Face: Welcome to the Ancient Tradition of the Japanese Facial e The Vice Guide to Eating Pussy . Dave Cooper providencia a arte para o argumento (?) de Gavin McInnes, neste extravagante Completely Pip and Norton, volume 1 (uma colecção no total de um volume).







Completely Pip And Norton inclui uma recolha de tiras humorísticas de qualidade variável originalmente impressas na infame Vice Magazine, e três histórias completas. Na primeira, a dupla tenta inventar esquemas com o intuito de angariar fundos para a obtensão de um brinquedo de seu nome Rondo's Spinning Buddha With Flaming Zycrobe Action And Patented Spin-O-Rama Rotation, esquemas esses que passam pela abertura de um restaurante para cães e pela venda de limonada.







Na segunda história, Pip decide calçar as peúgas de Norton, e como consequência da elevada toxicidade do chulé humano, perde toda a carne do rosto. Um cientista megalómano, Dr. Vlad, persegue os dois amigos para lhes roubar as meias, itens fundamentais para o domínio planetário. Na derradeira história, Pip, um eterno apaixonado por Barbra Streisand, logo após ser libertado da prisão por alegadamente se recusar a alistar-se para combater na guerra contra Portugal, assassina uma velhota e esconde-a debaixo da almofada da amada para conquistar o seu afecto.



Tanto o estilo artístico e humorístico como as características de Pip e Norton são claramente inspirados em Ren & Stimpy, apesar de Ren ser um gato e Stimpy um Chihuahua, enquanto que Norton é um humano flutuante e Pip é uma... coisa. Porém, Dave e Gavin levam a experiência até ao limite do aceitável, utilizando toda uma paleta de cores berrantes totalmente diferentes de quadradinho para quadradinho, alterando o lettering dos diálogos frequentemente, incluindo vinhetas totalmente escritas em Coreano, usar e abusar dos fluidos corporais... Ler Completely Pip And Norton é uma experiência perturbadora e surreal (no sentido Acid Trip da coisa), como se estivéssemos a ler um desenho animado. Nunca pensei que piadas escatológicas pudessem vir em tantas cores e feitios. Uma leitura divertida, para mentes pouco impressionáveis e estômagos fortes.



Mulheres obesas com dentaduras avantajadas em www.davegraphics.com

Insanidade em
http://www.viceland.com

23.4.07

Livros: Woody Allen Prosa Completa

Gostava de escrever sobre outros géneros literários. Gostava de conseguir escrever sobre o Moby Dick e o Guerra e Paz. Gostava de escrever sobre o Kafka (um dia aventuro-me). Gostava de escrever sobre a gloriosa Laranja Mecânica do Anthony Burgess e de como o livro está a anos-luz do filme (para melhor). Mas o que acontece é que ultimamente só tenho lido livros assumidamente humorísticos, com potencial humorístico mesmo sem o ser (alguém leva a sério o livro do Rambo?), sobre humor e infantis. É o que compro e o que mais prazer me tem dado a ler. Eu, que até sou considerado um tipo com mau feitio. Os meus colegas de trabalho apelidam-me carinhosamente de "besugo trombudo".



Posto isto, e visto que hoje se comemora o Dia Mundial do Livro, este mês levam com um livro de humor escrito por um realizador de cinema, e para o mês que vem levam com um livro infantil. Para não quebrar muito a rotina.



O livro deste mês chama-se Woody Allen Prosa Completa, e foi escrito por Woody Allen, que é o senhor que se encontra na fotografia abaixo:







Woody Allen Prosa Completa reúne num só volume as três colectâneas de humor do afamado músico/cineasta/actor/escritor/dramaturgo: Para Acabar de Vez com a Cultura (Getting Even, de 1971), Sem Penas (Without Feathers de 1975) e Efeitos Secundários (Side Effects, de 1980), num total de 52 histórias curtas, peças de teatro, correspondência fictícia e entradas enciclopédicas fantasiosas.



Impregnada pelo neurótico non-sense que caracteriza Mestre Allen, esta antologia deve ser obrigatoriamente digerida em doses muito pequenas, de modo a se poder apreciar com calma todos os pormenores e devaneios presentes em cada texto.



Destaco, em Para Acabar de Vez Com A Cultura, a peça de teatro A morte chama, em que um senhor engana a morte vencendo-a num jogo de cartas. Em Efeitos Secundários, o destaque vai para O homem mais superficial do Mundo, um relato sobre um indivíduo que evita a todo o custo visitar um seu amigo moribundo no hospital, até ao dia em que o faz e se apaixona por uma enfermeira, passando a visitar o amigo mais por egoísmo do que por compaixão. Em Sem Penas, ressalva para Se os impressionistas tivessem sido dentistas, um troca de correspondência entre o afamado dentista Vincent Van Gogh e o seu irmão e patrocinador Theo.



Deixo-vos com um excerto, também de Sem Penas, de um texto intitulado Fábulas fantásticas e animais míticos:



O grande «roe»



O grande roe é um animal mitológico com cabeça de leão e corpo de leão, mas sem serem do mesmo leão. O roe tem fama de dormir mil anos para depois surgir em chamas, especialmente se estava a fumar ao deitar-se.



Diz-se que Ulisses acordou um roe aos seiscentos anos, mas este mostrou-se apático e mal-humorado, pedindo-lhe que o deixasse ficar na cama mais duzentos anos.



O aparecimento de um roe é geralmente considerado coisa nefasta e costuma anteceder um tempo de miséria ou a notícia de uma festa de sociedade.

20.4.07

Tascas: Feio

No capítulo da venda de comida em roulottes, várias são as que fizeram história. O omnipresente "Psicológico" já foi responsável por centenas de casos de intoxicação alimentar, e a qualidade extrema dos pães com chouriço servidos no Setubalense "Furgão" é já lendária. O acto de "fazer a cama ao estômago" é um automatismo do late-night Português.

Em Leiria, a roulotte que mais se destaca sobre a concorrência dá pela designação de Feio. Num genial golpe de marketing, o proprietário resolveu transformar as suas fraquezas em forças, utilizando o facto de ser um indivíduo nada favorecido pelos padrões actuais da beleza para projectar o seu negócio. Para além desse factor, a qualidade, quantidade e variedade dos seus produtos (nomeadamente a picanha e a bifana grelhada) garantem a estes senhor quantidades avultadas de clientes noite após noite.

Iluminado, este génio da carne com pão lançou recentemente um novo e inovador serviço, tornando-se sem sombra de dúvida no maior Rei da Bifana que a cidade do Liz alguma vez teve!

Quem frequenta roulottes de bifanas às 4 da manhã sabe bem o que custa arrastar-se até casa com um belo naco de carne, pão e molhos sortidos alojados no estômago, especialmente depois de uma noite intensiva de bebidas de teor alcoólico elevado. Não poucas vezes, o bolo alimentar acaba espalmado no passeio, inglórios 5 euros mal gastos para serem regurgitados sem apelo nem agravo.

Atento às necessidades do jovem frequentador de vida nocturna e do estudante que queima as pestanas a jogar Battlefield e Medal of Honor estudar até às tantas, o Feio resolveu criar um novo e revolucionário serviço: o TELEFEIO!!!!!!!!


O flyer está rasurado e sujo de ketchup. Foi o que se pode arranjar.

Exactamente, o Telefeio! A bifana personalizada, sem custos adicionais, entregue ao domicílio em 20 minutos e com os molhos colocados à vista do cliente! Se temos a comida chinesa e a pizza entregue em casa, porque não também a bela da lusitana bifana? Feio, sério candidato a empresário do ano! Quem não gostaria de ter uma telebifana na sua cidade/vila/aldeia/lugar?

16.4.07

Filmes: 300

Na categoria cinéfila de adaptações de banda desenhada, dois dos maiores gigantes da 9ª Arte têm tido percursos muito diferentes. Os filmes baseados nas obras de Alan Moore, talvez porque o mesmo sempre se opôs vigorosamente a estas adaptações, situam-se regra geral entre o fracasso de bilheteira (quando adaptados literalmente) e o sucesso relativo (quando alterados de forma tão radical que se torna difícil encontrar paralelos entre a banda desenhada e a sua consequente adaptação). No entanto, Moore é um genial argumentista de banda desenhada, tido como quase cinematográfico na sua escrita.

O percurso de adaptação da obra de Frank Miller ao cinema é bem diferente. Quando os filmes são vagamente baseados na sua obra (relembrando os horríveis flops de Daredevil e Elektra), o resultado final alterna entre o enfadonho e o asqueroso. Porém, as adaptações mais fiéis do seu espólio artístico resultam em grandes filmes. Veja-se o exemplo do mais recente filme de Batman, baseado na sua graphic novel Batman: ano I. Veja-se o aclamadíssimo Sin City. E veja-se agora (no cinema, se possível) o mais recente 300.



300 narra com contornos de lenda fantástica os acontecimentos reais da batalha de Thermopylae, onde Leónidas I, Rei de Esparta, contando apenas com a sua guarda pessoal de 300 soldados e alguns aliados de outras cidades-estado gregas, procura impedir a invasão persa comandada pelo Imperador Xerxes e o seu grandioso exército.

Filmado essencialmente em bluescreen, 300 captura na perfeição os cenários e planos incluídos na obra de Miller. Nota especialmente alta para a caracterização. Gerard Butler e Rodrigo Santoro são perfeitas aparições em carne e osso de Leónidas e Xerxes, respectivamente.



Completando a experiência cinematográfica, esta adaptação conta com novos elementos originalmente ausentes da Graphic Novel original, mas com alguma pertinência histórica, nomeadamente sobre a importância das mulheres na sociedade Espartana. Gorgo, a esposa do rei Leónidas, praticamente ausente na banda desenhada, possui aqui um papel de relevo pelas suas acções diplomáticas junto do senado Espartano, sendo a frase "Apenas as mulheres Espartanas dão à luz homens" atribuída historicamente a esta rainha. Outra citação directa, "Volta com o teu escudo ou em cima dele", é geralmente aceite como despedida das esposas de Esparta aquando da partida dos seus maridos para a guerra.

300, o filme, é um épico à antiga, deixando passar um certo sentimento camp após o seu visionamento. A grandiosidade das batalhas e os relatos de engenho, crueldade e coragem da falange Espartana, à mistura com a relação intensa entre o Rei Herói e o Rei Vilão e os aspectos mitológicos introduzidos levam-nos aos filmes históricos de antigamente. A brilhante realização de Zack Snyder arrasta as nossas mentes directamente para dentro da acção do filme, fazendo-nos por momentos sentir o aroma do sangue e o peso dos escudos. 300 faz-nos sentir Espartanos durante praticamente duas horas. Um mimo para fãs de banda desenhada, um excelente filme para todos os outros.



Trailer:

17.3.07

Discos: Arcade Fire - Neon Bible

É mesmo necessário explicar quem são os Arcade Fire?



Biografia resumidíssima: Arcade Fire é uma banda canadiana (do Quebec), de 7 elementos. Formados em 2003, a banda desde sempre apostou em criar a sua própria sonoridade, incluindo nas suas composições, além da costumeira guitarra/baixo/bateria, dois violinistas, acordeões, xilofones, percussões variadas e tudo o mais. Esta mistura granjeou-lhes o afecto do público e a rendição da indústria discográfica e dos seus pares. David Byrne e David Bowie são fãs assumidos da banda. Funeral, de 2004, foi considerado quase unanimamente como o melhor album daquele ano. Houve quem arriscasse considerá-lo o melhor album da década! O Hype entretanto começou a desaparecer, e heis que somos brindados este ano com o segundo disco de Arcade Fire, intitulado Neon Bible.




Neon Bible, impressões e sensações:


Faixa #1: Black Mirror - Ressaca de uma festa que dura para lá da sua vitalidade. Cansaço, demasiadas horas a beber e poucas a dormir. O corpo arrasta-se, mas ainda tem força para só mais uma música. Explosões de energia sacodem o corpo do transe. Bom início.


Faixa #2: Keep The Car Running - Uma das faixas mais poderosas de Neon Bible. O carro já está em andamento, não abranda, e somos obrigados a arriscar a vida para poder apanhar a boleia. É bom estar vivo!


Faixa #3: Neon Bible - Uma paragem calma para recuperar o fôlego. Curta, e no entanto significativa. Continuamos a viagem ou ficamos aqui à porta do adro?


Faixa #4: Intervention - Órgãos de igreja envolvem-nos, e a música aumenta, num crescendo demoníaco. Vontade de gritar, chorar e rir, tudo ao mesmo tempo. Montanha russa de sentimentos. Experiência religiosa. É isto Arcade Fire! Quem não se deixar levar pela força de Intervention não tem coração.


Faixa #5: Black Wave/Bad Vibrations - A música 2-em-1. Primeira parte, alegria podre. Jean-Michel Jarre actualizado, com mais memória RAM e um disco de 500 gigabytes. Depois, plim plam pum, segunda parte, um baixo anuncia trovoada, e uma nuvem negra invade o leitor de cds. Escura como a peste, arrasta-nos para a faixa seguinte...


Faixa #6: Ocean of Noise - A canção de Neon Bible. O amor no meio do mar. O fim é o início e o início é o fim. Lei da vida. Dançar agarradinho. Mentiras e violência embaladas ao sabor das ondas. A melhor razão pela qual se deve ouvir as músicas de Arcade Fire até ao fim. This time we'll work it out. Bonita.


Faixa #7: The Well And The Lighthouse - Maratona vertical. Sair do fundo do poço só com a força dos punhos. Claustrofobia, necessidade de oxigénio. A luz na boca do poço oscila. Está quase... Ar! Cá fora, os vaga-lumes dançam a valsa dos amores na noite mais escura de sempre. É bom estar vivo, parte 2.


Faixa #8: Antichrist Television Blues - Martelar contra a parede. Ritmo intenso. Troca de braço, que este já dorido. Recomeça. Mais forte, que o prédio tem de ficar pronto amanhã. Aumenta o ritmo. Prende os braços atrás das costas e bate com a cabeça. Grita de dor. Continua. Tem de ser. Don't wanna work in a building downtown. Mas não há outra hipótese. Nervos à flor da pele. Excelente.


Faixa #9: Windowsill - Olhar para fora é sempre mais fácil do que olhar para dentro.


Faixa #10: No Cars Go - Bem reciclada do EP de estreia. Mais forte, mais rápida, mais cuidada e trabalhada. Agora, com a ajuda de coros militares! A cortina de ferro já caíu, mas de ferrugem nem sinal.


Faixa #11: My Body is a Cage - Intensidade. Mais órgãos de igreja, desta feita apontando alto para a transcendência. Set my spirit free...


Veredicto: Neon Bible não é melhor do que o seu antecessor. Mas também não é pior. É simplesmente diferente, e poderá não agradar a todos os que veneraram Arcade Fire anteriormente. Mas agradará a muitos outros que nunca lhes prestaram grande atenção. Neon Bible não desilude quem não se deixa iludir com mais do mesmo, elevando à estratosfera as expectativas para o terceiro album. Estará no final do ano entre os melhores de 2007. Desde 5 de Março que poderia estar nos vossos lares. Deixem-se de downloads ilegais (a tentação é grande, e eu também não fui capaz de resistir) e dirijam-se ao vosso botequim discográfico favorito. Eu assim o farei quando puder...

16.3.07

Banda Desenhada: Lost Girls

Um regresso a Alan Moore, desta feita com um bonito relato sobre amor real e pornografia ilustrada.

Em 1991, Alan Moore iniciou mais um projecto rodeado de controvérsia. Inicialmente aliciado pela revista Taboo, o escritor aliou-se à pintora Melinda Gebbie, com o intuito de criar uma banda desenhada pornográfica. Moore, com era seu hábito, escreveu prontamente o argumento completo. Gebbie não se adaptou a desenhar sobre uma história já completamente definida, preferindo criar à medida que as personagens se desenvolviam, e não pintar sobre o trabalho dos outros. O génio criador de Moore encontrara finalmente quem lhe fizesse frente. Subjugado, não teve outro remédio senão jogar pelas regras de Gebbie. O projecto arrasta-se então por longos e penosos anos de pesquisa sobre histórias infantis e posições sexuais, com aulas práticas à mistura.

15 anos depois, Alan Moore e Melinda Gebbie estavam casados.

16 anos depois, é finalmente editado Lost Girls.



No início da primeira guerra mundial, três mulheres encontram-se por acaso num hotel Austríaco. Dorothy Gale, uma jovem adulta, a trintona Wendy Darling e a idosa Alice Fairchild. Face a monotonia do lugar, as três senhoras iniciam uma troca de relatos aventurosos sobre as suas experiências sexuais prévias. Dorothy conta da sua desvirginação às mãos de três fazendeiros, aquando da passagem de um furacão pelo seu Kansas natal. Wendy relembra as suas aventuras com um pequeno sem-abrigo de seu nome Peter Pan, líder de um gang de inadaptados chamados Lost Boys. Alice, a mais experiente do grupo, seduz as suas companheiras com as suas façanhas bisexuais aos 14 anos, num longínquo país de maravilhas.

Bem para além da perversão (cuidada e completa com referências às obras originais) submetida a estas personagens do imaginário popular, está o trabalho artístico de Lost Girls. Cada relato é ilustrado com um conjunto de paletes de cores e estilo de vinheta diferentes. Os paineis de Alice, bem coloridos, são em forma de espelho oval. Os de Wendy são escuros, altos, reprimidos e vitorianos. Os de Dorothy são amplos e em tons de pastel. A atenção ao detalhe peca apenas por ser algumas vezes demasiado gráfica.

Censurado em diversos países pelo seu conteúdo chocante e provocador, Lost Girls foi no entanto justamente louvado pela crítica especializada. Este esforço conjunto do casal Moore/Gebbie poderá ser mais facilmente encontrado em Portugal do que no próprio Reino Unido, onde a obra foi vetada pelas autoridades responsáveis pela moral e bons costumes. Recorram às encomendas em lojas de banda desenhada de importação, sem problemas de consciência.