Mais uma empresa familiar, os Bodies of Water, formados pelo casal David e Meredith Metcalf, editaram este ano o seu segundo longa duração, A Certain Feeling.
Uma verdadeira comunidade no sentido em que toda a gente canta e novos membros vão sendo recrutados na estrada (literalmente, recrutados na borda da estrada), os Bodies of Water produzem um Indie Rock de características épicas, a trazer à memória Jesus Cristo Superstar ou os duetos erótico-nojentos do Meatloaf (mas em melhorzinho, entenda-se). Há por aqui também alguns ecos Zappianos...
O segundo esforço desta banda é assim uma salganhada de sons e estilos diversos. Exemplo, a faixa número dois, Under The Pines, inicia-se com um orgão, passando para uma guitarrinha das Arábias, arrancando numa cavalgada frenética ao pôr-do-sol, para depois descansar a ressacar de um ácido marado antes de partir a cavalo mais uma vez. Há ambição neste disco, mas na minha opinião espalha-se um bocado por querer dar um salto maior que as pernas.
A Certain Feeling deixa no ar um certo sentimento a Arcade Fire dos pobres. É bom, mas já ouvimos isto noutro lado. Escute-se a primeira faixa, Gold, Peach, Tan, and Grey para entenderem onde quero chegar. Poderei no entanto estar a ser um pouco injusto com a banda, uma vez que o primeiro album também não me entrou logo à primeira e agora já o aprecio bastante. E por falar em primeiro album...
Ears Will Pop & Eyes Will Blink, de 2007, é certamente menos trabalhado que A Certain Feeling, mas ganha em honestidade e sentimento. A muralha de vozes requer alguma habituação, é certo, mas uma vez acomodados, não há como não se deixar levar por malhas como Our Friends Appear Like Dawn ou a minha preferida I Guess I'll Forget The Sound, I Guess, I Guess. É um bonito disco, um bocado religioso ou espiritual a mais para o meu gosto, mas ainda assim suficientemente inspirado e diferente para merecer uma audição atenta. Esperemos que A Certain Feeling cresca dentro de mim como Ears Will Pop cresceu.
Algo de podre se passa no reino da blogosfera. Parece que o meu último post, relacionado com o novo disco dos Belle & Sebastian, desapareceu sem deixar rasto. O Blogger mandou-me um mail todo catita a chamar-me pirata e retirou-me o post do ar. Valha-me o Google Reader que arquiva-me os posts, piratas ou não piratas. Bonito. É claro que vou voltar a colocar o post, mas sem os MP3, que a PIDE/ASAE dos blogs não está para brincadeiras. Eis o mail que recebi pelos meninos simpáticos do Blogger:
Blogger has been notified, according to the terms of the Digital Millennium Copyright Act (DMCA), that certain content in your blog infringes upon the copyrights of others. The URL(s) of the allegedly infringing post(s) may be found at the end of this message.
The notice that we received from the International Federation of the Phonographic Industry (IFPI) and the record companies it represents, with any personally identifying information removed, will be posted online by a service called Chilling Effects at http://www.chillingeffects.org. We do this in accordance with the Digital Millennium Copyright Act (DMCA). Please note that it may take Chilling Effects up to several weeks to post the notice online at the link provided.
The IFPI is a trade association that represents over 1,400 major and independent record companies in the US and internationally who create, manufacture and distribute sound recordings (the "IFPI Represented Companies").
The DMCA is a United States copyright law that provides guidelines for online service provider liability in case of copyright infringement. We are in the process of removing from our servers the links that allegedly infringe upon the copyrights of others. If we did not do so, we would be subject to a claim of copyright infringement, regardless of its merits. See http://www.educause.edu/Browse/645?PARENT_ID=254 for more information about the DMCA, and see http://www.google.com/dmca.html for the process that Blogger requires in order to make a DMCA complaint.
Blogger can reinstate these posts upon receipt of a counter notification pursuant to sections 512(g)(2) and 3) of the DMCA. For more information about the requirements of a counter notification and a link to a sample counter notification, see http://www.google.com/dmca.html#counter.
Please note that repeated violations to our Terms of Service may result in further remedial action taken against your Blogger account. If you have legal questions about this notification, you should retain your own legal counsel. If you have any other questions about this notification, please let us know.
Os Belle & Sebastian estão de momento parados, mas isso não implica que não saiam cá para fora discos novos da banda de Glasgow. Fresquinho, The BBC Sessions é uma compilação que reúne 3 sessões para a rádio Britânica, em 1996 (para Mark Radcliffe), 1997 (para Steve Lamacq) e 2001 (para John Peel). As canções não diferem muito das suas versões em estúdio, apenas o suficiente para o fã mais atento. Wrong Love, que mais tarde viria a ser editada como The Wrong Girl, é o caso mais adulterado. De resto, temos um disco de grandes músicas às quais já estamos habituados. Sleep The Clock Around está especialmente bem conseguida, assim como Seymour Stein e The Magic of a Kind Word.
Existe ainda um segundo disco de Bónus, contendo o concerto de Natal de 2001 em Belfast. Este segundo disco tem a particularidade de conter versões de The Beatles (Here Comes the Sun), Thin Lizzy (The Boys Are Back in Town) e The Velvet Underground (I'm Waiting For The Man).
Não recomendo este disco a alguém que nunca tenha ouvido Belle & Sebastian, até porque se podem escutar as músicas destas sessões mais limpinhas e arranjadinhas nos discos. Porém, para quem conhece e é fã, The BBC Sessions merece uma espreitadela, quanto mais não seja por conter as últimas gravações de Isobel Campbell enquanto membro dos Belle & Sebastian.
Não sendo propriamente um top, não havendo nenhuma ordem preferencial, aqui ficam cinco cantigas deliciosamente kitsch que deviam fazer parte do imaginário colectivo mas que infelizmente caíram na semi-obscuridade, com o mais alto patrocínio do Youtube.
Marisol - Corre Corre Caballito
Nos tempos de juventude do meu pai, há muitas primaveras atrás, haviam no país vizinho duas forças da natureza em tamanho condensado, verdadeiros fenómenos de popularidade Ibérica. Falo-vos de Marisol e Joselito, o pequeno rouxinol. Depois de dezenas de filmes e discos, os pequenos trovadores eclipsaram-se, devido a uma doença que aflige o mais comum dos mortais e à qual se dá o nome de crescimento. Soube-se que Joselito perdeu a voz e andou por aí perdido, chegando mesmo a tornar-se guerrilheiro na guerra de Angola. De Marisol nada sei. A não ser que tinha uma voz poderosíssima para o seu corpinho franzino de 8 anos.
Factor Nostálico: O meu pai lacrimeja sempre se que se lembra da Marisol.
Factor Kitsch: Neste video, Marisol incita a sua pileca a correr ameaçando rebentar-lhe os tímpanos com as suas cordas vocais. Uma ressalva para a natureza burguesa de Marisol. Dezenas de crianças correm atrás da charrete, mas Marisol só deixa partilhá-la com dois ou três. E todos os camponeses a cumprimentam, mas acham que Marisol se dá ao trabalho de retribuir? Nem pó. Ser-se a única loura em Espanha nos anos 50 dá nisto.
France Gall - Poupée de Cire, Poupée de Son
É um facto. Nos anos 60 já haviam mulheres lindíssimas que fingiam que cantavam mas que na verdade não tinham voz nenhuma. France Gall é uma delas. Na verdade, a minha preferida da colheita. No video abaixo, podemos ver a actuação da menina no festival da Eurovisão de 1965. Venceu representando o Luxemburgo, mas perdeu pela associação a Sèrge Gainsbourg. O senhor Gainsbourg era um Francês com cara de vaso de entulho, excelente escritor de canções e nascido com o condão de sacar todas as meninas com um palminho de cara da sua época. E depois metia-as a cantar as suas composições. Primeiro France Gall, depois Jane Birkin e Brigitte Bardot. France Gall teve sucesso com esta canção, mas depois viu a sua carreira ser arruinada por Gainsbourg, ao cantar uma outra cantiga sobre chupa-chupas que na verdade não era sobre chupa-chupas.
Factor nostálgico: Volta e meia aparece uma banda a fazer uma versão de Poupée de Cire, Poupée de Son. A última foi Arcade Fire.
Factor Kitsch: "Eu sou uma boneca de cera, uma boneca de serradura..." e era realmente uma bonequinha. A inocência do olhar de Gall contrasta com a malvadez da letra de Gainsbourg.
Baccara- Yes Sir I Can Boogie
De regresso a Espanha, mas flashforward para a década de 70, surgem as Baccara, com este infeccioso Yes Sir I Can Boogie, capitalizando a febre do Disco.
Factor Nostálgico: Citando Miguel Esteves Cardoso em Escrítica Pop, Yes Sir I Can Boogie é "(...) um dos épicos basilares do som de efeito vomitório."
Factor Kitsch: "Michter, Your eych are fúll óf echitachion... I'm a Chenchaichón!" O Sotaque Espanhol fica sempre bem quando cantado em Inglês.
The Shorts - Comment Ça Va
The Shorts eram Holandeses, cantavam em Holandês, e às vezes em Alemão. Não é de estranhar que o seu single de maior sucesso tenha sido Comment Ça Va. E mesmo assim, apenas o refrão era cantado em Francês. Depois os anos 80 terminaram e The Shorts ficaram The Bigs e hoje em dia devem estar The Fats and The Balds and The Erectile Disfunctionals.
Factor Nostálgico: Tenho este single em vinil!!!!!!!!
Factor Kitsch: Os fatos de treino! O orgão a fazer de acordeão! As cores! O refrão! Tudo!
Madi - Lição de Português
XVII festival da canção da RDP. Madi, um jovem artista vindo de um páis longuínquo, estabelece-se em Portugal e tenta construir uma carreira no mundo da música, com o apoio de António Sala. O auditório está ao rubro. Madi faz tudo o que pode e sabe. Dança, canta, grita, sorri, aponta o dedinho. O público rende-se a seus pés. Madi sente a sua carreira a disparar. Mas no entanto, a noite ainda reservava algumas surpresas. José Albano Salter Cid de Ferreira Alves arrebata o país com o seu "Um grande, grande Amor". Madi fica de rastos e acaba o certame em 3º lugar. Devastado, ainda tenta mais tarde uma carreira com Sérgio Wonder, o pequeno prodígio que em vez de cego era coxo, mas a sua carreira terminara naquela noite, aos pés de José Cid.
Factor Nostálgico: O Coliseu dos Recreios cheio como um ovo para o Festival da Canção. Irrepetível.
Factor Kitsch: O fatinho branco de Madi, o crescendo da música, os passinhos de dança, em especial o passo ao minuto 3:05, a letra e a simpatia do artista. Madi, filho, não venceste o festival da canção mas ganhaste um lugar no meu coração para todo o sempre! JÁ SEI QUE LOVE! TU ME ENSINASTE É AMAR, É ACARINHAR, CANTA COMIGO AMOR, LOVE! SE ME ENGANAR NAS SÍLABAS VAMOS RECOMEÇAR!
“...O seu nome é Deolinda e tem idade suficiente para saber que a vida não é tão fácil como parece, solteira de amores, casada com desamores, natural de Lisboa, habita um rés-do-chão algures nos subúrbios da capital. Compõe as suas canções a olhar por entre as cortinas da janela, inspirada pelos discos de grafonola da avó e pela vida dos vizinhos. Vive com 2 gatos e um peixinho vermelho...”
Lembro-me de quando tinha 5 anos e ficava a brincar na cozinha de casa dos meus pais enquanto a minha mãe lavava a loiça. Ficávamos aqueles momentos a ouvir Deolinda através de um velhinho rádio AM. E cantarolávamos as cantigas da Deolinda naquelas tardes solarengas dos anos 80. Só que Deolinda nessa altura era tudo o que passava na rádio, desde Fado a canção ligeira às frequências das traineiras que passavam ao largo e que o transistor insistia em apanhar.
Canção ao Lado, o disco de estreia dos Deolinda, remete-me exactamente para esse tempo, para um Portugal mais puro e típico e, bem, mais Portugal. Há Fado castiço sem guitarra portuguesa e canção ligeira com bom humor e leveza. Há dores na alma cantadas com um sorriso nos lábios. Há um disco coeso e esperança no futuro da Música Popular Portuguesa.
É extremamente difícil destacar uma faixa num disco tão poderoso. Movimento Perpétuo Associativo tem petição na internet para substituir o Hino Nacional. Fado Toninho é delicioso, O Fado não é mau emana poder. Fon-Fon-Fon e Ai Rapaz são festa, Clandestino amolece o coração do mais sisudo. Melhor mesmo é ver o teaser que deixo aqui em baixo e que serve de cartão de visita para um dos melhores discos de 2008.
Em homenagem ao final do maravilhoso reinado de George W. Bush, não sendo propriamente um top, não havendo nenhuma ordem preferencial, aqui ficam cinco canções de protesto: