23.9.10

5 canções de Daniel Johnston recicladas por outros artistas

Mais do que pelas suas interpretações, as canções de Daniel Johnston tem vindo a ganhar reconhecimento nas interpretações de outros artistas, sempre mais fáceis de digerir. No seguimento do meu post de ontem sobre o filme The Devil and Daniel Johnston, apresento cinco canções de Big Dan apresentadas por cinco artistas distintos.


De vários discos de tributo a Daniel Johnston, o mais conhecido é "The Late Great Daniel Johnston - Discovered Covered", um interessante documento contendo não só versões de gente bem conhecida como Eels, Violent Femmes, Beck, Death Cab For Cutie e TV on the Radio, bem como os originais de Johnston. É neste disco que encontramos a belíssima versão dos Sparklehouse com os Flaming Lips para Go.



Um dos momentos altos da banda sonora de "Where The Wild Things Are", a interpretação de Karen O para Worried Shoes atinge a leveza musical que a pureza da letra, uma das melhores de Daniel Johnston, pedia há muito. Sufjan Stevens tem também uma versão muito interessante, se bem que totalmente diferente, desta canção no disco de tributo "I Killed The Monster".




Também em Portugal e Brasil se venera o génio criativo de Daniel. No recente disco "Femina", no qual The Legendary Tigerman convida meia dúzia de vozes femininas para cantarem no seu disco, encontramos como bónus True Love Will Find You In The End, interpretada pela Brasileira Cibelle.




Os Yo La Tengo fizeram duas versões de Speeding Motorcycle: uma de estúdio, incluída no disco de covers "Fakebook", e outra a finalizar o EP "Here Comes My Baby", uma divertida sessão de rádio com Daniel Johnston a cantar pelo telefone (-"Daniel, let me introduce you to the band..." - "OK, Hi band!"). Esta é a versão de "Fakebook".




Daniel Johnston tem colaborado frequentemente com outro artista "especial", Jad Fair. Uma das suas canções conjuntas, Somethings Last a Long Time, aqui trazida pelos Built to Spill.








Bónus: Daniel Johnston interpreta Grievances num Taxi preto em Londres.

22.9.10

Filmes: The Devil and Daniel Johnston

Daniel Johnston. Quem não gosta, diz que é uma aberração. Quem gosta, diz que é um génio. Não há meio termo. Originalmente, pendi para a primeira hipótese, até entender que Daniel Johnston era muito mais do que músicas mal cantadas e mal tocadas. Pegando e adaptando a frase d'O Princepezinho, o essencial é inaudível para os ouvidos, e conseguindo-se escutar para lá das camadas de crueza doentia e genuíno lo-fi, encontram-se melodias deliciosas que nas mãos de gente mais capaz tornam-se grandes malhas, como se Daniel fosse o mineiro, bruto, feio e retardado que retira o carvão do buraco, para este se transformar em safiras quando chega às mãos dos ourives...

Um amigo meu que pende também para a primeira opção descobriu a existência do filme The Devil and Daniel Johnston, de 2005. Já tendo visto o filme e gostado bastante do mesmo, e com a esperança vã de também fazer com que a opinião deste meu amigo em particular se altere um bocadinho, apresento as minhas impressões sobre o documentário.



The Devil and Daniel Johnston é o apontamento biográfico de um artista Norte-Americano maníaco-depressivo com mania de grandeza, retratando o equilíbrio precário entre a loucura e a genialidade, com uma precisão mórbida alcançada por intermédio de cassetes de vídeo e áudio que o próprio Daniel gravou ao longo de toda a sua vida. Tudo servia para ser gravado: discussões com os pais, canções, orações, conversas de desconhecidos... Numa das partes mais perturbadoras do filme, Daniel desaparece a meio de uma sessão de gravação com os Sonic Youth, após ter sido preso por profanar a Estátua da Liberdade, e chegamos mesmo a ouvir os relatórios policiais, gravados pelo próprio no auge do seu delírio esquizofrénico.

O documentário conta-nos então a história de um artista com imenso talento aprisionado numa mente confusa, um garoto que cria melodias lindas com um orgão de plástico e um gravador estragado, um pianista muito capaz que abandona o piano e insiste na guitarra que simplesmente não sabe tocar, uma pessoa feliz, cheia de vida e com uma alegria contagiante, um fundamentalista católico que acha que todos os seus problemas são causados por Satanás, um artista plástico competente que expõe os seus quadros nas melhores galerias de arte, um ser frágil e doente que só quer ser deixado em paz, um génio que se coloca no mesmo patamar que os Beatles, um mau cantor com letras entre o pateta e o brilhante, uma pessoa com tanto para dar e transmitir que literalmente perde o juízo ao tentar partilhar tudo o que tem com o Mundo, um ser perturbado e violento, um louco preso a uma camisa de forças num asilo enquanto Kurt Cobain sai à rua com um T-Shirt com a capa de "Hi, How Are You?" e subitamente toda a gente pergunta "Quem é Daniel Johnston?"

A minha parte favorita do filme é quando a MTV vai à localidade de Daniel e este, agarrando a sua oportunidade, passa o dia inteiro a chatear os produtores da estação, mostrando a sua cassete e falando da mesma com entusiasmo a cada minuto, até que finalmente o deixam actuar em directo para toda a nação. Uma vitória, um momento de glória, felicidade genuína. Se o filme acabasse neste momento teria um final em cheio.

Mas, tal como a vida, The Devil and Daniel Johnston prossegue e acompanhamos o declínio mental de Daniel, perturbador e confuso, até ao actual estado sedado, mas feliz e funcional, rodeado por quem lhe quer bem. Há uma preocupação verdadeira que transparece para o público: o que será deste gentil gigante quando os seus pais, que sempre o acompanharam, falecerem? Este receio agudiza-se quando tomamos conhecimento do falecimento da sua mãe, no passado dia 16 deste mês.

The Devil and Daniel Johnston é um filme que nos faz rir, que nos comove, que nos leva a pensar sobre as nossas vidas, que nos assusta, que nos toca se o nosso coração estiver no sítio certo. Filme importante, melhor, essencial para qualquer fã de música dita independente. Artistas torturados do Mundo, vejam The Devil and Daniel Johnston e ganhem vergonha na cara!

Daniel Johnston = Génio.


Trailer:

21.9.10

5 canções para terminar o Verão em beleza

The Pains of Being Pure at Heart - Come Saturday




Belle and Sebastian - A Summer Wasting




Belle and Sebastian - Asleep on a Sunbeam




The Drums - Let's Go Surfing




Best Coast - When I'm With You





ADEUS VERÃO, ATÉ PARA O ANO!

13.8.10

SW 2010: Vens ver ou vens levar cum pau pas costas?

Este ano prometi a mim mesmo curtir um Festival de Verão à antiga. Já tinha ido 2 dias ao Optimus Alive, mas queria ir a um clássico, daqueles com campismo reles, concertos a rodos e boa onda generalizada. A escolha, por condicionantes profissionais, recaiu sobre o Sudoeste TMN 2010. Certo que, dos festivais grandes, era o que apresentava o cartaz mais fraquito, mas um ardente desejo de ver Flaming Lips no dia 5 por minha parte, muita vontade de ver Jamiroquai no dia 6 por parte dos meus companheiros de jornada e extrema necessidade de ver Beirut por parte de umas pessoas de quem gosto e com os quais já não estava há imenso tempo, e assim sendo, a Música no Coração ficou com os meus 80 € e eu fiquei com acesso aos dias todos do Festival, incluindo o infame dia de merda que afinal nem foi assim tão merdoso. Aqui fica um registo detalhado e palavroso do que vi e vivi por lá.

4 de Agosto - Recepção ao Campista

No dia da pré-época, saí de minha localidade juntamente com os meus dois comparsas já o Sol se punha, depois de uma jornada de trabalho. Longas horas por estradas mal iluminadas e sinuosas, e um condutor tresloucado rindo às gargalhadas enquanto fazia 3 quilómetros de curva apertada para a direita seguidos de 5 metros de curva para a esquerda e 10 metros de curva para a direita, até atravessar as duas casas e o poste de electricidade que constituem a localidade "Peúgas a Secar na Corda" (esta não existe mas pouco falta) e apanhar mais curvas imbecis. Um turbilhão de emoções fortes até finalmente se chegar ao SW, já a noite corria bem avançada. Aí, foi atirar a tenda para o primeiro buraquinho disponível e siga para o recinto que já lá estão os DJs.

Com o avançado da hora, só chegámos a tempo da actuação do Zé Pedro dos Xutos, mas uma viagem tão extenuante como a que havíamos tido requer uma rápida manobra de re-hidratação, pelo que na altura em que correm abruptamente com o Zé Pedro dos Xutos do palco já estávamos bem mais pobres, mas também mais alegres e dançarinos. Mesmo no ponto de rebuçado para os 2 Many Dj's. Os meninos Soulwax entraram em palco sintonizando um transístor em rádios locais, mas rapidamente passaram para a electrónica pura e dura, o que, apesar de bem conseguida, me fez passar vergonha entre os meus pares, depois de ter passado a duração de 2 cervejas a explicar-lhes o conceito de Mash-up. Os homens praticamente inventaram o género e agora já não o passam? Passam, passam, só que não se limitam a isso e ainda bem. Algumas misturas e remisturas muito bem conseguidas, com o ponto alto a chegar com "Roots Bloody Roots" dos Sepultura e testar a potência do sistema de som do Festival. Foi feliz.

Depois da actuação do Belgas não me lembro se houve mais alguma coisa, mas com o cansaço e a cerveja eu já só queria xixi-cama e foi assim que terminou o primeiro dia de Festival.

Uma foto do primeiro dia de SW:

Uma das muitas terras "miseráveis" por onde passámos


5 de Agosto - Flaming Lips e pouco mais

O SW10 é uma área ampla com uma zona de restauração decente, insuficientes casas de banho mas muito mato para ser regado, diversões que vão dos matraquilhos à montanha-russa, e 3 palcos, o principal onde actuam os cabeças de cartaz, o secundário onde actuam as bandas menos conhecidas mas quase sempre mais interessantes, transformando-se posteriormente em tenda de DJs, e o palco Reggae onde está sempre a dar a mesma música. É um festival conhecido por se situar numa área com imenso pó, e popularizou-se por trazer habitualmente cartazes bastante fortes e consistentes, mas de há uns anos para cá a qualidade dos mesmos tem vindo a decair e o público, que nunca foi especialmente bom, actualmente está reduzido a putos que acham que devem de ir a um Festival porque fica bem no curriculum e se não fossem os Espanhóis que na sua essência são os verdadeiros festivaleiros em espírito e boa onda isto era uma desgraça. Em termos de condições para se viver, o Festival possui uns chuveiros decentes e um canal de rega bastante aprazível para uns mergulhos, com a presença constante de um DJ. Antigamente perto do canal funcionava uma área de Workshops mas hoje em dia já toda a gente nasce ensinada.

O campismo do Sudoeste é uma merda. Eu já o conhecia e já o sabia, apenas não me recordava. Aliás, o campismo em qualquer festival é uma merda, mas o do SW tem a particularidade de ser simultaneamente o com menos sombra e temperaturas mais elevadas. Este ano ainda estreou a modalidade Car Camping, uma maneira de roubar mais uns euros aos tristes que caíram na esparrela, estacionando o carro ao Sol e montando a tenda ao lado da viatura, o mesmo que o visitante casual costuma fazer sem ter de pagar mais por isso. Quanto a nós, além de termos sido umas bestas por colocarmos a tenda em cima de pedras e paus, ainda fomos brindados a noite toda com um concerto de Djambés e batucada geral. Juntando a isso o facto de alguém ter tentado a sua sorte ao tentar desmontar-nos a tenda porque não nos queria ali perto do "seu" espaço e de ter sido mandado violentamente cordialmente para o caralho e pode-se dizer que não foi uma noite muito bem dormida.

Nada que um dia inteiro de papo para o ar na praia da Zambujeira do Mar não remedie, especialmente quando o areal está minado de miúdas giras, dizem os meus companheiros que eu nem reparei pois tenho uma namorada muito mais bonita e interessante e que lê o meu blog!!!

A noite foi iniciada no palco Reggae, onde depois de uns minutos sempre a ouvir a mesma música encontrei uns amigos e fomos todos contentes da vida para o palco principal, onde os Bomba Estéreo iniciavam a sua actuação. A banda colombiana possui uma vocalista que é um autêntico metro e meio de garra, tal foi a entrega com que brindou as escassas pessoas que se juntavam frente ao palco. Misturando a tradicional Cumbia Colombiana com Electrónica, a banda conseguiu fazer com que os corpos bandoleassem o suficiente para que a sua actuação tivesse saldo positivo. Colocássem-nos no FMM de Sines ou no MED de Loulé, com público sintonizado na World Music, e a sua actuação teria sido lendária.

Findada a actuação dos Bomba Estéreo, veio a melhor banda ao vivo que já tive oportunidade de presenciar: The Flaming Lips, E, 5 minutos depois do inicio, com a senhora do ecrã gigante a parir a banda, o vocalista Wayne Coyne a passear por cima da minha cabeça dentro de uma bola gigante e um arsenal de confettis e balões a serem arremessados continuamente para o público, já berrava e pulava em estado de delírio histérico, "ESTE É O MELHOR CONCERTO DA MINHA VIDA!", frase hiperbolizada pela emoção do momento mas com muita verdade nela contida, pois se não foi o melhor foi certamente aquele no qual mais berrei, pulei (descalço, pois os chinelos saltaram-me dos pés), cantei e delirei, e tudo isto sem recurso a estupefacientes! A projecção de imagens ao longo das músicas foi perfeita, a constante chuva de papelinhos multi-cores, as mãos gigantes, os lazers, os adolescentes palpitantes alaranjados, o urso em palco, as fortíssimas canções de Embryonic com destaque para a excelente "Worm Mountain" a abrir e a divertida "I Can Be a Frog" lá mais para o fim, a recordação do seu primeiro grande hit "She Don't Use Jelly" e o brilhante final com "Do You Realize??" a fechar com chave de ouro uma hora e quarenta e tal minutos de alegria pura. Consta nas publicações especializadas que o público se mostrou apático durante o concerto (retardados!) mas estava tão bem lá à frente a viver o momento que nem perdi tempo a olhar para trás, fosse eu correr o risco de perder o que quer que fosse daquele palco. Como uma criança de 6 anos que descobre que existem gelados de morango e que quer que aquele sabor dure para sempre, assim fiquei eu com o concerto dos Flaming Lips, se pudesse via-os todos os dias da minha vida que o sabor nunca se perderia!

Resumindo, gostei.

Mas a seguir veio M.I.A. e desse já não gostei. Os graves estavam tão exageradamente altos que tudo vibrava no recinto: vibravam os meus cabelos, dentes, roupa, neurónios enquanto estive na fila da frente, vibravam as tendas da comida, vibravam os palcos secundários, vibravam as tendas do campismo. Foi como se o homem do saco me tivesse roubado o gelado oferecido pelos Flaming Lips, me esbofeteasse e me urinasse para cima. Com tanto grave, as músicas que de si já não variam muito pareciam todas iguais, e como o palco estava muito escuro em contraste com o delírio visual anterior, não consegui apreciar em condições o concerto da MC.

No final, já com as pernas em papa (os chinelos eram muito maus) ainda me arrastei para o palco secundário para ver um pedaçito de Kruder & Dorfmeister, mas as condições escasseavam e fui para a caminha que já tinha dado o Vitinho.

Uma foto do segundo dia do SW:

Wayne Coyne segundos antes de me atropelar


6 de Agosto - Vamos ajudar o J.K. a comprar coca

Segunda noite horrível no campismo, com a electrónica do Palco Secundário a servir de banda sonora para a tortura dos paus e pedras que se iam alojando nas minhas costas, e o concerto de djambés e batucada da noite anterior a continuar no preciso momento em que conseguira adormecer. Cheios de mau feitio dirigimo-nos para a fantástica Vila Nova de Mil Fontes, uma simpática localidade que mete qualquer um bem-disposto, com uma praia que mesmo não sendo tão exageradamente bem frequentada como a da Zambujeira do Mar, chegou para que alguém se apaixonasse.

A noite festivaleira começou no Palco Secundário para se escutar o Hip-Hop de Ladi6, uma Neo-Zelandeza com uma excelente presença em palco, secundada por um DJ muito competente e interventivo. Ladi6 faz a já costumeira mistura de Soul e Hip-Hop, mas a sua simpatia e competência conseguiu quebrar o gelo inicial e no final do concerto o público já lhe comia nas palminhas das mãos. Uma agradável surpresa.

A seguir foi-se ao Palco Principal ver um pouco de James Morrison, o suficiente para nos dar vontade de ouvir música, e assim rumámos para o palco secundário mas lá música não encontrámos, pois estava em palco o Virgul dos Da Weasel com o seu projecto de banda-sonora-para-Feira-Popular Nu Soul Family. Ainda a procurámos no Palco Reggae, mas como lá estava a dar sempre a mesma música fomos jogar matrecos e beber coisas com álcool. Nota positiva para os seguranças que deixam entrar para o recinto qualquer tipo de bebida alcoólica, desde que a mesma esteja dentro de garrafas de plástico. Com imperiais a 2 €, foi boa onda!

De repente estou sozinho no Palco Secundário e inicia-se o concerto de Lykke Li. A Sueca deu um espectáculo poderosíssimo em intensidade e não desiludiu nem um bocadinho. Num concerto mais percussionado que electrónico, a temas mais conhecidos como "Dance Dance Dance" e "Little Bit" juntou dois temas novos e ainda brindou o público com uma cover da "Silent Shout", dos conterrâneos The Knife e um ensaio a "Ready Or Not" dos Fuggees. Vestida de negro tal como a banda e envergando um véu a espaços, a artista pouco falou mas o seu olhar e linguagem corporal ecoaram pelo espaço. Concerto curtinho, mas bom para cacete!

Seguiu-se Jamiroquai no palco principal. Este foi o meu terceiro concerto desta banda, e assim sendo tenho base de comparação. A primeira vez que os vi havia sido precisamente no Sudoeste, em 2003. Segundo as publicações da época, J.K. encontrara-se com o pai pela primeira vez nessa noite (o pai é Português) e estava particularmente excitado. Segundo as más línguas, J.K. tinha tido uma overdose de cocaína, esteve às portas da morte, mas recuperou a tempo do concerto. O que interessa é que foi um espectáculo do caraças, a banda estava afinada e o artista cantou, dançou, saltou e conversou com o público durante o tempo todo. Dois anos mais tarde, em Albufeira, surgiu o Festival Sunrise, basicamente mais uma desculpa para a banda regressar ao nosso país. O concerto foi novamente muito bom, a banda deu o litro e havia disco novo, Dynamite. Passados 5 anos e a banda já não é o que era. O concerto foi apenas um desfilar de êxitos uns atrás dos outros, o que teoricamente significa um espectáculo mais rico para ouvintes casuais, mas com a banda em piloto automático e J.K. envergando a maior cara de frete de todos os tempos, até parecia que lhes estávamos a fazer um favor por estar lá. Ao vocalista só faltava olhar para o relógio de vez em quando para ver se faltava muito para acabar. Interacção com o público nula, dança reduzida ao essencial, actuação pouco inspirada, vamos lá acabar isto que é para eu receber e estourar o guito em branca. Foi uma pena.

Seguidamente ainda espreitei o concerto dos Orelha Negra, o suficiente para concluir que a banda resulta melhor em disco que ao vivo. Creio que se tivessem sido colocados a horas mais decentes no Palco Secundário o concerto teria sido mais interessante. Assim, foi-se alternando entre o Palco Principal e o Palco Reggae onde estava sempre a dar a mesma música.

Uma foto do terceiro dia do SW:

Ladi6 com os olhos fechados.


7 de Agosto - O dia de merda que afinal até nem foi mau

Mais uma noite terrível de campismo, somando-se ao já habitual "Opus de Djambé para campista festivaleiro" e aos restos da tenda da brita um grupo de Espanhóis que esteve a tocar a mesma canção à guitarra durante bem mais de uma hora! Desta vez os paus e as pedras não chatearam porque fui esperto e adquiri um colchão de encher em Vila Nova de Mil Fontes. Isto é um Festival, não é a Via Sacra.

O mau humor matinal foi curado com uns mergulhos no canal de rega do campismo, com uma temperatura de água muito melhor do que qualquer praia da região e um DJ a passar música pouco abrasiva. Seguiu-se uma tarde em Odeceixe, e se mais nada se aproveitasse destas férias, as variadas e lindíssimas praias que tivemos oportunidade de visitar fariam com que toda a viagem tivesse valido a pena.

O dia 7 era considerado o dia mais fraco. Com um Palco Secundário constituído quase na totalidade de bandas portuguesas, um Palco Reggae sempre a dar a mesma música e bandas como Sugarbabes e Tim dos Xutos no Palco Principal, é natural que muita minhoca se encolhesse para dentro do prepúcio. Mas eu sou pessoa de coragem e enfrentei o dia com bravura, e, enquanto os meus dois cobardes companheiros optaram por rumar à localidade de acolhimento para verem o Benfica a perder, estacionei a garrafa de Vodka Limão no Palco Secundário e por lá fui ficando.

E ainda bem porque logo no inicio da tarde apanhei com o espectacular concerto dos Diabo Na Cruz, projecto que conta com gente dos Feromona, Jorge Cruz, B Fachada e aparentemente um clone do Manel Cruz vindo de uma máquina do tempo directamente de 1998 para tocar baixo, bigodinho incluído. Os Diabo Na Cruz fazem um bem conseguido cruzamento entre a verdadeira música tradicional Portuguesa e o Rock, conseguindo criar uma sonoridade interessante e acima de tudo empolgante. As letras são castiças e alojam-se bem no ouvido, e a banda tem uma atitude de curtição contagiante, estando visivelmente a divertir-se em palco e levando o público na sua onda. O album Virou! foi tocado quase na íntegra, e ainda tiveram tempo de nos brindar com uma muy bem conseguida versão da "Lenga-Lenga" dos Gaiteiros de Lisboa. Brilhante concerto, um das memórias a reter do Festival.

Seguiram-se os Anaquim, banda cuja denominação me irrita profundamente. E quando antipatizo com o nome de uma banda, fico sempre à espera que me compensem de alguma forma. Mas a banda lá se redimiu, tocando uma versão saltitante do genérico dos clássicos desenhos animados do Tom Sawyer. A música, acústica porém energética, soa bem ao ouvido, e as letras estão bem sacadas, especialmente as dos seus maiores sucessos, "As Vidas dos Outros" e "Na Minha Rua". O senhor vocalista lançou umas frases inspiradas sobre amores perdidos que só não atingem quem nunca os teve, e ainda conseguiu fazer um pseudo-dueto por telepatia com o espírito de Ana Bacalhau. Quase, quase, quase me convenciam!

No alinhamento seguiram-se os Britânicos Friendly Fires e no final do concerto, a tenda do Palco Secundário escorria suor, sendo que metade do mesmo pertencia ao vocalista da banda, que a páginas tantas suspirou um "não se admirem se eu desmaiar". O homem dançou que nem um perdido perante uma plateia muito bem composta e em estado de ebulição, numa das noites mais quentes do Festival. Praticantes de uma Electrónica com raízes no Pós-Punk, os Friendly Fires atiraram-se com unhas e dentes a temas como "Jump in the Pool", "White Diamonds" e "Ex-Lover", deixando-me de queixo caído, especialmente por conhecer deles apenas "In The Hospital", o tema dos separadores da Sic Radical, e pouco mais. O vocalista é um entertainer nato, cantou, dançou violentamente, pulou e só lhe faltou fazer crowd surfing para a entrega ser total. Grande estreia.

E com 3 concertos bem interessantes no bucho, o dia de merda estava a ser tudo menos isso, mas a maior surpresa da noite estava reservada para o fim. Num Palco Principal decorado com um estilo Disney/Tim Burton surge Mika. Isso mesmo, Mika. O maior Showman do Festival. E deu um concerto do caraças, cantando, dançando e comunicando constantemente com o público em Português e Inglês, num modo de tradução instantânea a cada palavra que pronunciava. Foi o concerto mais festivaleiro do certame, com o público a interagir entre si (finalmente) e o músico a deixar a pele em palco, certificando-se de que toda a gente dê o seu tempo por bem empregue. Surgiu uma perna gigante no meio do público durante "Big Girls", uma enorme bandeira em homenagem a um amigo desaparecido e um momento tocante em "We Are Golden", quando praticamente todo o público levantou uns corações dourados oferecidos pelo patrocínio. Uma agradável surpresa e um "toma lá para ver se é desta que aprendes a não julgar o livro pela capa".

Uma foto do quarto dia do SW:

O meu lado era o mais arrumadinho, do colchão. Experiência de outros Festivais: tenda desarrumada nunca é assaltada


8 de Agosto - Temos Festival!

Djambés, guitarradas e britalhada ainda se vai aguentando sofridamente, mas quando o vizinho do lado adquire um megafone e passa a noite a debitar catchprases de videos da net já a porca torce o rabo! Felizmente choveu perto da manhã, o que me proporcionou uma preciosa hora de sono que guardei com ternura para o resto do dia!

Com os meus colegas a destilar dentro da tenda, fui passear pelo recinto vazio, algo que gosto muito de fazer mas que ainda não tinha tido oportunidade. É um exercício interessante e recomendável, dá para se reavivarem memórias de Festivais passados e tomar o pulso ao espaço. Quando visualizo o Sudoeste, na minha mente os concertos são sempre ao final da tarde, o Sol já não castiga tanto e a cerveja escorrega como se fosse a primeira depois de um longo dia de trabalho. Nesta altura tive a oportunidade de ver o Soundcheck de Mike Patton e perceber logo ali que teria pela frente um concerto muito especial.

Depois de uma visita fugaz por uma praia cujo nome se perdeu, a última noite do Festival começou com peixe:avião no Palco Principal. O melhor deste concerto foi mesmo o mojito divinal que comprei na economia paralela, dentro do campismo. Os Bracarenses deram seca e partimos antes do encore.

No Palco Secundário actuava Carminho, uma menina muito linda e simpática que por acaso até tem um vozeirão capaz de deixar os estrangeiros de olhos esbugalhados e os Portugueses a exclamar AH FADISTA aquando cada nota mais emotiva. É com satisfação que se constata que o público fez as pazes com o Fado e já volta a rever-se nele, e prova disso é a oportunidade dada ao estilo musical num Festival supostamente Rock (já foi, em tempos...) não só a Carminho como a Camané e Mariza (e os Deolinda, que mesmo não o sendo tem muito de Fado na sua essência) em edições anteriores.

Palco Principal, e já com o nosso grupo reforçado com 3 entradas novas, seguiu-se o concerto de Mike Patton e do projecto Mondo Cane. Desta feita, o homem dos Mr Bungle e Fantômas juntou-se a um grupo de músicos Italianos e, nesta ocasião, à Orquestra do Algarve, para reciclar clássicos da canção Italiana dos anos 50 e 60. Algumas interpretações mais próximas do original ("Il Cielo in Una Stanza" é das belas canções alguma vez escritas), algumas mais Pattonianas, com recurso a urros, berros e o seu querido megafone (especialmente em "Urlo Negro"). As canções ganham potência não só com a voz do senhor Faith No More mas também graças ao brilhante maestro que dirigiu possivelmente os membros mais porreiros da Orquestra do Algarve (alguns também berravam para dentro dos instrumentos) e o grupo de músicos Transalpinos, dos quais destaco aquele que apelidei carinhosamente de Wolverine Velho e que me deleitou com a sua mestria no Theremin. No encore, a banda saíu de palco, mas a Orquestra manteve-se quieta pois o seu maestro "esquecera-se" de os mandar para casa. Assim sendo, um regresso a palco, um encore, uma vénia colectiva e um aplauso genuíno de quem se prontificou a vivenciar um concerto mágico . Este foi possivelmente o derradeiro espectáculo deste projecto, mas se Mike Patton não voltar ainda este ano voltará certamente para o próximo com outra das suas milhentas bandas. Se eu fosse a ele comprava cá um Time-Share.

De seguida, voámos para o Palco Secundário para tentar encontrar um buraquinho decente e ver Beirut, mas com a tenda cheia como um ovo inicialmente não tivemos sorte. Passados 15 minutos o cordão de segurança começou a afrouxar e lá conseguimos furar para um local mais confortável, com espaço até para se darem mini-passinhos de dança. A estreia em Portugal deve ter sido avassaladora para a banda de Zach Condon, tal a devoção mostrada pelo público que cantou em coro praticamente todas as letras, o ar dos pulmões insuflando a tenda especialmente em "A Sunday Smile", o seu tema de maior sucesso. Rubro em "The Penalty" e "Nantes", execução perfeita, trompetes a conquistar os mais reticentes e um encore que ficou a faltar porque o tempo no Palco Secundário é contado ao milímetro. Os fãs de música afinal estavam no Sudoeste e chegavam para encher uma tenda! Fiquei feliz.

E enquanto nos outros dias se lutava para arranjar que fazer durante vários concertos mais merdosos, neste dia, num erro crasso de organização, colocam-se duas das mais válidas bandas do Festival inteiro à mesma hora! Muito mal jogado. Mais um sprint até ao Palco Principal para tentar apanhar o máximo possível do concerto de Air. Desperdicei 2 oportunidades de os ver este ano, simplesmente porque o dinheiro não chega para tudo e tem vindo tanta coisa boa ao nosso País que algumas bandas têm de ficar para segundo plano. Só consegui apanhar a recta final do concerto, mas ainda vi "Alpha Beta Gaga", "Kelly Watch the Stars", "Sexy Boy" e mais duas. Deu para perceber que perdi um excelente concerto, mas eu não sou de ficar a chorar pelo leite derramado e curti como pude, abanando a anca e assobiando com ar gingão. Fiquei com vontade de os apanhar por aí um dia destes e ver o seu espectáculo do principio ao fim.

A seguir veio Massive Attack. E eu tenho feito ao longo dos anos esforços genuínos e sinceros para gostar desta banda, mas simplesmente não consigo. O concerto estava muito bem estruturado, com várias mensagens traduzidas para o idioma local a passar no ecrã gigante e a impelir à reflexão, mas a sonoridade não me entra bem no ouvido. Resisti como pude, mas às tantas desisti e fui ver um bocadinho da banda suporte do Bob Marley a tocar sempre a mesma música no Palco Reggae. Cinco minutos depois desisti também dessa banda de covers deles próprios e fui brincar aos matrecos e à palhaçada. Às tantas veio um Superstar DJ, David Ghetta, para transformar o recinto do Sudoeste na maior pista de carrinhos de choque de Portugal, mas eu estava muito cansadinho de 5 dias de Festival e, tentando não escorregar no azeite, fui dormir o sono dos justos para o banco de trás do carro. Acordei uma vez a meio da noite, para desfrutar do silêncio total, só cortado de vez em quando por um grilo distante.

Uma foto do quinto dia do SW:


Sentadinho bebendo um Mojito de contrabando e desfrutando de música ao vivo, perco o direito de me queixar da vida durante 6 meses

Rescaldo

Talvez o Sudoeste não tenha sido a escolha mais feliz para matar o bichinho de curtir um Festival de Verão do inicio ao fim. Musicalmente, sei que seria muito mais feliz num Super Bock Super Rock ou num Paredes de Coura. A minha decisão por este Festival em particular baseou-se na promessa que havia feito a mim mesmo, de ver Flaming Lips antes de morrer. Agora que os vi, faço a promessa de os voltar a ver a cada oportunidade que tiver.

Cinco dias parecem-me excessivos. Bem feitas as coisas, compunha-se o último dia um pouco melhor em termos de horários e dividiam-se as bandas dos outros 4 dias em 2, e ficávamos um Festival com mais suminho. Gastava-se menos dinheiro e ganhava-se em termos qualitativos. Quem gosta de música deixaria de olhar para o cartaz do Sudoeste com ar desiludido. Este já foi o melhor Festival de Portugal, mas a caminhada para o abismo ainda vai a tempo de ser invertida.

Participar num Festival em pleno deverá ser uma experiência a repetir, mas a fazê-lo será com outras condições de alojamento. O banco de trás do carro ganha a qualquer campismo de Festival, sem dúvida alguma, e hoje, mais de uma semana depois, ainda estou a recuperar os sonos atrasados.

Bem feitas as contas, gostei. Como poderia não gostar? Praia, calor, concertos, amigos, cerveja e sandes de hamburger de soja na mochila. Há lá vida melhor?

12.8.10

5 tartarugas ninja

Donatello



Raphael



Leonardo



Michaelangelo



Vanilla Ice

15.7.10

Tudo o que interessa saber sobre os Estados Unidos, capitulo XXIV: Mississippi

Mississipi, o Estado da Hospitalidade


Capital: Jackson

Animal: Golfinho (Tursiops truncatus)

Lei idiota: É ilegal ensinar a alguém o significado da palavra "poligamia"

Artista: Apropriadamente, Elvis Presley



Miss Mississipi (digam isto 3 vezes seguidas): Leah Laviano