3.6.11

Primavera Sound 2011, Parte 1 de 4

(Todas as fotos que aparecem nos meus posts relacionados com o Primavera Sound provém do site Polaco Popupmusic.pl.)

Antes de tudo, e só para tirar isto do meu sistema: O Primavera Sound, mesmo com as suas muitas e graves falhas, é o melhor Festival que tive oportunidade de usufruir. Chego mesmo a poder afirmar, convictamente e sem os exageros que me caracterizam, que o Primavera Sound 2011 valeu mais que todos os Festivais por onde passei e onde fui também muito feliz, juntos. Ao longo de 4 palavrosos posts, tentarei explicar o porquê, com as minhas palavras mas também com dedo alheio. Éramos 3 pessoas juntas no Festival, eu, o meu velho amigo Renato e o meu novo amigo Cristiano, que me dará uma ajuda fazendo a crónica de concertos que viu enquanto eu estava noutro palco e enriquecendo esta aventura por terras Catalãs. Vamos lá a isto!

24/5 - Apolo

O Primavera Sound é sem dúvida o maior e mais envolvente evento musical que pude presenciar, e é muito fácil ficar-se perdido face a quantidade abismal de oferta. Bem antes do arranque oficial do Festival, há concertos pelos bares e no metro, durante o Festival propriamente dito temos bandas a tocar em autocarros e no jardim, e por todo o lado há warm-up parties ou after-parties, fazendo com que a música toque por quase 24 horas, pelo que é muito fácil tropeçar em concertos meio sem querer.

Chegados a Barcelona, e depois de adquiridas as entradas a preço reduzido no mercado paralelo (com direito a cervejas pagas pelo vendedor, o que reduziu ainda mais o preço), descobrimos que o mesmo bilhete poderia ser trocado por pulseira logo naquele dia, na sala de espectáculos Apolo. Chegados ao Apolo, reparamos que estavam já a decorrer concertos nas duas salas do edifício, uma inesperada e agradável surpresa. Aleatoriamente, escolhemos ir para a sala principal, a tempo de apanhar a actuação de Eli "Paperboy" Reed, um cantor com muita Soul na voz, convidado para tocar as suas canções predilectas. Numa actuação forçosamente diferente do que estava planeado devido a problemas técnicos com o piano de serviço, Eli desfilou sozinho à guitarra não só composições suas mas também alguns temas especialmente Blues, com uma passagem por Bob Dylan. O final da actuação foi secundado pelos Pepper Pots, banda que actuara anteriormente e que fiquei sem saber se pertencia a Paperboy ou se Eli apenas era o seu produtor. Foi um concerto divertido.

Finalizada a actuação, tempo para admirar a beleza da sala Apolo, local de ambiente escuro, com luz vermelha, a dar um toque de calor e proximidade. Com uma excelente acústica, pena que a cerveja fosse apenas San Miguel (os bartenders bem que pediam desculpa, mas era o patrocínio do Festival, nada havia a fazer).

O segundo e último concerto que apanhámos no Apolo foi da banda Brasileira Garotas Suecas. Um concerto de Pop-Rock escorreito, que não entusiasmou muito mas deu para abanar a anca, e em português. Destaque para o guitarrista que cantou uma canção, com uma presença em palco bem mais merecedora de atenção que outros membros da banda com maior destaque, ou pelo menos foi essa a sensação que transpareceu. Gostei quando a primeira intervenção do vocalista em Inglês foi recebida com um sonoro "vá tomar no cú" por parte do público.

Após esta actuação, o Apolo fechou portas, pelo que não tive outro remédio senão pegar no Renato e irmos passear para os antros de perdição das Ramblas e do Bairro Gótico, com contrabandos vários, chamussas de batata, bares onde a única música provinha de headphones e prostitutas de rua tão chatas que nem com chapadas de mão aberta no rabo descolam! Barcelona, gente boa!

25/5 - Poble Espanyol

O nosso segundo dia de Festival também não contava para o arranque oficial, sendo exclusivo para os compradores do passe de 3 dias. Ou seja, quem comprasse o passe de 3 dias tinha direito a 5, 3 no Parc del Fòrum e 2 no Poble Espanyol, a abrir e a fechar. Bom negócio. O local em si é extremamente pitoresco, uma espécie de Espanha dos Pequeninos mas com edifícios de tamanho natural (Espanha dos Grandes?), onde todo o País se encontra arquitectónicamente representado. A praça central do Poble Espanyol serviu de palco para as primeiras edições do Primavera Sound, pelo que esta oportunidade representou um regresso às origens para muita gente.

Jà com o Cristiano a fechar o trio de ataque, hei-que outro trio abre as hostilidades musicais do dia, as Japonesas Nisennenmondai. Praticantes de Noise instrumental, estas pessoas de pequena estatura providenciaram um concerto musicalmente interessante, com um baixo pulsante, guitarra em permanente distorção e uma baterista com uma técnica invejável. Nunca vi alterações rítmicas tão doentias como aquelas. Gostei da banda, muito melhores ao vivo do que em disco (ou, por outra, audíveis ao vivo e não em disco), mas fiquei com a sensação que teriam sido mais felizes se tivessem tocado mais tarde no alinhamento.



Seguiram-se Las Robertas, outro trio, provenientes da Costa Rica e que deram concertos praticamente em todas as actividades do Primavera Sound. As duas meninas e o garoto da bateria que não devia ter mais de 16 anos tocaram Garage Rock, a fazer lembrar as bandas Portuguesas Indie dos anos 90, dos tempos da Bee Keeper. Musicalmente agradável, a banda vive muito de harmonias vocais que ao vivo ficam longe de funcionar, tal o grau de desafinação ou descoordenação vocal das garotas. Não me parece que se importassem muito com o facto.

E só para me estragar a brincadeira dos trios, o palco é tomado pelo septeto Comet Gain. Comparados amiúde com os Dexy's Midnight Runners, os Comet Gain não são tão divertidos, chegando mesmo a ser entediantes no geral. Salvaram-se 2 ou 3 músicas mais mexidas e inventivas, porque o resto do concerto constituiu uma boa desculpa para meter a conversa em dia e praticar um dos meus desportos favoritos durante o Primavera, elaborar teorias que provassem de uma vez por todas que a San Miguel era mijo disfarçado de cerveja.

Seguidamente, um clássico para todos os petizes góticos dos finais dos anos 80, Echo & The Bunnymen. Praticantes de Post-Punk (e o Primavera Sound foi muito Post-coisas), a banda veio ao Poble Espanyol na crista de uma onda de nostalgia, tocando os seus 2 primeiros albuns na íntegra, Crocodiles e Heaven Up There. Impressionou a qualidade instrumentista da banda e, sobretudo, a qualidade vocal de Ian McCulloch ao fim de tantos anos a cantar e a abusar. Echo & The Bunnymen em pleno pico de forma. No entanto, dois discos seguidos foi claro exagero. O Crocodiles ao vivo caiu-me bem e deixou-me satisfeito, o Heaven Up There, que considero inferior, aborreceu-me um pouco.




A fechar a noite, o primeiro dos muitos grandes concertos do Primavera Sound 2011, Caribou. Daniel Snaith y sus muchachos brindaram o público ávido de dança com um espectáculo baseado fortemente no recente Swim, pelo que a Electrónica foi a tónica dominante, regressando ao passado psicadélico apenas na já clássica Melody Day, recebida com muito menos calor do que esperaria ou desejaria. Com a banda a ocupar compactamente o centro do palco e um desfile de strobes e luzes psicadélicas, este foi um concerto intenso, que elevou a bitola para o que se seguiria nos dias seguintes. Toda a gente (até o staff dos bares) dançou com Odessa e o final do concerto deixou o público em histeria bailarina colectiva, com a excelente Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun Sun SUN SUN SUN!!!!!

24.5.11

Discos: Norton - Layers of Love United

Falemos agora do último disco que comprei. O mais recente dos 3 terços Albicastrenses-1 terço Caldenses Norton, baptizado Layers of Love United.



Gosto muito dos Norton, sempre gostei, por uma característica que faz deles muito especiais: a sua persistência. A banda já passou por muitas provas de fogo, desde mudanças de alinhamento e vocalista a alterações na sonoridade, não esquecendo o trágico e infeliz falecimento do talentoso guitarrista Carlos Nunes. E no entanto, voltam sempre, frescos, felizes, com vontade de agarrar o futuro que se deseja brilhante.

Layers of Love United, o terceiro album, nada para fora das praias electrónicas dos discos anteriores (mas sem perder totalmente o pé) e aproxima-se do terreno da Pop independente, construída à volta de guitarras luminosas e canções reconfortantes, que impelem a dançar, sozinhos no quarto com a nossa guitarra imaginária ou com queridos amigos sempre que apeteça, não interessa onde. São nove faixas, e todas elas nos fazem desejar que o Verão dos Norton nunca termine. É-me muito difícil destacar alguma canção, tal a coesão resultante do trabalho. As minhas preferidas são Into The Lights pela beleza dos arranjos de guitarra, e Layers, faixa que encerra o disco com um refrão que nos fica na cabeça e só desaparece até fazermos o gosto ao dedo e pressionarmos PLAY de novo, voltando ao inicio, o single de apresentação Two Points, que anda colado nas rádios nacionais (aqui em versão acústica).



Layers é um disco curto, mas bonito, um salto para a frente em relação aos seus antecessores. Se gostam de Two Points, comprem este disco, não ficarão desiludidos! A menina da capa aparece mais vezes no booklet, e vai ficar triste se não lhe ligarem nenhuma.

23.5.11

Discos: Toundra - (II)

Só um postzito para não deixar o blog a definhar ad eternum com um post lamechas. Gostam de música de inspiração oriental? Gostam de Post-Rock? Gostam de misturar azeite no leite? Então vão adorar os Toundra!



Os Toundra são Espanhóis, de Madrid, e parte dos seus executantes já se conheciam de uma outra banda, os finados Nacen de las Cenizas. Como banda Espanhola que é, possui à partida uma enorme virtude: os seus elementos não cantam, a música é totalmente instrumental.

Sonoramente, os Toundra estão perto de uns Mogwai, mas mais pesados, algures entre o Post-Rock e o Post-Metal. As músicas são densas e de execução perfeita, com especial destaque para o talento que se senta no banco da bateria. Algumas músicas do segundo disco, (II), são de forte inspiração Arábica/Norte-Africana, como nos primeiros instantes da faixa de abertura do disco, Tchod, e em Völand, que não destoaria numa compilação de World Music ao lado de uns Tinariwen ou de Ali-Farka Touré. Mas são as composições densas, saturadas de guitarra, que mais entusiasmam. Duas faixas em particular, por sinal as maiores do disco, que o Post-Rock quer-se longo para dar tempo para se soltarem os cordelinhos que nos atam a garganta. Os 11 minutos de Mangreb agarram-nos, mas são os 8 minutos de Bizancio a finalizar o disco que elevam (II) e consequentemente os Toundra à categoria de banda-a-não-perder já daqui por uns dias, no Primavera Sound.



Este disco e o de estreia estão por aí na net. Procurem que o exercício só vos faz bem. O nome da banda e a palavra mediafire no campo de procura do Google fazem maravilhas. Este blog é de um pirata, mas não é de pirataria.

22.5.11

Olá

O blog está parado há tempos. Não que não tenha o que escrever, mas a motivação tem-me faltado. A mudança na condição humana é uma constante, dizem, mas na minha vida, a mudança enfastia de tão rotineira e frequente.

O blog há-de ser reerguido, mas não agora. Na próxima semana há Primavera Sound, depois de Barcelona há um paquidérmico ponto de interrogação. Planeio relatar a experiência, que se espera alucinante, com bandas desde o meio dia às 6 da manhã, mas nestas coisas de blogs nunca se sabe. Vamos esperar e ver. Para já, deixo-vos com o meu mantra, See The Leaves, dos Flaming Lips.

2009 Flaming Lips - See The Leaves




See the Sun, it's trying again...
It's trying again...
Trying again...
Again...





















Again...

31.1.11

Smile and the World smiles with you










Broken Blossoms, 1919. Dedicado ao . Raio do moço é difícil de seguir, sempre a apagar blogs e a criar outros novos!

30.1.11

Filmes (e concertos): O Lírio Quebrado

O Lírio Quebrado (Broken Blossoms or The Yellow Man and the Girl, no original) é um filme mudo de 1919 que narra a história de 3 vidas que se cruzam fatalmente:o Asiático que se muda para o Ocidente a fim de ensinar os modos Budistas aos selvagens e apenas para constatar que a civilização Ocidental está para além da salvação, o Pugilista alcoólico e racista, e a sua filha, frágil, submissa e constantemente abusada fisicamente pelo mesmo. Após um espancamento particularmente violento, a rapariga foge de casa, e entra inadvertidamente na vida do Asiático. Um romance inocente nasce deste encontro, mas tolerará o violento pugilista a entrada de um Oriental para a sua família? Um filme com uma qualidade cénica que prova que o bom cinema não tem idade.



O Lírio Quebrado, belíssimo e envolvente, passou em 4 salas de cinema de quatro pontos do País (Coimbra, Leiria, Torres Novas e Torres Vedras), e se a oportunidade de ver uma obra com perto de 100 anos num ecrã gigante não fosse suficientemente cativante, o facto de a mesma ser musicada ao vivo pelo colectivo ARTANE torna o seu visionamento num evento por si só.

Os filmes mudos, na sua época áurea, nunca foram totalmente silenciosos, sempre existiu uma banda animando as cenas, um sonoplasta habilidoso que dava outra dimensão aos gestos silenciosos dos actores. Foi essa experiência que se procurou recriar, por intermédio de teclados, maquinarias e um violoncelo. O colectivo de Santa Maria da Feira criou uma tapeçaria sonora industrial que, apesar da estranheza inicial que causa no espectador, garante ao Lírio Quebrado uma intensidade absorvente, sublinhando o dramatismo nas cenas-chave e tornando a experiência memorável. Estive presente na sessão de Torres Vedras e creio que o maior elogio que posso fazer à prestação dos ARTANE é que muitas vezes dei por mim tão absorvido no filme e som que me esqueci que tudo o que ouvia era feito em directo.

Os meus sinceros parabéns à Associação de Acção Cultural FADE IN pela criação do evento. Venham mais!

27.1.11

Concertos: Joanna Newsom @ CCB

(Foto roubada à Rita Carmo)


No passado dia 26, o centro Cultural de Belém foi a derradeira casa de uma fada mágica que deambulou pelo Porto e Aveiro antes de espalhar o seu pó mágico por Lisboa. Joanna Newsom, resistente daquilo que em tempos se convencionou chamar Freak-Folk, agora artista para gente erudita de bem, desde sempre um monstro de talento!

Foi a minha primeira vez no Grande Auditório do CCB. Gostei do espaço, uma construção robusta tal como o restante edifício, que há-de durar mais que Portugal e um dia servirá de recreio para os peixinhos quando os níveis do Tejo cobrirem a baixa de Lisboa num futuro que se quer longínquo. Lá dentro, muita gente que parecia ter ficado ali a dormir desde o discurso de vitória presidencial de Cavaco Silva (mas que tiveram tempo para manter a sua farpela imaculada), alguns friques semi-disfarçados, uma fatia simpática de senhoras de idade avançada que claramente não sabiam ao que vinham (o CCB tem uma tarifa sénior muito vantajosa para quem pode dela usufruir), e eu com o meu amigo das aventuras a solo, que por pouco não foi para o Centro Cultural de Belém de fato de treino. Atrás de mim, um mentecapto concerteiro (em todos os concertos há um, e está invariavelmente sentado perto de mim), que volta e meia fazia comentários "engraçados" para impressionar a sua acompanhante, recém-namorada ou prestes-a-sê-lo. O que me leva a crer que nesta vida só não se safa quem não quer.

A abrir o concerto esteve o baladeiro Escocês Alasdair Roberts, notoriamente desconhecido para a maioria do público. Sozinho, com a cortina do palco fechada atrás de si, e munido da sua guitarra acústica, Alasdair desfilou algumas das suas cantigas mais recentes, regressando ao passado apenas em 'Waxwing', um tema do seu disco mais reconhecido (pelo menos para mim), The Amber Gatherers. Simpático, fez o que pode para cativar o público, que se mostrou um pouco indiferente, excepção feita a 'The Whole House Was Singing', onde finalmente conseguiu arrancar da audiência um coro tímido, porém ternurento. Gostei do Alasdair, a sua voz traz-me à memória os hobbits do Shire, o bucolismo campestre, a ideia romântica da Escócia verde tradicional.

Meia hora de espera depois do final de Alasdair, heis-que entra Joanna Newson, correndo palco adentro. Delicada, acenando, toda ela sorrisos, agarra-se à harpa e inicia o concerto sozinha em palco, com '81'. E todo o público ganha repentinamente estrelinhas nos olhos, e muitas bocas ficam por fechar, e o concerto está ganho. Impressiona a destreza na harpa, instrumento imponente e maquiavélico de dominar. Impressiona também a voz de Joanna, menos estranha que nos tempos iniciais, igualmente forte. Esta rapariga claramente pode fazer o que quiser com as suas cordas vocais, e é ao vivo que se tem a real percepção disso. Segue-se 'Have One On Me', já com a banda de multi-instrumentistas multi-talentosos. Joanna, sempre simpática, saltita de nuvem em nuvem entre a harpa e o piano. Regressa-se ao passado com a complexa 'Cosmia', a divertida 'Inflamatory Wrist' e a épica 'Emily', mas o prato forte do concerto é o triplo Have One on Me, galardoado como melhor disco de 2010 para várias publicações da especialidade. 'Easy', 'Soft as Chalk', 'No Provenance' e 'Good Intentions Paving Company', esta última com um soberbo solo de trombone, coloriram a noite. Para o final, uma surpresa: a minha canção preferida de todas as minhas canções preferidas de Joanna Newsom, que tem ficado de fora do alinhamento dos concertos mais recentes, 'Clam, Crab, Cockle, Cowrie'. Esta foi mesmo só para mim!

O público foi extremamente respeitador durante todo o concerto, poucos se aventuraram com palminhas. Joanna não deve estar muito habituada a tanto respeito, e bem que, entre canções, foi tentando espicaçar a audiência, que reagiu por fim quando a artista se "enganou" (propositadamente, como mais tarde se viu) e soltou um "muy obrigado", levando a um coro de correcções. "Tuy obrigado? Puy obrigado?", brincava ela enquanto alguns berravam "MUITO"!


Ovação de pé, encore com Baby Birch, nova ovação de pé, satisfação geral. O meu primeiro concerto de 2011 não podia ter sido melhor escolhido.

6.1.11

A corrida para capa do ano já arrancou!

Numa entrevista de 3 páginas para a Flash, o marchand favorito dos Portugueses fala dos seus planos para o futuro. Quando questionado sobre a sua vida após o eventual falecimento da sua querida Betty, José respondeu, ao lado de sua esposa:

"Além de todo o sofrimento que vou ter, e em que nem quero pensar, a forma que tenho de tentar superar é entrar para um convento. Irei para um convento e irei, na realidade, castrar-me. Não me estou a ver num convento de frades. Penso criar uma nova congregação de pessoas convertidas. Vejo-me, numa nova ordem, com a aprovação do Papa, e terei de lutar por isso."



Estamos em Janeiro e eu por mim fechava já a competição para capa do ano! As outras revistas da especialidade vão ter de suar para suplantar esta capa. Quando à notícia, o Zézito se calhar vai ter de cortar o piupiu lá fora, já que o nosso Presidente vetou hoje um documento que simplificaria a mudança de sexo. Mas desejo toda a sorte do Mundo à freira José e seu convento de travecas.

"O meu filho vai ter de conviver com um pai, que foi pai, e depois virou freira."

Feliz dia de Reis, pessoal!

30.12.10

2010 em revista, parte terceira: tudo o que cabe entre 'música' e 'badalhocas'

Porque cabe muita coisa entre música e badalhocas, deixo-vos com aquilo que estive mesmo mesmo mesmo quase a colocar no blog mas que não coloquei porque tinha que jogar computador/ver as Tardes da Júlia/não fazer nada... Aproveito para desejar um feliz 2011 a todos os meus clientes e amigos, não me olvidando de mencionar que o bacalhau hoje está com 15% de desconto e se encontra no corredor 9.



Seriado viral de 2010: Na casa D'Este Senhor



Veículo promocional para a cerveja Tagus, a série Na casa D'Este Senhor é um produto que poderia estar perfeitamente num canal por cabo. Valores de produção cuidados, um argumento surreal e um humor muito peculiar, capaz de arrancar gargalhadas de incredulidade a qualquer um. Seguimos ao longo dos episódios a vida na casa d'Este Senhor, anteriormente conhecido como Bondage nos tempos das Noites Marcianas. Coabitando consigo temos Adolfo o jardineiro, Sam The Kid o produtor musical, Maniche o gato e Tuxa a musa.

"Eu acho que a palavra musa vem do Latim. E a palavra foi constituída 'MUSA', pronto, porque, 'eles' exigem muito um M. Porque pronto, 'eles' têm... Usava-se muito há uns anos, 1920, 1925, musa. O M vem de Maria, o U vem de Umbelina, o S de Simone e o A vem por exemplo de Antónia, ou de António, e foi por isso que 'eles' definiram em latim, 'MUSA'."

Os episódios podem ser seguidos aqui. E, para os fãs mais acérrimos, aconselho vivamente o blog do Maniche, onde podemos ver também pérolas extra como o karaoke da Tuxa ou a história da Victoria Bacon, vocalista das Super Géreles. É bom demais.


Filme de 2010: How to Train Your Dragon



Este ano não vi muitos filmes de 2010, ainda ando a ver os bons de 2008 e a consumir todos os do Woody Allen, pelo que ainda não me actualizei devidamente com o que foi saindo. How To Train Your Dragon ganha por ter sido o único filme que vi no cinema este ano, e o meu primeiro em 3D. A história não é nova, um jovem tem problemas de aceitação na sociedade em que se insere, mas através da persistência consegue salvar o dia e provar aos outros que temos direito a sermos diferentes. Só que com Vikings e Dragões. No entanto, as cenas de voo, em 3D, estão fabulosas. É mesmo como se fossemos nós a conduzir o dragão pelos ares, tal a sensação de imersão que o efeito nos dá. Brilhante.

E sim, ainda não vi o Machette nem o Scott Pilgrim (a BD anda a sair traduzida em Português, já agora). Talvez lá para 2012.


Esquema para sacar dinheiro de 2010: Pulseiras Power Balance



De vez em quando lá surge um esquema para roubar dinheiro a quem se deixa iludir por marketings e modas. Lembro-me das pulseiras para o reumático que o meu tio usava era eu um catraio, lembro-me de ver toda a gente a andar com Crocs, a peça de calçado mais horrível alguma vez criada "porque assim o pé respira", e dentro de uns anos irei certamente recordar com carinho dos 30 euros que muitas pessoas que conheço deram para comprar uma pulseira, porque subitamente todos passámos a precisar de algo que nos equilibre, sem auxílio a um bocado de plástico com um adesivo colado estávamos o tempo a cair no chão, lembram-se?

O marketing é uma ferramenta do demónio, realmente. Criam-se necessidades virtuais nas cabeças das pessoas, e quando o embuste é descoberto já estão os responsáveis bem longe, a acender charutos com notas de 100€, banhando-se em banheiras de hidromassagem, na companhia de senhoras que não se fazem baratas. Os Espanhóis, sendo Espanhóis, ainda os multaram em 15 000€, mas o ser humano gosta mesmo de ser enganado, e daqui por uns tempos surgirá mais um artista a inventar uma nova necessidade nas mentes da carneirada. O Mundo é dos espertos.


Banda Desenhada de 2010: Axe Cop




Axe Cop é a colaboração de Ethan, um autor de banda desenhada de 29 anos, e Malachai, o seu irmão de 6 anos. Ethan desenha, Malachai escreve. Todos nós já tivemos 6 anos e certamente teremos uma vaga ideia de como a nossa imaginação corria livremente antes de nos serem impostos conceitos e preconceitos. É essa a essência de Axe Cop, a pureza da imaginação sem qualquer filtro. Obviamente, Axe Cop é só estupidez atrás de estupidez, e é isso que torna a série tão deliciosa. Estamos perante um polícia que enverga um machado mágico que utiliza para decapitar todos os maus, e uma paleta de personagens secundárias alucinante, incluíndo o seu parceiro Flute Cop que evolui naturalmente primeiro para dinossáurio, depois para abacate e finalmente para fantasma, Sockarang com as suas meias boomerang, Baby Man e a sua baby family, e o meu favorito, Vampire Man Baby Kid, que é meio vampiro adulto, meio vampiro bebé e meio vampiro criança no meio. Uma delícia!

A morada desta loucura é axecop.com. Se se vão meter nisto, recomendo que comecem pelo primeiro episódio (aqui), ou que adquiram sem leitura prévia o livro editado muito recentemente pela Dark Horse, contendo uma aventura de proporções tão gigantescas que nem sequer coube no site.


Vieira, o eterno candidato



Mais uma vez, a corrida de Vieira ao poder ficou adiada. Desta vez eram as presidenciais. Das 7500 assinaturas necessárias, foram entregues 7700, mas dessas somente 3300 estavam válidas. Ou seja, só 3300 assinaturas passaram pelas respectivas Juntas de Freguesia a fim de serem autenticadas. Muito pouco, para o apoio e carinho que os seus fãs dispensam ou dizem dispensar às aventuras políticas de Manuel João. A bem da verdade, não foi sentido desta vez um grande empenho da parte do Candidato em motivar os seus discípulos. Lembro-me da grande campanha de 2000, onde Vieira passeou pelo seu Portugal Alcatifado, fazendo comícios, participando em programas televisivos, mobilizando as massas. Desta vez também tivemos comícios, mas a uma escala mais pequena. Culpamos também os Portugueses de 2010 que são diferentes de 2000, quando agora basta fazer um "like" no Facebook para se "aderir" a uma causa. As pessoas desejam mudança mas nada fazem para a obter, não se mexem para nada, não querem saber. As coisas aparecem feitas, sempre foi assim, e agora que o comodismo está no auge, ainda mais será.

Culpo-me a mim também, por não ter não só enviado a minha assinatura, como também não ter recolhido as de algumas dezenas de preguiçosos que, tendo um proponente que fizesse o trabalho todo por elas (ir à Junta, enviar as assinaturas pelo correio), teriam também contribuído. Vontade não me faltou, aliás como não tem faltado em tudo o que é Vieirista, mas faço parte da Política local e fui desaconselhado a envolver-me... Não é uma desculpa muito válida, mas neste caso, nenhuma é.


Pelo menos, no meio de tudo isto, ainda rendeu um livrinho parecido ao do Camarada Mao!



O Livro Rosé de Sua Santidade o Camarada Presidente Vieira, compilando frases, textos e teorias do Candidato, e que será certamente o equivalente à Bíblia para o Partido Muita Fixe que eventualmente será criado em torno de Vieira! Eu já tenho o meu para levar para os comícios!


Prémio Especial Zé Cabra para juventude promissora:



VAMES AGOURAAAAAA! É AGOURAAAAAAA!


Bill Murray fez 60 anos


Cinco filmes preferidos de Bill Murray:

1-Lost in Translation
2- The Life Aquatic With Steve Zissou
3- The Royal Tenenbaums
4- Ghostbusters
5- Groundhog Day

Parabéns Bill Murray e um feliz 2011 para ti também!